Suspense

A saga de espionagem de Paul Greengrass

Avaliação: 5 de 5.

A Netflix não oferece um serviço de conteúdo adequado para quem espera fazer um ciclo sobre seu diretor preferido. Você nunca vai conseguir montar uma programação assim neste canal de streaming, mas eles disponibilizaram quatro dos cinco filmes da franquia Jason Bourne. E três deles, A Supremacia Bourne, O Últimato Bourne e Jason Bourne, são dirigidos pelo britânico Paul Greengrass.

Oras, poucos diretores fizeram filmes mais relevantes nos últimos 18 anos que esse cineasta britânico de origem operária (nasceu na Vila de Cheam e cresceu no Estuário do Tâmisa). Vôo United 93, Capitão Phillips, Domingo Sangrento são especialmente recriações de acontecimentos reais inquietantes, três filmes impossíveis de ficar indiferente. Mas Greengrass fez mais quando o contrataram para tentar o cinema de entretenimento (a franquia Bourne). Com seu estilo, ele deu um novo fôlego aos filmes de ação de Hollywood.

Greengrass faz um cinema seco, substantivo, em que o objeto é descrito por movimentos bruscos. O realismo é pulsante e você sente não só o calor e o esforço do ator em cena, mas a ambição do cineasta de abarcar os acontecimentos em cosmovisão, muitas vezes com um conjunto de câmeras ligadas todas em sincronia. Sem contar, a edição sempre vigorosa e coerente, dando uma sensação de urgência, que é inimitável. Com dois títulos, A Supremacia Bourne e O Ultimato Bourne ele mudou a sintaxe do filme de ação.

A ironia foi que mudou pra pior. Todo mundo em Hollywood achou que podia imitar esse senhor inglês, cuja raiz nunca deixou de ser a escola documentária. Acontece que muito poucos pegaram o espírito da coisa. E não entenderam qual era a principal investigação em que Greengrass estava focado.

O produtor Frank Marshall foi um dos primeiros a tomar contato com o cineasta nos bastidores e ficou chocado. Ele via as dezenas de takes que Greengrass fazia com Matt Damon correndo e tentava entender o que aquilo tinha a ver com o filme que estavam rodando. Greengrass riu de Marshall e disse que ele ainda ainda não tinha começado a rodar. Ele estava preocupado em achar uma forma mais pura de transmitir o desenho cinético de uma cena.

Há uma razão pela qual Hollywood foi tão rápida em adotar o estilo de Greengrass: porque a edição rápida torna mais fácil usar truques visuais para transformar qualquer um em estrela de ação. Tudo o que precisa é juntar três takes diferentes: ação, impacto e reação. É por isso que muitas vezes nem vemos o movimento. Temos a intenção e a consequência. A lógica da montagem leva a gente a entender o que aconteceu, mas a gente realmente não viu, fomos apenas iludidos.

Tem gente que nem percebe isso. Tá tão ligado na pipoca ou na namorada, que nem olha direito pro que está rolando na tela. A vantagem é que esses leitores nem vão ter chegado nesta parte do meu texto.

A lista de filmes de ação hiperativos e caóticos começa com a série Resident Evil, todos “cometidos” por Paul W. S Anderson, e se prolonga com os filmes da DC Comics, “cometidos” por Zack Snyder. Tem outros tão ruins quanto, mas não tô aqui pra fazer a listinha (os leitores podem se divertir pensando nos piores nomes).

Mas para Greengrass eu tiro o chapéu. Existe uma certa angústia, quando ele nos insere dentro deste mundo de tecnologia que nos vigia. E Jason Bourne é o sujeito em busca de arrumar uma forma de passar invisível pelo sistema. Torcemos para que ele troque o passo, mude bruscamente a rota e embaralhe o circuito multicâmeras com que a CIA pretende capturá-lo.

