Drama

Sangue Negro

Avaliação: 5 de 5.

E aí galera, mesmo que seja pra ver um filme como esse, dá pra entrar numa saleta destas e encarar ou continuamos esperando? Para quem está no impasse, eu reafirmo: quando se trata de cinema, a minha paixão fica desmedida se conjugada por um diretor que admiro, como Paul Thomas Anderson, e por um senhor ator, como Daniel-Day Lewis. Mas sem vacina testada, aprovada e juramentada vou continuar evitando ambientes fechados e com ar condicionado, por que não tenho sangue de barata.

E a internet e o streaming me suprem. Essa obra-prima de Anderson, “Sangue Negro” (There Will Be Blood, 2007) está disponível em cinco canais de streaming, e mesmo que eu não seja assinante, em quatro deles eu posso alugar agora se eu quiser (veja no rodapé da matéria quais são os canais).

E é exatamente o que eu faço neste momento para rever Sangue Negro.

Aliás, o que seria deste filme sem Daniel-Day Lewis? Mesmo que o diálogo e a direção fossem os mesmos, é bem difícil crer em um ator que desse as veias para o diretor Paul Thomas Anderson sugar como permite Daniel.

Sangue Negro é quase uma emanação do ator. Não por acaso há irmandade até no nome do personagem: Daniel Plainview. Dizem que quando começaram a filmar, Anderson avisou Lewis que se fosse preciso o humilharia, o provocaria até arrancar uma raiva que ele nunca tinha visto o ator encarnar em outros trabalhos. E é o que temos em cena. Enquanto o homem revolve a terra, Paul Thomas Anderson mexe com o ator, o cutuca. “Trabalhar com Lewis é como perfurar um poço de petróleo, você nunca sabe o que vai sair de dentro!”, diz Anderson com um ferino senso de humor.

A América que se apresenta na tela é árida, rudimentar. É o começo dos 1900 e Daniel Plainview encara a amplidão da planície sabendo que pode furar onde quiser, mas é preciso mais do que faro para realmente encontrar o Ouro Negro. E o homem sofre, passa fome, às vezes cava poços, sozinho, na base da enxada, e se machuca. Chega ao cúmulo de quebrar uma perna na mina e se arrastar por quilômetros para conseguir ajuda. Mas não desiste.

Na trilha sonora, um coral de vozes graves reage enquanto Daniel viola a terra. Há um certo clima de mistério no filme, como se o homem estivesse mexendo com algo sagrado, uma força desconhecida, ao qual provavelmente não saberá lidar.

Em sua compulsão, Plainview esquece de tudo. Não tem mulher, nem família. Admite para um empregado próximo: “Sou ruim para lidar com pessoas”.

Quando um minerador morre no fundo do poço, ele adota o filho do sujeito como se fosse seu. Claro que exerce uma paternidade casca grossa. Dispende pouca afeição pelo menino. Percebe que o garoto é bom para ajudá-lo a barganhar nos negócios. Não custa usá-lo.

O homem chega a um descampado e encontra um oceano de petróleo embaixo. Compra todas as fazendas e imagina uma cidade nascendo ali. Reúne os grileiros para ajudá-lo a transformar aquilo numa comunidade, com escola, comércio, igreja, etc.

O pastor (Paul Dano, de “A Pequena Miss Sunshine”) é a maior pedra no sapato de Daniel Plainview. O pregador quer vender a fé ao minerador e este se recusa a comprar.

Eles se enfrentam e ambos saem chamuscados do fogo cruzado.

De fato, Paul Thomas Anderson é um dos grandes diretores modernos. E em “Sangue Negro” é difícil não ficar estarrecido com as composições e a vivacidade dos quadros que ele constrói.

O filme tem um classicismo que por vezes lembra “Assim Caminha a Humanidade”, mas a semelhança é superficial. Na verdade, “Sangue Negro” é um negativo do famoso filme estrelado por James Dean. Não traz aquela imponência, que o diretor George Stevens captava para mostrar maravilhado o progresso que brota do meio do nada. Ao contrário, Anderson mostra a cidade crescendo mas, no momento em que Plainview realmente prospera, o diretor corta para os interiores de uma mansão, onde o velho minerador agora goza suas regalias. Em vez de expandir, o homem se encolhe dentro daquele lugar. O lar é o sétimo círculo do Inferno para Daniel Plainview. O castigo, contudo, não o impede de cometer mais dois atos monstruosos.

O grau de parentesco deste filme com os outros de Anderson também não é identificável facilmente. E se você quer encontrar relações tem que cavar mais.

No cinema de Anderson antes reconhecíamos o flerte com uma América colorida, caótica em sua diversidade. pós-moderna. “Sangue Negro”, à primeira vista,  trata de uma comunidade arcaica, tem uma narrativa tradicional e trabalha sob a palheta de cores pastéis. Mas no cerne do filme encontramos um tema recorrente.. A fixação por jogos de certa forma permeia desde o embrionário “Jogada de Risco” (1996), filme que se passava no mundo dos cassinos. Em “Boogie Nights” (1997) o mote era o jogo na indústria pornô. Em “Magnólia” (1999) todo mundo se movimentava como se estivesse num tabuleiro de xadrez, e todos jogavam, mas era uma tragédia, por que existia o acaso. Quem não se lembra da apoteótica chuva de sapos?

Já em “Embriagados de Amor” (2002) havia a história da obsessão de Adam Sandler por comprar pacotes de sucrilhos para vencer o concurso de milhagem de uma companhia aérea.  Depois em “O Mestre” um Doutrinador tentando aprisionar coração e mente de Joaquin Phoenix, que por sinal vira um espírito livre e parte pro filme seguinte de Anderson assim (“Vício Inerente”).

A vida do estilista da alta costura é aprisionada por uma teia de fios que ele próprio costura em torno de si em Trama Fantasma. O que virá em seguida, não sabemos, mas enquanto esperamos o próximo filme do diretor, eu, pelo menos, me contento em rever o humano no jogo mais sujo que Paul Thomas Anderson nos propôs.

Clique aqui pra você saber em que canais de streaming Sangue Negro está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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