Ficção Científica

Na volta oficial do CINELOG: Eles Vivem

Avaliação: 4.5 de 5.

Depois de quase 10 anos fora do ar, o Filho Pródigo à casa retorna. Estou de volta com o CINELOG, um blog onde pretendo relatar minhas leituras, meus estudos, minhas pesquisas sobre uma matéria, que todos que lidam com ela, sabem, é um vasto oceano e nunca nos traz comodidades. Ao contrário, a gente estuda e não vence! Há sempre muito mais a aprender.

Saúdo os amigos, sem cerimônias, e os deixo a vontade; a casa está aberta para visita, sugestões e críticas.

Dito isso, escolhi uma pérola do cinema de fantasia, dirigida pelo meu herói dos anos 80, John Carpenter pra oficializar o lançamento do blog.

Adoro Carpenter, nos altos e nos baixos momentos. Adoro, por que taí um cara que faz da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte. O homem é um prodígio em desenvoltura. O cinema, sobretudo, o norte-americano é vendido mais como um exercício de engenharia que arte. Carpenter conjura os dois. Em seus filmes, as ideias às vezes parecem que flutuam soltas, sem que ele tente ordená-las em torno de um objetivo preciso. E tudo aparenta estar fora de lugar. E está?

Não, cada elemento é calculado, pois ele é um realizador muito lúcido, ciente do que filma e de como amarra a narrativa.

Carpenter também é um mestre em disfarçar o precário. É capaz de rodar uma ficção científica projetando sobre um ferro-velho uma cidade futurista, como acontece aqui. Com um mínimo de direção de arte, produz uma atmosfera sobrenatural.

Em “Eles Vivem”, mínimo é a palavra chave. A produção é modesta, mas altamente calibrada para aproveitar o máximo.

No centro de tudo, temos um herói andarilho, chamado John Nada. Não me lembro de um sobrenome tão exótico na história do cinema para um protagonista. Pois, John Nada (Roddy Piper), ao acaso, veste um par de óculos mágico que vai mudar completamente sua percepção de lugar. Sem os óculos ele avista uma Los Angeles normal. Com eles, se depara com uma constelação de naves dando rasantes por prédios e viadutos e uma raça alienígena. Sim, eles estão entre nós, disfarçados de humanos.

É clara a alegoria política criada por Carpenter de que nunca devemos confiar no sistema. No filme, a América de hoje é nada mais que o fruto de um vasto complô fomentado por extraterrestres que estão gradativamente implantando um regime totalitário (a manipulação, aliás, é difundida pela TV sem que qualquer cidadão perceba). E essa triagem não ocorre apenas via televisão. Mensagens subliminares se alastram pelos out-doors, jornais, e até na nota de um dólar: “Esse é o seu Deus!” – está impresso no dinheiro. No boteco, a etiqueta com a ordem consuma está em todo lugar piscando, inclusive na roupa da garçonete. “Obedeçam! Submetam-se! A ignorância é uma dádiva!”

Na maioria das vezes os filmes de ficção não valem um vintém, só que às vezes aparecem alguns que se adiantam à realidade.

Nas mãos de Carpenter, o gênero se expande. A sociedade precisa de óculos especiais para descobrir o verdadeiro mundo oculto, podre e corrupto, que se esconde por detrás de grandes nomes, grandes instituições, grandes políticos e grandes empresas supostamente impolutas. Mas o protagonista (que na vida real é campeão de luta livre) passa metade do filme tentando convencer os amigos de que tudo está tomado. A questão é que ninguém o leva a sério.

Assim quando o papo não adianta, o truculento John tenta convencer os colegas na pancadaria. O clímax do filme é uma briga entre o grandalhão e um amigo para colocar os óculos. E os brucutus se batem numa das cenas de luta mais longa da história do cinema (dura quase 10 minutos)!

É uma tarefa formidável para Carpenter criar esse mundo subliminar. E ele o constrói com imenso prazer. Sem matar qualquer possibilidade de subtextos.

Se pudéssemos usufruir desses decisivos óculos especiais para descortinar a verdadeira realidade que se encobre por detrás das campanhas de solidariedade beneméritas, dos interesses financeiros à escala global, dos jogos políticos de bastidores, das manipulações informativas perpetradas pela comunicação social, conseguiríamos ver, não sem perplexidade, a perversidade, a vileza, a infâmia, a sordidez, a ganância, e a escória que brota dos seres humanos que se julgam acima de outros seres humanos, limitando o exercício de liberdade individual.

Mas ainda que não tenhamos os óculos especiais para conhecer a realidade mais legítima, teremos sempre uma ferramenta para combater o conformismo e a submissão: o espírito crítico.

E é esta a minha primeira “mensagem” para quem me acompanhar, a partir de agora, semanalmente no CINELOG.

Clique aqui pra ver em que canal o filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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