Terror

Terror numa casinha de sapé

Avaliação: 4 de 5.

Poucos filmes me comovem tanto como “Eternidade” (2016), “Boneca” (2019) e “Antônia” (2020), de Flávio Carnielli. Mesmo em seus filmes mais “podreira”, há uma ternura! Pude rever os três, um seguido do outro, ontem na sessão da Meia-Noite no Auto Cine de Paulínia e, caramba, não me lembro de ver no cinema nacional atual, alguém que testa tanto os limites da linguagem fazendo cinema de terror.
Carnielli é um enfant terrible, que aterroriza até por suas opiniões políticas. Ele bate continência pra insultar a Esquerda e ridiculariza a Direita, chamando todos os líderes do atual Brasil de palhaços. Faz isso, primeiro por conta de seu embasamento (Carnielli é pós doutorado em História) e compreende profundamente o círculo vicioso que o país vive, e segundo, porque um artista de verdade anseia sempre por um mundo menos binário. No cinema, é um romântico deslocado, experimentando combinações inusitadas e sensoriais.
Nos demos muito bem durante as filmagens de “Antônia”. Ele, eu, e sua esposa, Helen Quintans, grande fotógrafa, discutíamos cada composição, e nos detínhamos em cada imagem com tanto prazer, tanta ânsia de mostrar – ao mesmo tempo em que buscávamos um certo significante. O filme não tem um único diálogo, a trama é toda contada pela câmera.


Mas tenho que falar dos filmes que não participei também para evidenciar o talento do cineasta. “Eternidade” é um flerte de Carnielli com o cinema expressionista alemão e, óbvio, seu jogo de sombras é preto e branco e mudo; “Boneca” carrega no gore, com uma piscadela para o Giallo italiano, norteado especialmente por Dario Argento, e ele testa o estômago do espectador nas minúcias como faz jorrar o sangue dos corpos.
“Antônia” é o mais depurado. Todo erguido em tableaux, enquadramentos fixos e extremamente simétricos, como aquelas fotos coloridas e pintadas a mão dos álbuns de fotografia de nossos bisavôs, e pontuado por um silêncio terrível, só interrompido pelo barulho de moscas sobre o corpo de uma criança que contraiu varíola, e que os avôs se negam a enterrar mesmo depois de morta
Há centenas de críticos brasileiros escrevendo sobre essa nova vertente de terror, que de fato é uma excepcional alegoria sobre o que o Brasil se tornou, mas tenho certeza que não deve ter mais que meia dúzia, que conhecem algum trabalho deste cineasta do interior, atuante há 15 anos no cinema, e que arranca medo das plateias até quando filma uma casinha de sapé.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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