Dos cinco filmes da série o meu preferido é O Ultimato Bourne. Se o espectador ficou intrigado com a falta de detalhes sobre a verdadeira identidade do assassino programado para matar encarnado por Matt Damon em A Identidade Bourne e A Supremacia Bourne, pode ficar sossegado. Para fechar com chave de ouro a trilogia baseada nos livros de Robert Ludlum, ficamos sabendo onde Jason Bourne nasceu, em que ano, onde cresceu, sua verdadeira mãe, seu treinamento, seu passado militar antes de virar assassino da Treadstone, seus dons e até mesmo seu nome verdadeiro.  

O Ultimato Bourne começa com um forte senso de ironia, ao mostrar um jornalista inglês (Paddy Considine) tentando faturar um troco às custas das reportagens que fez sobre o agente clandestino. Enquanto ele vende o texto para um editor, em algum lugar, não muito longe dali, Jason tenta passar mais uma vez despercebido no meio de uma multidão.

O terrível senso de angústia que Jason Bourne tenta o tempo inteiro esconder, funciona a pleno vapor graças à atuação de Matt Damon. Seus movimentos parecem presos pelos fios de um títere oculto que o manipula como boneco e do qual ele está ciente de que não pode escapar. Bourne foi teleguiado para matar muita gente e as imagens de suas vítimas continuam retidas na sua cabeça, embora ele não saiba quem são. No passado, ele tentou aplacar a memória se refugiando numa relação salvadora com Marie (Franka Potente), mas não durou muito. Da perda, resulta uma espécie de sonambulismo raivoso do personagem, enfrentando qualquer olhar que entenda como provocador.

E a provocação logo surge na figura de um político, Noah Vosen (David Strahairn, de Boa Noite e Boa Sorte), que por alguma razão, deseja acabar com a raça de Bourne. Para isso, ele se vale da experiência da determinada Pam Landy (Joan Allen), a chefe do departamento de espionagem da CIA, que chegou bem perto de cercar o herói no filme anterior (Supremacia…).

A relação entre Jason Bourne e esta mulher, que só acontece por telefone, é emocionalmente forte. Mas ele não tem apenas que se preocupar com o perspicaz serviço de vigia desta águia; Noah manda três agentes treinados na mesma escola que Bourne para dar cabo no assunto e então um drama que começou na psique conturbada do personagem, no escuro de um quarto, de repente ganha as ruas de uma metrópole e todos os acessos ao perigo decorrente da confusão moderna do século XXI. Como o agente James Bond, do qual é derivado, Bourne está preparado para se dar bem no excessivo mundo da dependência de dados e das câmeras vigilantes. Assim permanece invisível enquanto deseja.

A exceção de um Hitchcock, esse gênero de filme costuma ser regido por um certo esquematismo, que invariavelmente serve de armadilha para os realizadores. Mas Paul Greengrass é um diretor com plenos domínios. A primeira providência que toma é de afrouxar a intriga, optando por uma ação que parece deliberadamente solta, como se estivesse filmando um documentário.

O sistema de câmeras que ele interliga para filmar esta ação, pormenoriza cada movimento. Até mesmo cenas de teclas sendo apertadas e lápis sendo puxados são compostos para dar a cadência ao suspense crescente. Estamos, portanto, bem longe daquele tipo de thriller clássico, em que aquilo que a câmara não mostrava, mas sugeria, funcionava como um elemento dramático.

O contexto atual, sem dúvida, tecnologicamente acena para uma sociedade superpovoada por sistemas de vigilância, para um mundo de imersões deslumbrantes da fragmentação em muitos pontos de vista.

Como disse, isso é banalizado em muitos filmes recentes. Mas nas mãos de Greengrass o assunto fica sério. No caso de O Últimato Bourne, ele transcende o gênero filme de espionagem, para traçar um dos mais eloquentes quadros do que vislumbramos em volta de nós. Um admirável mundo triste, onde restam parcas palavras, fragmentos e a sobrevivência, que sabemos finita, mas que nos agarramos á dita-cuja, rezando para que o futuro que venha, seja melhor.

Clique aqui para saber em que canais mais O Ultimato Bourne está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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