Faroeste

Os Indomáveis

Avaliação: 4.5 de 5.

Muita gente reclama que os faroestes desmistificadores de hoje se tornaram  muito reflexivos e perderam a capacidade de eletrizar como os antigos. Esse Os Indomáveis (3:10 to Yuma, 2007) é uma resposta contra quem pensa assim. O diretor James Mangold faz um cinema muito respeitável. Mas não estou falando dos filmes Oscarizados dele, como Garota, Interrompida e Johnny & June, que são passáveis, mas de CopLand, Identidade, Logan e Ford VS Ferrari.

Copland (1997), com Sylvester Stallone como o policial surdo de um ouvido que é subestimado no departamento, demonstrou a destreza de Mangold para criar um filme de ação vigoroso com uma atmosfera de podridão emoldurando o gênero. Identidade (2003) deu uma enobrecida numa trama de suspense um tanto complicada, mas conduzida pelo cineasta com inteligência no desenvolvimento, na argumentação e no enriquecimento de várias cenas. Logan (2017) então proporcionou uma chacoalhada nos filmes de super-heróis, arrancando os X-Men da fantasia para viver num mundo real, doloroso e angustiante (Mangold, aliás, abriu as portas para Todd Phillips seguir a mesma linha em Coringa). E Ford Vs Ferrari (2019) é o primeiro filme feito depois de Mad Max – A Estrada da Fúria a mostrar como usar as ferramentas tecnológicas de agora para fazer um senhor filme sobre o amor pelas corridas (se você pensou em qualquer filme da franquia Velozes e Furiosos, esqueça, estamos falando de filmes de verdade). E o que perfaz um grande filme é sempre de ir contra a cegueira de seus contemporâneos. 

Os Indomáveis tem uma emoção, um vigor que deixa a gente com vontade de assistir mais meia dúzia de filmes do gênero. É dirigido com uma vivacidade, um prazer, repletos de detalhes sensíveis e ativos, sem deixar de produzir uma visão ampla do que podia ser o mundo dos pistoleiros errantes e dos fazendeiros na América do século 19.

Russell Crowe é Ben Wade, o bandidaço temido por todo mundo. Ele assalta diligências e anda tranqüilamente com sua quadrilha pela cidade. Ninguém é corajoso o suficiente para botar um par de algemas no fora-da-lei. Christian Bale é Dale Evans, o rancheiro meio bronco, manco, que precisa por comida no prato dos filhos e, de repente, acha que pode pegar Ben Wade e salvar a lavoura com a recompensa.

Há, claro, uma mulher em cena. E graças à presença desta bela garota (a ruivinha Vinessa Shaw), Wade se distrai e acaba capturado.

Estamos frente a uma motivação diferente em Os Indomáveis e que já existia no clássico original, “Galante e Sanguinário”, do humanista Delmer Daves. Geralmente alguém é culpado pelo  fracasso da aventura humana nos filmes americanos, e em se tratando de um faroeste, é muito freqüente, que essa desculpa seja creditada as mulheres. Mas aqui a garota pede para ele fugir. E Wade sorri e pergunta pra que?.

O vilão é um mestre do crime e pode escapar quando quiser. Só que ele acha mais interessante usar sua perspicácia para corromper o guardião.

O rancheiro precisa levar o pistoleiro até a cidade de Yuma e despachá-lo para a prisão no trem das 3h10. No caminho, o bandido atormenta o caipira e o manipula com malícia. Não conta, entretanto, com as reações inesperadas do outro. Por trás da ignorância de Dale Evans, há uma pureza tão cristalina, que Wade não consegue ofuscar. O que ele enxerga no outro é a revelação de um caráter que acredita que ele próprio teve um dia e o sistema ilusório que o mantém inteiro quase desmorona.

Temos ainda em cena outro pistoleiro intrigante vivido em grande estilo pelo ator Ben Foster (“Alpha Dog”). O braço direito de Wade é o sujeito que limpa o terreno em volta. Isola o rancheiro do mundo e promete furá-lo como peneira, se não liberar o chefe.

O diretor James Mangold nunca deixa a energia do filme abaixar. Ele consagra a duração do espetáculo à exposição dos fatos, dos impulsos e dos sentimentos. Cowboys sentimentais? Sim, aqui eles intensamente são. E por fim, o cineasta converge o suspense a chegada da hora decisiva do embate, 3:10, enchendo a cena de detalhes sonoros, como o apito do trem que se aproxima e os trovões que anunciam uma tempestade.

“Será que a chuva vem agora?”, pergunta o diabólico Wade, antes do tiroteio explosivo.

Clique aqui pra você saber em que canais de streaming Os Indomáveis está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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