Drama

Taxi Driver (1976)

Avaliação: 5 de 5.

Na filmografia de Martin Scorsese talvez só “O Touro Indomável”, fique ombro a ombro com “Taxi Driver”. Não só pelo fascínio que o filme continua a provocar em novas gerações, mas porque temos desde uma radiografia de uma época (anos 70) e os aspectos político e comportamental que inquietavam o mundo até o braço de força entre a Hollywood da velha geração com uma nova de barbudos e cabeludos, que estava louca para arrombar a porta e mostrar um novo cinema. Se você, leitor, ainda conta com a possibilidade de ver o filme em Blu-Ray, há uma edição de colecionador maravilhosa lançada pela Versátil que contextualiza em documentários, a trajetória de um baixinho asmático, que parecia destinado a viver como professor na universidade de Nova York e montou os alicerces para se tornar um dos maiores diretores do cinema norte-americano. Mas se você não tem como ver em Blu-Ray, no rodapé da página dou o link dos canais onde você pode assistir ao filme. Já os extras eu conto tudo aqui, porque sei que pro cinéfilo, o que importa é informação.

Robert De Niro dirigia o carro, Martin Scorsese dirigia o filme. A história assustava os produtores, tratava de um sujeito estranho e solitário que, para chamar a atenção de uma garota, cometia um atentado contra um político.

Robert De Niro é o taxista que entra com seu carro amarelo no meio da noite. É Nova Iorque, mas não adianta procurar o “skyline”. A cidade é personagem, mas não aparece o Empire State Building. Nova York é um clima, uma sombra, é fumo e são cigarros e é nesse labirinto, de bares, “coffee shops” e outros obstáculos que a história de Travis Bricke se constrói.

A edição de colecionador de Taxi Driver é montada sob o mesmo espírito. Scorsese entra em cena e como mestre de cerimônias, convida os espectadores para navegar pelos ícones que levam a documentários, como se eles fossem ruas cheias de histórias e informativos em néons.

Travis (de “travel”, viagem) é um sujeito estranho, daqueles que tem potencial para virar um assassino e que a gente se amedronta ao ler as manchetes de jornais. Quando os produtores da Columbia viram esse roteiro, escrito por Paul Schrader, ficaram com os cabelos em pé. Brian de Palma queria dirigi-lo, mas era um novato e não tinha um filme no currículo que o credenciasse para tanto. Scorsese por sua vez, rodara “Caminhos Perigosos” e era um professor de cinema da Columbia University. Enfim, parecia um cabeludo bem mais comportado que Brian. Chamaram Scorsese. Ele se demitiu da faculdade e foi a luta.

Os Passeios no Táxi Digital

Entre os alunos da Columbia University que torciam para o professor impor sua visão em Hollywood estavam Oliver Stone, Albert Brooks e outros contestadores. Scorsese estava tão apaixonado pelo roteiro que se a Columbia desse para trás, ele filmaria em vídeo e em preto e branco em Little Italy, com os amigos e vizinhos no bairro onde nasceu.

Stone dá um depoimento bem humorado sobre Scorsese dizendo que ela um sujeito doido, que vivia com olheiras, porque ficava até quatro da manhã assistindo clássicos antigos nos canais de TV e, de manhã, estava lá na faculdade, para falar dos filmes. “Marty falava compulsivamente e emendava um assunto no outro de tal forma, que às vezes, parecia um esquizofrênico conversando consigo próprio, mas adorávamos aquele nerd”. E Stone e seus amigos universitários adoraram ainda mais quando Taxi Driver estreou nos cinemas, foi um imenso sucesso de bilheteria e conquistou a crítica.

Pronto o professor tinha aberto o caminho para os pupilos e não demoraria para eles chegarem em bando na Costa Oeste.

O Disco Dois de Taxi Driver se ramifica em oito pequenos documentários, que variam de duração entre 8 e 12 minutos cada. Podemos acompanhar desde o diretor no set de filmagem (com imagens de seu arquivo pessoal) até críticos e cineastas revelando a importância de Scorsese e sua geração, que inclui Coppola, George Lucas, Spielberg, De Palma na invasão de Hollywood.

Há também passeios sobre como Nova York era ontem e como está hoje. Times Square e a rua 42 eram lugares decadentes, cheios de cinemas que passavam programação pornográfica, pelo menos na visão do prefeito Edward Koch, que aparece em depoimento para mostrar como reestruturou a cidade. E há declarações do fotógrafo de “Taxi Driver”, Michael Chapman, renegando a visão do político, dizendo que a cidade era barata e mais acessível. “Times Square era mais democrático, aceitava todo mundo na avenida, e a rua 42 era um lugar onde um jovem com poucos centavos no bolso podia passar o dia vendo filmes e ainda sobrava dinheiro para comer um hambúrguer e tomar uma cerveja numa barraquinha de lanches. Hoje, tudo isso virou uma Disney. Você precisa ter dinheiro para andar por ali, porque se acharem que está mal vestido, você vai ser convidado a cair fora”.

Em outro segmento, “Criando Táxi Driver”, Jodie Foster conta o dia em que sua mãe recebeu um telefonema de Scorsese, dizendo que tinha um papel para a filha. A mulher ficou entusiasmada, isso até saber que a filha, menor de idade, faria o papel de uma puta. “Mamãe não acreditou e acreditou menos ainda, quando me encontrou vestida com aquelas roupinhas no set e, viu Marty insistindo para que eu ensaiasse mais a cena em que desabotoava a braguilha da calça de um cliente”.

Por sua vez, o roteirista Paul Schrader conta em que situação escreveu Taxi Driver. O escritor estava no fundo do poço. Havia largado da esposa, estava desempregado, e praticamente não tinha onde morar. Dormia dentro do carro. E concebeu o personagem Travis em cima da visão subterrânea que passou a ter da cidade. “Um taxista tem uma profissão perigosa. É um sujeito que deixa pessoas desconhecidas entrarem no seu carro. E por 15 a 20 minutos, elas lhe dizem onde você deve ir”, conta.

Para Scorsese, apesar das coisas horríveis que Travis acaba fazendo, ele é um personagem profundamente humano. No making of o diretor conta que a ideia da alucinação estava em voga nos anos 70 e não só por conta das drogas, mas havia o Vietnã, havia Watergate e tudo isso demonstrava o quanto era fácil cruzar o limite entre a fantasia e a realidade.

“A fantasia é tão real quanto a realidade para Travis”, explica. “E se você está pra baixo e é um cara solitário, podem não fazer nada contra você, mas você acredita que é possível que façam. Acho que todo mundo já teve essa percepção negativa das coisas. Acontece que para não ficar paranóico, a gente deixa passar, mas há pessoas, como Travis que não conseguem sair do buraco”, comenta.

Para finalizar a navegação, há uma seção bem pessoal, em que Scorsese mostra os desenhos que produziu antes das filmagens de Taxi Driver. Os storyboards são tão detalhados, que podemos acompanhar as cenas do filme com a seqüência dos desenhos. O diretor defende os storyboards como base para se criar qualquer espetáculo. “Sei que existem diretores que acham frescura, mas os desenhos são importantes. Primeiro porque já chego no set com o senso visual do filme estabelecido e, segundo porque ele me deixa mais seguro para dizer aos outros o que penso e como pretendo fazê-lo”, esclarece o realizador antes de dar um sorriso maroto e complementar: “Mas depois tenho que me desprender desta segurança. Afinal, sei o que quero, mas gostaria de ver o que mais consigo”.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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