Aventura

Baby Driver – Em Ritmo de Fuga

Avaliação: 3.5 de 5.

Esse é um filme de assalto Tarantinesco reconcebido como um musical de jukebox por um diretor inglês conhecido por besteiróis pop deliciosos como Todo Mundo Quase Morto, Scott Pilgrim Contra o Mundo e Chumbo Grosso. Para quem não se lembra o nome, estou falando de Edgard Wright. Ele é cultuado em muitos círculos, mas nunca foi levado a sério como deveria.

Convém prestar mais atenção.

Taí um cineasta com um febril e delirante senso de aventura, que nunca resvala no tom cerimonioso. Ao contrário, é ferina a inclinação do cineasta para espinafrar a tradição. Wright sabe que o cinema de Hollywood – reflexo de uma sociedade imatura – acredita em super-heróis, vilões e forças ocultas. Assim propõe em seus filmes zombar de todo esse sortimento sem medo de medir seus excessos.

Para ele, faz sentido que entre todo esse novo mundo de linguagem cifradas, os adolescentes estejam num patamar superior. É uma figura do gênero que ele elege para empreender sua nova aventura. Ansel Elgort, o August de “A Culpa das Estrelas”, faz Wheelman Baby, um motorista de fuga dos sonhos para qualquer assaltante de bancos. O tipo de garoto de poucas palavras, imerso na trilha pulsante de seu fone de ouvido e que dirige como o diabo, safando os ladrões da polícia, com seu jeito audacioso e intuito de pilotar máquinas envenenadas.

A viagem de Baby sempre é dupla, um delas ocorre na direção de um carro, a outra, introspectiva, acontece dentro da sua bolha musical. Enquanto espera que a quadrilha saia do banco, ele escuta a eletrizante “Bellbottoms” de Jon Spencer Blues Explosion, estalando os dedos, transformando o console do carro numa bateria e repicando o ritmo ao som dos limpadores do pára-brisa. Ao ver isso, um assaltante o chama de retardado, o outro quer matá-lo.  Baby é menosprezado e tratado como um insignificante.

Acontece que tudo o que os adultos fazem de forma atrapalhada, o garoto refaz com a leveza de um malabarista. Menos atirar. Ah, essa índole destrutiva não faz parte do caráter de Baby. Ele não pertence a essa geração.

Em meio a violência atroz da quadrilha, ele se enfurna no seu mundinho. Os tiroteios alucinados ganham a tela e ele se comporta quase como um autista. Há cenas em que o ra-tá-tá-tás das metralhadoras servem como pontuação melódica, proporcionando uma seção de ritmo homicida.

Claro, o garoto não quer ser acordado, mas a truculência do mundo real não demora a atingi-lo.

No particular, Baby é um dos personagens adolescentes mais comoventes a desfilar nas telas esse ano. Se em princípio, parece meio bobo, um homem-criança atrofiado, no decorrer, descobrimos tratar-se de  um menino forçado a crescer precocemente. Um garoto que convive com um insuportável zumbido no ouvido após um acidente de carro que matou seus pais, e que agora está a mercê de Doc (Kevin Spacey), um líder criminoso, especialista em jogá-lo nas missões mais perigosas. Baby acredita, que o próximo assalto será o último. Depois estará fora. Mas quem disse que Doc deixará ele partir?

A generosidade de Wright com os atores muitas vezes é subestimada. Aqui ele compõe junto com Elgort, um colorido cheio de nuances para o protagonista. Embora em princípio, a auto-terapia musical de Baby pareça apenas uma muleta estilística para o cineasta, no prolongamento, ele busca uma compreensão que se traduz num ideal e nas próprias motivações de Baby. A música acrescenta sombras a um personagem que se inclina para um vazio severo. 

Quando Baby se interessa por uma garçonete chamada Debora (Lily James), seu flerte desajeitado se reafirma de novo pela música, e o diálogo passa a ser tanto sobre a história da canção, como também sobre a história de cada um dos dois.

Lily James (Cinderella) acaba não fugindo muito da mocinha fofa e meiga, mas o resto do elenco encaixa-se perfeitamente ao enredo. Kevin Spacey condensa em seu líder criminoso tanto a frieza de um assassino, como uma inesperada ternura:  algumas vezes ele trata Baby como filho. E só mesmo Spacey para combinar essas duas contradições, tornando o personagem convincente.

Outro que surpreende é Jamie Foxx. O ator compõe o criminoso mais psicótico da quadrilha. Batts, seu personagem, é um observador desconfiado e não permite que ninguém o encare. Olhou torto pra ele e você morre. Jon Hamm (da série Mad Men) constrói a persona de seu ladrão, de forma avessa a de Foxx. Se o outro, a primeira vista se revela violento e perigoso, Hamm se apresenta afável, simpático, mas basta alguém espetar os olhos gordos em sua esposa, a sexy Darling (Eiza González), para a transformação. Num piscar de olhos, é tomado pela raiva irracional e mais impiedosa do que a de Batts.

Há um quinto ator em cena precioso, CJ Jones. O veterano vive Joseph, o pai adotivo surdo de Baby. As conversas de seu personagem com Baby, usando a língua de sinais dos surdos mudos, são cheias de vivacidade e ternura.

Por trás da diversão inconsequente, “Em Ritmo de Fuga” assume-se como uma sátira a atual briga pelo poder que tomou a atual Hollywood. O garoto nerd, imerso no mundinho do fone de ouvido, e que todo mundo menospreza, está assumindo a chefia dos estúdios. E Wright, muito cáustico, brinca com a ideia da sucessão, ao mostrar que a esperteza de Baby pode levá-lo a dominar  as circunstâncias. Isso não impede Wright de azucrinar com a idéia de seleção natural, mostrando que depois do adolescente nerd o próximo passo no topo da escala de poder talvez seja a criança nerd. A certa altura, um garoto de 10 anos aparece para suplantar a esperteza de Baby. A criança desarmando todo mundo com seu olhar atento e memória prodigiosa é uma piada, mas ilustra maravilhosamente o infantilismo que anda tomando o mundo da política e dos negócios. Basta olhar para o presidente-empresário criança sentado nesse instante na Casa Branca.

Botemos alguns defeitos. Na meia hora final Wright empolga-se tanto com seu tour de force cinemático, que o todo quase desaba no maneirismo estéril. As cenas e sacações do diretor extrapolam a duração do filme, que podia acabar uns 15 minutos antes. O excesso de entusiasmo, compromete o resultado. Mas para um diretor tão preocupado com a necessidade de crescer sem perder de vista suas obsessões artísticas, Wright continua a aprimorar suas habilidades com muita verve. Não é definitivamente um diretor apenas fascinado pela pirotecnia.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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