Drama Suspense

Munique (2005)

Avaliação: 5 de 5.

Basta digitar o nome Spielberg em qualquer navegador, e eles listam uma dúzia de títulos pelo qual o diretor é referência, mas por que não vejo entre os dez, o filme “Munique”, um dos que mais aprecio da filmografia do cineasta?

“Munique” foi o filme que deixou o governo de Israel irado com Spielberg por dar um rosto humano aos palestinos e por mostrar os equívocos da Mossad, O Serviço de Inteligência de Israel, em sua ânsia de cumprir uma vingança depois do atentado  aos atletas israelenses na Olimpíada de 1972.

O filme, claro, é menos sobre a questão Israel-Palestina ou sobre a reação de Israel ao terrorismo palestino e mais sobre a América do pós 11 de setembro e, sobre o estado de alerta que o terror instaurou no mundo desde então. “Como artista”, conta Spielberg, “percebi que alguma coisa precisava ser  dita sobre essa lógica absurda da retaliação. Esse tipo de vingança só aumenta a escalada do terror, mas ninguém se pronuncia a respeito. Então decidi falar”.

No lançamento de “Munique”, houve tantos protestos dentro da comunidade, inclusive pronunciamento do governo de Israel dizendo que Spielberg tinha feito uma obra infeliz, que o Midas de Hollywood se ergueu mais uma vez: “Meu filme não é partidário a ninguém. Eu o fiz exclusivamente para mostrar que nenhum dos dois lados tem razão”.

Mesmo após “A Lista de Schindler” (1993), muitos foram aqueles que continuaram a considerar Spielberg um menino, um simples entertainer, cujos temas nos filmes são sempre superficiais e fáceis de identificar. Consideremos meia verdade. Não dá pra dizer isso de “Prenda-Me Se For Capaz”, “Ponte dos Espiões”, “Terminal” ou até mesmo de “Guerra dos Mundos”.

“Munique” é muito mais do que um simples e redutor relato dos acontecimentos dos Jogos Olímpicos de 1972, em que 11 palestinos entraram na Vila Olímpica, assassinando dois atletas israelense e fazendo mais nove reféns, posteriormente, também aniquilados. É um autêntico e duro questionamento do conflito, que, como sabemos, não começou propriamente ali, mas que dali pra frente se agravou. Isto porque a operação de vingança desencadeada, secretamente, pelas autoridades israelenses, nem sequer arranhou a auto-estima dos palestinos. No fim, nem mesmo o governo israelense, que gastou US$ 2 milhões para montar a operação, tinha certeza de que verdadeiramente tinha punido os culpados. No saldo, foram assassinados seis suspeitos, sendo que um deles era um professor universitário. A sensação de desperdício, portanto, domina o quadro.

Aqui nem o estilo de filmar de Spielberg remete a qualquer coisa que ele já tenha feito antes. Primeiro não existe aquela cadencia de seqüências vertiginosas pelo qual o diretor é famoso. Nem aquelas ênfases emotivas, que fazem parte do seu estilo e que muitas vezes irritam. Sequer existe uma organização nas seqüências de ação. As cenas de tiroteio são caóticas e acontecem de forma imprevisível. Algumas vezes é difícil até entender quem está do lado de quem. Sem contar a violência, as cenas são extremamente realistas e, nunca, na tela, tirar a vida de uma pessoa pareceu tanto um desperdício.

“Munique” começa com uma “reconstituição” do atentado na vila Olímpica, mas não temos tudo de uma vez. Aos soluços, durante o filme, voltaremos a cidade como se Spielberg quisesse prolongar o horror daquela carnificina. Como se quisesse mostrar a dor embutida ali – uma dor que não cessa de uma hora para outra. Um flash acontece inclusive na mais estranha sequência do filme (um trecho esteticamente corajoso, que jamais imaginaríamos Spielberg fazer): Avner (Eric Bana, de Hulk), o protagonista, faz amor com a mulher, e como tomado por uma alucinação, vê imagens da fracassada operação de resgate no Aeroporto, com os atletas sendo metralhados e os palestinos sendo cercados em desespero. Não é um flashback tradicional, na verdade é uma imagem de horror sobre o massacre, que não pertence apenas a Avner, já faz parte da memória coletiva.

Há mesmo um sentido de didatismo em todo o filme, como se Spielberg quisesse não só ilustrar todas as variáveis de como o terrorismo se origina e toma o cotidiano criando uma assombração do qual ninguém mais pode escapar, mas fosse além. Sim, aqui temos algo que nunca aparece em filmes do gênero: o ponto de vista dos terroristas. Spielberg humaniza o inimigo.

E tira todas as certezas da equipe de “heróis” chefiadas por Avner. O quinteto de vingadores persegue os suspeitos no ataque de Munique, em seqüências compostas por enquadramentos fabulosos com zooms consecutivos e reflexos em vidros e espelhos. Avner e seus parceiros são falíveis, revelam seus medos e demonstram dúvidas quando ficam face a face com um alvo. Ao apontar a arma para o outro, eles encontraram um reflexo de si mesmos, pessoas com os mesmos medos, as mesmas dúvidas.

O foro psicológico tem uma importância especial, como se a visão coletiva, com todos seus ricos pontos de vista e suas diversas sensibilidades, tentassem acuar um pensamento individual, levando princípios que aparentemente pareciam tão sedimentados, ao inútil e ao vazio. Avner é encorajado a ser tão ou mais cruel que o inimigo. Mas quando fica frente a frente com ele, quando vê aqueles olhos o encarando, ele treme.

Melhor é criar outro processo de execução, em vez de matar à queima-roupa, eliminar o inimigo à distância. O novo método, então,  passa a ser, atentados à bomba.

Fieis à nação, o esquadrão mantém-se nesse serviço por anos. E continuam trabalhando, como se esse fosse um ofício igual a qualquer outro. Um trabalho que lhes permitirá uma aposentadoria mais rápida, para enfim, voltar ao porto seguro, a família, a uma “casa”, um conceito sempre presente no filme (e na filmografia de Spielberg). “Uma casa é tudo”, diz uma personagem.

Quais são os meios que devemos escolher para atingir esse fim?
Da metade em diante do filme, vemos que os feitos da equipe de Avner são francamente admirados na Mossad, pois o esquadrão serviu a nação. Porém, a experiência de ter que derramar sangue sem sequer ter provas de que aqueles homens eram os mentores intelectuais dos ataques terroristas em Munique, transformou Avner. E mudou-o de tal forma que o soldado corajoso perdeu-se completamente.

Aliás, os cinco membros da equipe acabam afundados em crise semelhante.

Não existe nenhuma réstia de esperança para eles. Não existe sequer a possibilidade de voltar para a família e construir uma casa. Sâo cinco cadáveres errantes, rodeados por fantasmas que os assombram. “Este sangue volta para nós”, diz Avner ao seu comandante à certa altura. Mas este lhe dá as costas desprezando seu ponto de vista.

Spielberg nunca provocou num filme um debate tão profundo sobre moralidade, como faz neste “Munique”.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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