Comédia

Jerry, do que somos autorizados a rir hoje?

Entre o final dos anos 50, toda a década de 60 e começo dos anos 70, Jerry Lewis foi um fenômeno grande no cinema, maior inclusive que Jim Carrey (aliás, seu maior imitador) ou Adam Sandler. Quando a Paramount ficou no vermelho com o final do star system, os filmes de Lewis sustentaram a onda da companhia por quase dez anos, a ponto de o presidente da companhia da montanha admitir numa frase célebre que se Lewis inventasse de botar fogo no estúdio, ele sem pestanejar, acenderia o fósforo.

Ficou com vontade aí de queimar alguma coisa? Eu aqui fiquei.

Para quem está de fora, Jerry Lewis pode ser visto como um humanitário, mas para um cinéfilo que se preze ele é uma personificação genuína da nobre tradição americana da comédia e do burlesco. Nos anos 50, em particular, nos muitos filmes em que formou uma célebre dupla com o diretor Frank Tashlin, Jerry afirmou-se como legítimo herdeiro de mestres como Charles Chaplin, Buster Keaton ou Stan Laurel.

Tashlin foi o mentor de Lewis com aquele jeito de fazer seus personagens desafiarem a lógica da realidade se comportando como se estivessem num Cartum. Sim, Lewis era capaz de tocar uma flauta e encantar um espaguete como se fosse uma cobra, datilograr uma carta numa máquina de escrever imaginária, ou sonhar com um personagem de quadrinhos como Reinaldo, o Ratinho, e depois vestindo a fantasia demonstrar ser possível fazer todas as estrepolias do desenho na realidade.

Com Tashlin ele era incisivo em suas críticas a paternidade (Bancando a Ama Seca), a mentalidade do consumo irracional (Errado Pra Cachorro), a obsessão de fãs por histórias em quadrinhos (Artistas e Modelos) ou mesmo a fogueira das vaidades de Hollywood (Ou Vai ou Racha).

Infelizmente, hoje dia 15 de setembro de 2020, nenhum destes está disponível em streaming.  Claro, você pode baixar muita coisa no torrent ou até encontrar algum filme dele no you tube, mas aí é no underground, né?

Existe uma desenvoltura nestes três filmes, curiosamente todos dirigidos por Frank Tashlin, que Lewis perseguiria na fase mais madura de sua carreira, sem obter a mesma espontaneidade. O que não significa relegar a obra seguinte, mais pessoal e apurada, onde a mecânica do riso é trabalhada pelo ator, pensando também com roteirista e com diretor.

Desta fase, encontrei aqui na minha casa um pack empoeirado em DVD. São eles Mocinho Encrenqueiro, O Professor Aloprado, O Mensageiro Trapalhão e O Otário.

Há quanto tempo não vejo esses filmes? Pra ampliar a reflexão, há quanto tempo não dou uma risada espontânea? Uma risada solta, sem que seja autorizada? É absurdo, mas hoje a gente só ri depois de olhar para os lados, e pensar se somos autorizados a rir.

Leio que esse Pack foi organizado pelo próprio Lewis para dar uma noção de como nada acontecia por acaso. Lewis era um perfecionista, daqueles realizadores incansáveis que queria apagar qualquer rastro de planejamento intelectual de uma gag. Foi assim que usou o VT antes de todo mundo começar. Ele queria observar numa tela ao vivo se as experiências fluíam, se as piadas funcionavam. E gostava de correr riscos.

Em O Professor Aloprado, destila toda a amargura que tinha ao ser abandonado pelo parceiro Dean Martin nos anos 50. O galã deixou a parceria sob a alegação de que queria construir uma carreira séria. Mas quem disse que fazer comédia não é uma profissão de fé séria?

Lewis prova em Aloprado que pode viver ao mesmo tempo o pateta e o galã. E aos poucos vai destruindo o monstro vaidoso. É sarcástico, impiedoso para quem vê dos bastidores, mas quem vê de fora, acha leve e engraçado. Está aí a genialidade de Lewis.

Em O Terror das Mulheres então, ele arrasa com a imaturidade do macho americano, que não consegue lidar com o poder feminino. Filma as mulheres naquele  pensionato como se cada quarto fosse uma jaula e ele o domador que tivesse que alimentar a variedade feminina, colorida e cheia de nuances perigosas. Enfim, um filme que seria atacado por todas as patrulhas da correção política.

Lewis, contudo, nunca se abalou com isso. Peter Bogdanovich conta que perguntou uma vez para o comediante do que basicamente se tratavam os seus filmes e ele respondeu de bate pronto:

“Creio que sobre a tolice que nós chamamos de civilização”.

Será que a ordem das coisas está realmente certa na sociedade? Jerry Lewis duvida disso. E a prova maior pode ser ilustrada pela ousadia de filmar uma comédia sobre o holocausto, de título ambíguo e arriscado: “The Day The Clown Cried”. O palhaço em questão neste filme maldito, que nunca foi mostrado ao público, estava a serviço do extermínio. O personagem de Lewis, Helmut Doork, era o judeu convocado pelos nazistas para atrair as crianças à câmera de gás. Lewis estava tão obcecado pelo tema que as más vibrações começaram a tomar o set. A graça usada como forma de manipulação para matar era um negócio deprimente demais para qualquer público aceitar. Mesmo assim ele queria saber onde podia chegar com o material e a partir de um certo ponto se tornou um tirano com quem não compartilhava com sua visão. Diante da situação insustentável, ele decidiu abandonar o projeto.

Quando estava por aí (Lewis partiu para a Terra do Riso em 20 de agosto de 2017), dizem que havia uma cláusula que qualquer jornalista precisava assinar se quisesse entrevistá-lo e que enfatizava que qualquer coisa a respeito deste filme maldito não fosse mencionado. Caso houvesse insistência, Lewis se prontificava a abandonar a entrevista.

The Day The Clown Cried ficou guardado no cofre do ator e diretor e ninguém sabe se seus herdeiros o queimaram. Mas se o cinéfilo quer sentir uma fração do peso sentido por esse Palhaço ao levar esse projeto adiante, clique aqui http://www.youtube.com/watch?v=oDaxbZkKLTM  para ver.

Pelo gênio da sua arte de representar, pela ousadia narrativa e simbólica da linguagem dos seus filmes e também pelo sentido de experimentação do seu trabalho (foi pioneiro, por exemplo, na introdução do VT como forma de verificação do material filmado), Jerry é uma daquelas personalidades que nos ajudam a perceber melhor as transfigurações históricas do cinema.

Na verdade, para compreendermos as convulsões por que passou Hollywood ao longo dos anos 60, a sua obra é tão importante como as de Martin Scorsese ou Francis Ford Coppola.
Jerry Lewis é uma referência esquecida por muitos espectadores de cinema. E o fato da comédia ser muitas vezes vista como um espaço “secundário” e pouco “artístico” explica, pelo menos em parte, esse esquecimento.

A sobrecarga de “informação” em que vivemos se interessa muito pouco pelo conhecimento real dos mestres, a não ser que sejam envolvidos por alguma agitação midiática. A ironia amarga é que Jerry Lewis foi mesmo um símbolo modelar de um cinema visceralmente popular que não dá para ser apreciado em 15 minutos.

Mas pra não terminar esse texto em clima melancólico, escolhi um momento que acho que Jerry demonstra como deve ser para um comediante a liberdade e o prazer pra criar uma gag. Vejam clicando aqui o que Jerry Lewis faz com seu corpo, ao ouvir um clássico de Count Bassie Orchestra.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

0 comentário em “Jerry, do que somos autorizados a rir hoje?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: