Ficção Científica Romance

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004)

Avaliação: 5 de 5.

Esse é um filme que não canso de rever, e ele está disponível fácil nos canais de streaming (veja onde lá no rodapé do texto). Gosto demais de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), primeiro porque ele desafia classificações. Não funciona como um veículo pra Jim Carrey, embora a Universal na época tentasse vender como uma comédia do astro. E para os mais cinéfilos, também  deve-se avisar que não é um filme de diretor. Contrariando a política de autores, que diz que a alma de uma obra cinematográfica pertence ao realizador, “Brilho Eterno” é mais uma prova do roteirista Charlie Kaufman, de que dá para manter sua marca distinta mesmo depois que seu texto passar pelo batalhão de interventores – leia-se produtor, diretor – que concretizam o filme.

A graça para Kaufman reside em embaralhar a lógica justamente dentro da indústria. Daí, porque ele vive corrigindo os interlocutores que lhe perguntam sobre sua condição de independente. “Eu não me vejo fora de Hollywood. Seria muito chato não pertencer à comunidade”.

Kaufman é um jogador da pior espécie. Daqueles que desarmam um pacto com o diabo no blefe. Não importa quem seja o produtor, o diretor, os astros, ele constrói suas histórias como se fosse um labirinto e só entrega o mapa da saída àqueles em que confia.

E, claro, a turma de colaboradores é seletiva e pequena: Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich), Michel Gondry (Natureza Quase Humana e Brilho Eterno) e George Clooney (Confissões de Uma Mente Perigosa), o que não impede de contrariar qualquer um deles.

Spike Jonze, por exemplo, pode até achar que “Quero Ser John Malkovich” é um filme pessoal. Mas na segunda colaboração com Kaufman (“Adaptação”), este o lembra que a questão da autoria cinematográfica é muito frágil, o processo colaborativo, que envolve tantas etapas, pode trazer Criativos que pouco a pouco mancham a unidade do que inicialmente era só seu. Claro, que a noção de autoria não é tão simples assim, mas ela se presta muito bem a Kaufman, que adora mexer com nossas certezas.

De fato, um filme nasce pelo menos três vezes. No momento em que está sendo escrito, na hora em que é filmado e depois na edição. E “Adaptação” orbita em torno de um único Deus, o roteirista. O diretor sequer é mencionado neste filme em que a ação avança sobre a crise que aflige o profissional quando ele tem prazo para entregar um texto, mas não consegue preencher sequer uma página. Não por acaso, o nome do personagem feito por Nicholas Cage em “Adaptação” é Charlie Kaufman.

Em “Brilho Eterno” continuamos neste mesmo mundo excêntrico, difícil de classificar. Por ter Jim Carrey você pode pensar que se trata de uma comédia. Alguns poderiam defini-lo como uma tragicomédia, mas nada é muito claro, as ironias entrecruzam-se e no caminho encontramos romance também.

Talvez seja esse o flerte principal de Kaufman, o de escrever o mais alegremente perverso filme romântico dos últimos anos.

Começa com o personagem de Carrey, Joel Barish, chorando compulsivamente. Ele sente um vazio, mas não entende o por quê. Joga tudo para cima para fugir para uma praia que surgiu repentinamente no seu pensamento. Como a Alice, de Lewis Carroll, esse sujeito sempre é surpreendido com o que encontra pela frente. Em seu primeiro passeio pela praia, ele enfrenta o frio e uma nevasca. E no segundo passeio se depara com uma garota de cabelos azuis, Clementine (Kate Winslet). A desconhecida anda a esmo como ele, mas Clem imagina que talvez Joel possa preencher a lacuna que ela também está sentindo.

Embora não saibam, eles já viveram juntos. Amaram-se profundamente a ponto de se consumirem e então acabou. Mas terminou tão mal, que Clem decide tirar Joel de sua vida, como se remove um utensílio de casa.

No mundo de Kaufman, a crueldade pode ser obtida por atacado, graças a uma empresa, a Lacuna, que pratica a lavagem cerebral a um custo popular.

Clem apaga Joel de sua memória e ele se propõe a fazer o mesmo de vingança. Joel se submete ao Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson), que está experimentando uma técnica em que consegue mexer com os mecanismos do funcionamento das emoções, dos sentimentos, da memória. No meio do processo, ele se lembra de várias coisas que gostaria de guardar e tenta resistir a operação.

Há uma ambição experimental de Kaufman pela estrutura como ele faz sua história avançar. Ela se desdobra em duas ações, a que envolvem as pessoas que estão fazendo a lavagem cerebral em Joel e a que se passa dentro da cabeça do protagonista.

Do ponto de vista dramático não dá para dissociar o trabalho de composição de Jim Carrey com a de Kate Winslet. Afinal Joel e Clem não são apenas almas gêmeas, ela aparece no interior da consciência de Joel, como uma extensão de como ele a vê. Neste particular, viramos cúmplices do egoísmo do personagem, de seus segredos e intimidade (que numa seqüência se põe inclusive a se masturbar). Mas Clem não deve ser vista como um ventríloquo que Joel controla o tempo todo. Afinal o fracasso do relacionamento do casal não pertence a ele apenas. E isso, no filme, é sugestionado, pela forma como Clem implacavelmente apaga Joel de sua memória.

Enfim, ambos não são as peças mais adequadas para figurar como exemplos de um filme romântico. Mas isso os torna demasiado reais.

Na consciência de Joel a ordem temporal segue outras leis, o que é um prato cheio para o diretor Gondry brincar com a linguagem e as conexões de começo, meio e fim, aqui embaralhadas. Dentro do sistema nervoso do personagem, a lógica espacial também é subvertida nos cenários. Assim Joel abre a porta de seu apartamento e cai numa praia, que por sua vez vira um lago gelado. Então ele encontra um túnel que o leva ao consultório do Dr. Mierzwiak e depois o arremessa numa série de atalhos sem fim.

Neste ponto o filme já está completamente desembaraçado das contingências críveis. A corrente que liga o mundo imaginário de Kaufman com o real permanece longa e solta. E ele não se intimida em ir além. Reescreve as leis da física e as convenções da fisiologia para que elas combinem com suas próprias exigências.

É um legítimo beijo de coelho do roteirista nos executivos de Hollywood.

Clique aqui pra você ver em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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