Guerra

O Franco-Atirador (1978)

Avaliação: 5 de 5.

A roda da programação de streaming tá girando bem pra quem se contenta com filme ou seriado de serial killer, traficante ou de super-herói; agora se você adora quebrar o círculo vicioso, minha dica hoje vai para “O Franco Atirador”, de Michael Cimino.

É antigo? Dependendo da sua idade, muito. Mas se você se amarra em cinema, será uma grande experiência (no rodapé, segue os canais onde você pode assistir de bate pronto).

Os atores são Robert DeNiro, Christopher Walken e Meryl Streep (no início da carreira) e o diretor é o maldito Michael Cimino, sujeito nascido na época da contra-cultura que adorava impregnar seus filmes de um senso elegíaco de fracasso americano e de mostrar que numa sociedade puritana não adianta contestar, porque você não vai vencer, porque tudo é armado e irremediável. Digo que Cimino adorava, porque bastou um filme – “Portal do Paraíso” – para cortarem a asa do menino. E ele nunca mais conseguir voar como antes. (Cimino morreu em 2 de julho de 2017 depois de tentar outros cinco esforços admiráveis, sendo os melhores “O Ano do Dragão” (1985) e “Na Trilha do Sol” (1996), só que

 os últimos 10 anos de vida não lhe deram mais a oportunidade de filmar).

Mas com “O Franco Atirador” ele enganou até a Academia de Artes de Hollywood, que premiou o trabalho com cinco Oscars (Melhor Filme, Diretor, Ator Coadjuvante – para Christopher Walken – Montagem e Som). Na ocasião também “O Franco Atirador” parecia uma metáfora perfeita de toda a experiência do Vietnã. E o sentido de mal estar, de perda, de culpa, precisava ser exorcizado. Assim, o filme se colocava como a experiência catártica definitiva para o povo se reerguer.

O engraçado era como essa turma olhava para o próprio umbigo. Ninguém, por exemplo, reclamou na época que os vietnamitas pareciam pouco autênticos e apareciam no filme falando tailandês.

Autenticidade nunca foi o forte de Hollywood, mas deve-se dar a mão a palmatória. Cimino lida com a ignorância de forma genial.

Para o cineasta, o herói americano é um valentão bronco e alienado. Gosta de se meter em brigas ao qual não é chamado e a noção de felicidade parece advir da sensação de estar em guerra permanente. Michael (Robert DeNiro), Nick (Christopher Walken) e Steven (John Savage) parece que já estão no meio do fogo do Vietnã quando o filme começa. Claro que a impressão é enganosa. Eles estão trabalhando numa siderúrgica e literalmente gostam de mexer com fogo. Soa o apito do fim de mais um dia de trabalho, mas eles continuam querendo ação. São voluntários para partir para o confronto e estão deslumbrados com a possibilidade de caçar os vietcongues na selva.

Não há dúvidas que esses homens serão devorados. E Cimino articula o tombo como se fosse uma ópera em três atos e com três horas de duração. A primeira hora mostra a festa de despedida, a segunda, a guerra, a terceira, as baixas e conseqüências do retorno.

Sempre reclamamos das traduções, mas o título original The Deer Hunter (“O Caçador de Veados”) não soa sério em português. O tradutor foi muito elegante em escolher “O Franco Atirador”, como alusão a ópera homônima de Carl Maria von Weber. O tema principal da peça toca nas cenas em que o personagem de DeNiro sobe as montanhas para caçar o sagrado animal.

Existe outro paralelo. A ópera narra a história de um caçador que faz um pacto diabólico. Ele terá seis chances de acertar a caça. Na sétima, no entanto, o alvo será definido pelo demônio. No filme, os personagens de DeNiro e Christopher Walken se envolvem em uma seqüência de jogos de roleta russa que terminara no sétimo tiro.

A direção de Cimino é imperial – as tomadas são incrivelmente longas, amplas, abrangendo vastas áreas, com as figuras humanas lutando para não serem esmagadas pelo terreno. E Walken e De Niro estão soberbos. Vemos a dissolução gradativa de homens, primeiro, fervilhando de vida, depois sucumbindo ao destino com absoluto pasmo. A forma como Walken vai perdendo aquele sorriso de criança que não cresceu conforme o drama avança é de cortar o coração. Mas é De Niro que completa todo o arco, vivendo o americano médio que forçosamente se olha no espelho e reconhece em si o homem ultrajado, derrubado, flagelado pela experiência da guerra. O rosto desfaz-se em lágrimas e cusparadas, mas em meio aos insultos, o que lhe resta é se solidarizar com os amigos, para poder caminhar em frente com dignidade.

Dizem que a América mudou depois do Vietnã. Não levou mais de 25 anos para mostrarem em Bagdá, que isso não é verdade.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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