Drama

Carol (2015)

Avaliação: 4.5 de 5.

Todd Haynes, o mais discreto dos grandes cineastas do cinema norte-americano, faz uma nova visita aos anos 50. Da outra vez em “Longe do Paraíso”, abordara o drama de uma mulher (Julianne Moore) escondendo de todos a homossexualismo do marido e sua vontade de ser livre para se relacionar com o jardineiro negro. As sutilezas silenciosas do coração estão de volta em “Carol”.

Haynes abre o filme com uma analogia maravilhosa, deslizando sua câmera por uma Nova York onde a multidão se comporta como se estivesse numa vitrine. Em seguida passa por uma maquete, onde as pessoas são bonecos e o trem é de brinquedo.  Estamos num mundo de aparências, período de luz e sombra em que nada pode fugir do figurino. Rodney Mara é a vendedora do lado de lá da vitrine que vende o trenzinho de brinquedo para o filho de alguém que está do lado de cá: a Carol, do título, vivida por Cate Blanchet. Carol é a mulher fina, trajando roupas de alta classe, sustentando nas costas o peso de parecer bem-sucedida e feliz. Ela quer o divórcio do marido (Kyle Chander). Ele quer entender o que a faz agir assim. Coloca detetives atrás da esposa. Esses gravam a mulher numa cena tórrida com a vendedora de brinquedos. O marido parte pra retaliação.

A trama é uma adaptação do romance “Carol”, da célebre Patricia Highsmith, escritora de thrillers criminais, aqui num registro mais intimista. O livro foi publicado originalmente com o título “O Preço do Sal” e sob o pseudônimo de Claire Morgan, por causa do contexto ultraconservador da década de 1950. 
O mérito de Haynes é o de enquadrar tudo numa moldura clássica, com uma condução bem calibrada e a noção precisa do que deseja iluminar. Contribui muito para o sucesso da visão a presença de Cate Blanchet. Cate põe o filme em ressonância com sua extraordinária presença sensual. Se o espectador quer entender o que era glamour antigamente, e nunca viu Ingrid Bergman, Grace Kelly em ação, a aura que Cate cria para sua personagem, é um excelente exemplo. Rodney Mara também é inteligente e tem seu encanto. Em comparação, quando Mara fez a garota punk de Millenium, o que víamos era uma personagem espontânea, sua revolta tinha uma crueza, não se percebia atuação alguma, mas aqui em “Carol”, percebe-se – e é assim que tem que ser: afinal a personagem quer escapar da tradição, mas nem com a energia jovem, consegue. Representa o estilo de vida e aparências soberbamente controladas da época. Se existe possibilidade de mudança para essas mulheres, esta será a chegada dos anos 60 e o triunfo da revolução dos costumes, da contracultura. Isso, claro, está no extracampo. Não é o que vivem no momento.

De certo modo, Haynes quis fazer a história de um ambiente sob o prisma de alguém que chega de outro lado: “Carol a reconfortava de uma maneira que Long Island não conseguia…”, diz uma terceira personagem à certa altura. Esse lugar onde deveriam caber todos, mas só cabem alguns é um manancial para Haynes pintar a melancolia e a solidão com uma elegância sem igual.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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