Comédia

Beetlejuice: Os Fantasmas se Divertem (1988)

Avaliação: 4.5 de 5.

Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Mas pode ser muito divertido, como Tim Burton defende em Beetlejuice. Os jovens recém-casados, Adam (Alec Baldwin) e Barbara (Geena Davis) Maitiling, acabam de adquirir a casa dos sonhos, estão cheios de planos, e, de repente, num corriqueiro passeio, bang!, terminam no fundo de um rio. Correção: terminar não é a palavra adequada para usar num filme de Burton. Não existe fim no trabalho desse imaginativo realizador, como também não existe o “até que a morte vos separe” para o casal, porque, segundo a tese aqui, esse é o começo de uma nova vida.

Uma vida que Adam e Barbara começam de modo indignados. Afinal, a morte obrigou os dois a saírem no melhor da festa sem se despedir de ninguém. E pior, os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que eles deixaram durante uma vida inteira.Eis uma pegadinha macabra: a melhor amiga do casal vai vender a casa que eles suaram para conseguir a uma família de sofisticados e detestáveis nova-iorquinos, que são muito mais macabros do que qualquer alma penada, mais horrendos do que inclusive, eles se tornaram como fantasmas. Por isso eles fazem o que podem para assombrar o local e assustar os novos proprietários.Cortam a cabeça, descarnam o rosto, gritam “Buu!”.

Burton faz o espectador comprar a ideia de que esses velhos truques não assustam mais ninguém. Nossos heróis se queixam da situação numa burocrática repartição pública do além e só recebem em troca o entediante chá de cadeira e a má vontade no atendimento. Resta-lhes a alternativa de contratar um serviço marginal: Beetlejuice (Michael Keaton), um fantasma petulante, que se gaba de ter criado um método de pregar sustos revolucionário.

O filme não é tão revolucionário assim, mas tem sua parte marginalmente engraçada. Primeiro, porque está longe daquela mesmice certinha de Hollywood, segundo, não compreende uma história que vai de A para B, passa para C e termina em D, e, terceiro, os monstros em stop motion são uma combinação psicodélica de bichos de pelúcia e vermes roxo e lilás feitos de massinha. As coisas que acontecem sem razão são as que mais energizam o filme. Não sabemos, por exemplo, quem era Beetlejuice antes de morrer, mas, se arriscarmos pensar num trapaceiro tarado e dependente de drogas, os rastros do que ele diz sugere que um dia já foi esse maltrapilho fantasma. Talvez. O mesmo pode-se pensar daquela família novaiorquina. Da matriarca  (Catherine O’Hara) temos indícios de que é uma artista plástica. Ela faz esculturas bizarras. O pai (Jeffrey Jones) é quase um adereço, mas tem sua importância. Talvez seja um herdeiro milionário, afinal, parece ser o cara que custeia a arte da esposa e as excentricidades da família. A filha (Winona Ryder) se veste de preto, é estranha, e se revela a única pessoa capaz de enxergar os fantasmas. Será sensitiva?

Talvez seja apenas uma adolescente levando vantagem sobre os adultos ao renegar as convenções tolas onde todos parecem mergulhados até o nariz.

Para chacoalhar o mundinho normal, Beetlejuice põe o pop-calipso de Harry Belafonte para tocar. É o único gatilho que parece despertar os vivos da condição catatônica.

Aí sim a comitiva de boas vindas aparece. Tem de tudo entre os personagens que desfilam pelo filme: de um explorador com a cabeça encolhida a um esqueleto canceroso que não consegue parar de fumar, de uma assistente de mágico cortada ao meio a um nadador com um tubarão ainda comendo sua perna.

Mas é tudo colocado como um espetáculo de variedades, com mortos-vivos implorando para fazer mais um número musical. Uma pena, aliás, que o filme não tenha versão nesse formato, porque para Beetlejuice sua própria noção de assustar as pessoas é fazer um grande show.

E ele segue em frente. Aparece em uma cena com um pequeno carrossel encima da cabeça, asas de morcego saindo de suas orelhas e enormes braços infláveis que se transformam em marretas. E as marretas deliciosamente mandam para o espaço advogados e empresários neoliberais. Em outro momento, quando Barbara pergunta se Keaton pode ser realmente assustador, ele levanta a saia dela para espiá-la safadamente. E quando gira a cabeça em outra cena, reclama:” Vocês não odeiam quando isso acontece?”

Não precisa repetir o nome do fantasma três vezes para se divertir. Beetlejuice é a primeira pérola macabra dirigida por Burton. Não tão bem-acabada como Edward Mãos de Tesoura e outras que viriam depois, mas cheia de surpresas estéticas que passadas gerações continua mantendo a originalidade e o frescor contagiante.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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