A Rede Social (2009)

Avaliação: 2.5 de 5.

Talvez seja o filme mais supervalorizado de David Fincher. Não que seja ruim, o diretor acerta muito bem a ambientação, demonstra o bom gosto dos enquadramentos, e até mesmo disfarça bem as sequências estáticas, mas há um eletismo de sistema fechado, com jargões e diálogos intermináveis que parece excluir qualquer um que não seja fiel discípulo do empremdedorismo hi-tech norte-americano.

O que temos em cena é mais um conto moral do que a investigação que ele gostaria de propor. A história de um tal Mark Zuckerberg, que virou uma celebridade ao criar o Facebook, uma comunidade na web que hoje tem mais de 500 milhões de associados no mundo e, como consequência, o tornou o mais jovem magnata da história do capitalismo.
Quando visto a primeira vez o filme passou  a sensação que havia alguma coisa em grande escala submersa na frieza com que Fincher seguia a trajetória de Zuckerberg. Uma certa impotência em buscar a verdade sobre o rapaz, mais ou menos como acontecia em Zodíaco, o melhor filme de Fincher. Em Zodíaco havia o desespero de elucidar um crime que aos poucos ia escapando das mãos das autoridades. E, por fim, o mal se misturava à multidão deixando um pouco de seu odor por todos os lados. Não havia mais como combatê-lo.
Em A Rede Social, Fincher busca o mesmo subterfúgio, só que agora temos em cena um diretor todo cheio de melindres. Fincher parece ter medo do tema e desta molecada. E fica se indagando: “Do que afinal eles gostam?”,“O que querem?”.

É por isso que Hollywood gostou tanto de A Rede Social. Em essência: temos o velho assombrado pelo novo. Fincher é tão coerente com a velha Hollywood que não falta a seu filme um certo ranço saudosista. Um ranço que parece do tamanho de um bonde numa segunda conferida. O mal agora é a tecnologia, o mal parece ser como ela influi no comportamento da gurizada. Sim, embora os protagonistas do filme estejam em Harvard, eles não estão nem aí para a universidade e parecem mais preocupados em desperdiçar a vida em metas fúteis. Enfim, não são sérios, cultos, refinados, o que traduz muito do que os Estados Unidos sempre foram, mas nunca gostaram de mostrar. A nota irônica, é que Fincher e seu roteirista parecem concordar com os professores, senhores e fundadores, porque, quando não assumem na narrativa um tom pedagógico e esquemático (que parece remeter às velhas e chatas aulas de Educação Moral e Cívica) caem para o drama melancólico.
O filme começa mostrando o que Zuckerberg era e o que ele queria ser. Tratava-se de um universitário esquisitão com cara de passarinho (nisso o Zuckerberg real é parecido com o ator Jesse Eisenberg), um tipo antissocial, imerso em seu computador e recluso em seu pijamão. A nota irônica é que ele podia ser um titã na frente da máquina digital, mas era um bebê quando se tratava de resolver as relações afetivas.
Na noite que a namorada lhe deu um fora, ele se vingou da mulherada recorrendo à base de dados da universidade, para criar um site onde todos os alunos pudessem escolher, por enquete, quem era a mais bonitinha e menos burra da faculdade. O negócio fez tanto sucesso, que o nerd resolveu criar uma rede social para a gurizada expor suas futilidades.
Ei, quem aí tem mais dinheiro, o carro mais espalhafatoso, a moto mais potente, a namorada mais estonteante? Esse mundo de rivalidades adolescentes deveria ser só para adolescentes. Mas Zuckerberg acidentalmente entendeu que no mundinho cibernético esses anseios não tinham idade. Seja com 20, 30 ou 80 anos, todo mundo quer fingir que é jovem, todo mundo quer aderir ao clubinho.

O fenômeno de costumes virou fenômeno de mídia, e a proposta de Zuckerberg se estabeleceu no seio desse admirável mundo virtual que vivemos hoje.

Se o filme de David Fincher instiga alguma coisa diferente, é justamente ao mostrar que a tal revolução nas redes sociais é um maravilhoso labirinto de emoções voláteis, uma bela ferramenta para bisbilhotar, manipular, saber mais: e quanto mais você acha que sabe, mais você percebe que não sabe.
Foi essa ferramenta que tornou Zuckerberg, um sujeito que se considerava antissistema, num dos empresários mais poderosos da indústria corporativa. Sim, ele ficou bilionário, virou uma celebridade, mas aí, quando precisou redefinir seu papel na ordem social, havia todo um passado que não queria desgrudar dele.
O pior eram os antigos colegas. Esses, que se achavam revolucionários ajudando o jovem a expandir seu projeto na rede, ficaram mais do que despeitados quando o amigo sumiu de cena e depois voltou bilionário. Decidiram processá-lo alegando que o Facebook não era obra individual e exclusiva dele. A questão, claro, foi parar nos tribunais.
E o filme tenta reconstituir a perspectiva de cada envolvido. Quem está com a razão? Zuckerberg deve ou não repartir suas conquistas?
Num universo onde a apropriação do crédito alheio é uma forma de arte, dizer que as lembranças servem a seus próprios donos é o mesmo que acreditar que no mundo só vencem os justos.
Fincher adentra no mundo das aparências que regem a vida de seus personagens revelando até onde um jovem consegue ser imprevisível, sacana ou corrupto. Podia ser mais interessante se expandisse o quadro para o gênero humano. Mas Fincher aponta o dedo para a nova geração, como se não existisse uma conjuntura maior encima de tudo isso, responsável pelo funcionamento da máquina que gerou toda essa confusão pós-moderna. Ousadia mesmo seria mostrar a boçalidade jovem como a ponta do iceberg, todo alicerçado por dirigentes corporativos, como os que administram Hollywood. Mas neste vespeiro ele disfarçadamente mexeu em Clube da Luta.

Agora que está recebendo tapinha nas costas, Fincher não pode morder a mão que o alimenta.