Drama

Meu beijo de saudades em Hector Babenco

Avaliação: 4.5 de 5.

Torço para que as pessoas estejam cada vez mais sensíveis como eu neste período em que recordo de certos cineastas e certos filmes. Hector Babenco era uma dessas pessoas que eu prezava muito (estive umas cinco vezes com ele, e em todas o papo sempre durou muito mais do que o previsto), e continuo  admirando-o quando revejo o Beijo da Mulher Aranha, Brincando Nos Campos do Senhor, Pixote, Lúcio Flávio e Ironweed.

Em homenagem e com saudades de Babenco, hoje, vou tratar do filme que levou-o ao apogeu em Hollywood, sendo indicado para quatro Oscar, inclusive, Melhor Filme, e consagrando William Hurt como o Melhor Ator do ano.

Foi a glória, e claro, eu era criancinha, mas lembro que só faltou o presidente na ocasião decretar feriado nacional e Babenco desfilar no carro de bombeiros.

Mas esse beijo, ah, esse beijo tem uma conotação que expande os sentidos. Ele é sensual (quando é dado por Sônia Braga), atrevido (quando sai dos lábios de William Hurt), fraterno (quando vem de Raul Julia) e traiçoeiro quando descobrimos que existe alguém se fazendo passar por Judas no encaminhar da trama.

E o filme não envelheceu. A atuação de William Hurt no papel do preso gay, cheio de ilusões, a maneira da Blanche Dubois de Tennessee Williams, é magistral. O trabalho de câmera de Rodolfo Sanchez tem planos sequências vigorosos, a adaptação de Leonard Schrader do livro de Manuel Puig é bem engenhosa e Babenco, na direção, nunca foi tão seco. Mostra perfeitamente como um país em plena ditadura é capaz de destruir todo um  sistema ilusório, seja para um romântico como Molina, ou para um idealista como Valentin.

O Beijo da Mulher Aranha narra a convivência diária de dois presidiários que compartilham a mesma cela, o homossexual – condenado por “corrupção” de menor – Molina (William Hurt) e o preso político Valentín (Raul Julia). As tensões políticas de um tempo em que o Brasil (no livro era a Argentina) passava por uma violenta ditadura, nessa obra, sempre são desveladas de maneira sutil, nunca escancaradas, pois o foco aqui são os dramas compartilhados ou particulares desses dois companheiros de cela. A estrutura narrativa é de uma conversa, mas que conversa!

Molina se refugia num mundo de fantasia para não enfrentar a sordidez do seu cotidiano, enquanto Valentin só pensa no mundo real, na luta por uma causa política. Mas ambos são apanhados numa história de carochinha passada em algum ponto entre esses dois domínios. Na verdade, o que tira o tédio da vida que esses dois homens levam, são os filmes que Molina um dia viu no cinema e agora descreve em detalhes para o outro. As paredes caem cada vez que Molina começa a rememorar esse tal filme.

Filme, que aliás, parece bem vagabundo e reaça – temos Sonia Braga como uma vamp apaixonada por um oficial nazista que tortura judeus, e o cara (vivido por Herson Capri com madeixas louras) é apresentado como herói!

Em nome da fantasia, o outro sacrifica qualquer ideal, o que leva Valentin às risadas. Mas há algo além do conteúdo, que aos poucos cativa o cínico ouvinte. E esse algo talvez esteja na forma como Molina pormenoriza as descrições: os trajes, as cenas, os movimentos de câmera, as expressões faciais. Ele  descreve tudo com vívida emoção, como cabe a um genuíno cinéfilo.

O Beijo registra este mergulho, construindo cada momento segundo as tradições da ilusão cinematográfica. Assim, Babenco e o câmera Rodolfo Sanchez compõem o filme de planos-sequências primorosos, que deslizam da realidade para a ilusão a toda hora. Sim, há cenários sobrepostos, que proporcionam a Raul Julia deixar a cela para um despertar numa ilha tropical ao lado de Sonia Braga. E uma corrida desta ilha pode desembocar numa fortaleza nazista. Mas o melhor do filme é a construção mental que o personagem de William Hurt vai sugerindo.

É ele que torna o espectador cúmplice de sua viagem.

O Beijo da Mulher-Aranha também é um filme que discute, através das tensões e da cumplicidade entre os personagens, temas relacionados à sexualidade: homossexualidade, bissexualidade, e nossa verdadeira natureza como seres eróticos, num momento político e social a que se negava e se reprimia isso com armas.

E a questão é colocada de uma forma bem adulta. Trata de nossos desejos, nossas dúvidas e disfarces, nossas angústias, medos e relações entre homem e mulher, homem com homem; o medo de perder quem ama, de não valorizar o amante como se deve, de se apaixonar ou simplesmente se envolver com um terceiro, a escolha entre trair o outro ou trair a si mesmo; e o valor e sentido da submissão e da dominação entre os sexos.

Enfim, esse é apenas um filme de Babenco, um dos que ele demonstra como a arte pede mais que esse anseio de simplicidades que se tornaram aparentemente condições sinequanon em nosso tempo.

Ah, que saudades de você, meu querido!

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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