Ficção Científica

Star Trek (2009)

Avaliação: 4 de 5.

J. J. Abrams tem realmente um toque mágico, capaz de fazer florescer colheita de uma terra estéril. Em 2009, “Star Trek parecia uma galáxia inútil para Hollywood. A fórmula já tinha sido rebatida em filmes, desenho, séries e estava esgotada. Só os fãs acreditavam numa reviravolta. E ainda assim não viam Abrams como o sujeito a assumir o trabalho. Afinal, ele mesmo admitia que nem era fã do seriado. O que um indivíduo do gênero podia trazer de revigorante para o universo trekkie?

Abrams deu de ombros. Abriu o capô da USS Enterprise sem medo de sujar as mãos, chamou sua famosa junta de colaboradores, e se pôs a estudar cada engrenagem do maquinário, antes de botar o motor para funcionar.

Falam da retomada de uma saga, mas o filme que saiu deste estudo, sugere pontes de interesse e de raciocínio mais abrangentes. Com novos atores em velhos papéis, novidades para o cânone Trek e, no cockpit, uma equipe de criativos e (re)conhecidos show-runners da TV reformulando todo um imaginário.
A tal equipe era formada pelos fiéis escudeiros de Abrams, Damon Lindeloff, produtor executivo da série Lost, e Alex Kurtzman e Roberto Orci, roteiristas e criadores da série Fringe.
Essa turma trouxe uma nova levada rítmica à TV, criando situações que invariavelmente colocam os personagens em alta pressão e intrigas científicas cheias de implicações sutis e profundas. Era questão de tempo para que percebessem que a amplitude destas ideias somadas tinha potencial para migrar para o cinema.
A ação aqui corre em duas instâncias. A primeira passa-se na Terra e temos o jovem rebelde Kirk (Chris Pine), órfão de pai e sem perspectiva de carreira. A segunda acontece no planeta Vulcano e temos Spock (Zachary Quinto) totalmente deslocado do ambiente. Ele é fruto de um casamento interracial (ou interplanetário, se preferirem), a mãe (Winona Ryder) é terráquea; o pai um vulcano, bem metódicos e racionais. E Spock, acredite, sente-se mais ligado à mãe e não suporta a mente paterna tão lógica. A vida de Kirk então se entrelaça a de Spock e delineia o tema que percorre todo o filme: a angústia da filiação.
Sim, porque mais do que ser uma história sobre pais e filhos, tema central à narrativa hollywoodiana, este Star Trek levanta questões de transmissão de conhecimento, de valores e de heranças aceitas ou renegadas. É intrigante, porque esse conflito entre o respeito pela tradição e a necessidade de injetar novidade para avançar a frente, foi um dilema que Abrams e seus escudeiros viveram na própria pele ao assumir as rédeas desta franquia.
Como é que se tira o novo do velho? Fazer uma prequel, por si só, não adiantaria, era preciso infundir-lhe uma “alma” definível e tangível que mantivesse intacto o espírito original, mas agora funcionando com novo motor e injeção turbo.
É assim que os desajustados Kirk e Spock se encontram na Academia da Frota Estelar, se estranham, competem entre si, e gradativamente viram aquelas duas figuras que se tornaram famosas por suas discussões envolvendo o emocional e a lógica.
Fosse só esse confronto e já teríamos um oceano de possibilidades, mas o caldo da comédia humana engrossa com a formação da futura tripulação da mítica Enterprise, com Nyota Uhura (Zoe Saldana), o médico Bones (Karl Urban), o russo Chekov (Anton Yelchin) e o tenente Sulu (John Cho) a bordo. Scottie (Simon Pegg), o homem da casa das máquinas, só entra em cena depois, mas com uma intervenção memorável.
E por falar em memorável, uma quebra dos paradigmas da unidade de espaço/ tempo, permite-nos ver o velho Spock (Leonard Nimoy) interagir com o novo Kirk por alguns minutos. Essa participação será fundamental para amarrar a história.
O vilão de plantão é um romulano. Tem nome de imperador louco, Nero, e cara de buldogue (na verdade é o Eric Bana, mas a maquiagem é tão pesada, que ele está irreconhecível). Para um filme tão racional, é o personagem mais irracional da trama. Parece que está ali apenas como alvo, para levar socos de Kirk (afinal foi Nero o responsável pela morte do pai do herói) e receber tiros de Spock, porque o vilão agora está prestes a destruir o planeta natal do vulcano.
Os fãs da série clássica podem chiar que falta a trama aquele aspecto altruístico e edificante que Gene Roddenberry gostava de imaginar para o futuro, mas isso é pura balela. Esse Star Trek é cinema popular de primeira grandeza – com um extraordinário lado lúdico que vê os nossos heróis saltarem de cenário em cenário, de apuros em apuros, sem que nunca se perca o ritmo, e sem que isso implique na perda de vista da construção de personagens sólidos e plausíveis. Fossem todos os blockbusters que hoje se produzem nos EUA tão certeiros como este, o cinema popular de Hollywood não andaria com tão má reputação.

Clique aqui pra você ver em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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