Drama

O Outro Lado da Esperança (2017)

Avaliação: 4.5 de 5.

Aki Kaurismäki é um cineasta que se inscreve contra a corrente das tendências. E criou um mundo muito particular, feito de excluídos e de párias sem um vintém no bolso, mas com uma tremenda  nobreza de caráter. Nos filmes deste finlandês, quando todos se reúnem numa festa é difícil até avaliar quem está na maior situação de penúria, mas eles dão de ombros, o importante é o calor humano, a comida, a bebida e a boa música (sempre um rock tocado por uma banda finlandesa do underground), por que no fundo, isso é o mais digno que se pode ter na vida.

O Outro Lado da Esperança, o último filme de Kaurismäki foi feito em 2017 e passou muito rapidamente no circuito alternativo brasileiro. Uma pena. Mas essa semana achei uma oferta deste filme marginal tão cheio de ternura num canal de streaming (veja link no rodapé).

Toda sua obra – dos quais cabe destacar O Homem Sem Passado, A Vida da Boêmia e A Garota da Fábrica de Fósforos – atesta a visão ao mesmo tempo fatalista e lúcida, que parece ter de resolver os conflitos numa muda e serena contemplação.

Em “O Outro Lado da Esperança”, a diferença é que, desta vez, Kaurismäki toca numa questão política delicada, o afluxo de refugiados sírios e iraquianos na Europa, e como a invasão dessa imensa multidão pressupõe a chegada de outros sinais de “modernidade” e de outros valores incompreensíveis e inaceitáveis.

Não há dúvida sobre a posição moral do cineasta. Quando os personagens principais encontram o refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji) morando, como clandestino, ao lado de uma caçamba de lixo, lhe oferecem emprego e falsificam seus documentos para ele não ser expulso do país.

Apesar do tema pesado, Kaurismäki tem um dom muito especial pro equilíbrio. Seu filme oscila entre a crônica social, a comédia seca e o drama agridoce. E ele nunca perde a chance de dar um arremate cínico e ferino a cena. Mais irônico de tudo é a ilusão de Khaled de imaginar que escolheu o refúgio no país certo. Sabe-se que  a Finlândia tem uma boa reputação no tratamento dos direitos civis. Mas esse “avanço” funciona nos guias turísticos, na real, o sistema se afunda em contradições. Khaled se apresenta no guichê da imigração de Helsinque cheio de esperança, e se depara com a burocracia do setor. É  fotografado e catalogado como se fosse um inseto e isolado por dias num quartinho da alfândega, para depois ser comunicado que seu pedido de asilo foi rejeitado e ele será deportado.

Imediatamente após o veredicto, Kaurismäki mostra, numa cena irônica, um agente tentando conformar Khaled, dizendo que recebeu notícias que as coisas melhoraram na Síria, enquanto atrás, na TV, o telejornal exibe um relatório evidenciando as atrocidades que estão acontecendo em Aleppo.

O personagem fica impassível diante do contraste, mas a emoção, mesmo nos momentos mais cruciais, sempre é contida. Aliás, essa postura estática, cara de pedra, se estende ao resto do elenco. É uma das marcas de Kaurismäki. As reações são minimamente esboçadas, o que acrescenta uma dimensão extra à mensagem. O refugiado não reclama, seus protetores não discutem, os fascistas, violentos, não explicam. E tudo acontece. 

O roteiro tem uma estrutura especial: o espectador está assistindo duas histórias separadas. Uma delas diz respeito a Khaled a outra é sobre Walter Wikström (Sakari Kuosmanen), o comerciante entediado que larga a esposa, o lar, para se aventurar no mundo dos jogos de pôquer, mas termina assentado num novo negócio, um restaurante, o Golden Lit, ao qual não tem a mínima noção de como comandar.

As vidas de Wikström e Khaled se cruzam no beco atrás do restaurante e nasce um relacionamento estranho. Os funcionários do restaurante (todos estranhos por direito próprio) acolhem Khaled.

Tão econômico em seu estilo visual como em seu diálogo, Kaurismäki atesta que num mundo feito de rotina, ou de tentativa de estabelecer uma rotina, existe muita tensão.

De fato, ele faz um filme sutil e muito especial, já que em seu minimalismo, o cineasta nunca alimenta o público com comentários evidentes ou uma crítica fácil. Ao contrário, ele permite que o espectador imagine e descubra este filme por conta própria. Se um personagem chega a abstração de limpar minuciosamente uma janela que não existe ou se outro deles, se esmera para preparar um sushi, sem ter a menor idéia de como é a receita, o resultado não se fecha apenas na chave cômica, mas é profundamente tocante.

Dada a situação atual de tantos refugiados do Oriente Médio e o surgimento do sentimento anti-imigrante e islamofóbico, este também é um filme oportuno abordando uma questão global crítica.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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