Suspense

Marcas da Violência

Avaliação: 5 de 5.

David Cronenberg nunca pareceu um diretor abusado, mas em “Marcas da Violência” ” (A History of Violence, 2005), ele controla até a mosca que zanzeia sobre o pão da padaria. “Só come, se eu mandar!”. E todo mundo, a mosca, Viggo Mortensen, Maria Belo, Ed Harris e quem mais aparece não solta um piu.

Tento fazer isso em casa e nem o cãozinho me obedece. Deve ser por isso que admiro tanto esse canadense.

Todo mundo o respeita!

E o filme, é claro, deixa marcas como você, leitor, pode ver hoje mesmo (no rodapé você encontra os canais de streaming onde “Marcas da Violência está disponível).

Há um monstro aqui, mas não como aqueles a que o realizador nos habituou em obras como “Videodrome”, “A Mosca” e “Mistérios e Paixões”. A criatura pode ou não estar escondido sob os traços de um homem bom e pacato. Esta descrição pode parecer de um filme de terror, mas Cronenberg articula o espetáculo como se fosse um western. E realmente estão lá todos os componentes, desde o cenário da idílica cidadezinha americana cuja paz é perturbada pelo súbito aparecimento de malfeitores, até ao cidadão comum que se torna num herói por força das circunstâncias, sem esquecer o tema do uso legítimo ou não da violência.

Cronenberg, aliás, não estava no projeto de “Marcas da Violência” desde o princípio. O filme foi escrito por Josh Olson com base numa história em quadrinhos, só não havia um diretor para concretizar a visão na tela. Cronenberg leu o roteiro e gostou da forma como os sentimentos conflituosos dos personagens eram delineados. Então acertou de participar, com a condição de que pudesse fazer seus ajustes. Em especial a questão da dúvida sobre o passado do tal homem de bem da história. A ambigüidade do protagonista se torna maior na apresentação de Cronenberg. Ficou famosa a instrução que ele deu a Viggo Mortensen, quando decidiu fazer o primeiro close do ator. Todo mundo riu quando ele ordenou ao ator para não pensar em nada. A idéia era que no vácuo emocional, na falta de expressão deste rosto, os espectadores se perdessem.
Quando o aparentemente tranqüilo Tom Stall (Mortensen) defende seu bar, investindo com fúria contra dois pistoleiros que entraram ali para matar, ele ganha a atenção dos noticiários do país. Um dia depois, um mafioso chamado Carl Fogarty (Ed Harris) entra na vida de Tom, para lhe dizer que está na hora de ele assumir novamente sua verdadeira identidade. A pessoa a quem Carl se refere era um assassino sádico, que matou homens, mulheres e crianças e foi capaz de arrancar o olho de seu interlocutor com arame farpado. Portanto, o assassino tem uma dívida com o mafioso mal encarado, e o chefão está ali para cobrá-la.

Tom e a família inicialmente não levam o papo de Carl a sério. Mas quando o mafioso resolve insistir no assunto, a esposa de Tom (Maria Belo) e os filhos ficam horrorizados com a reação do pacato cidadão. Ele arrebenta a cara dos capangas do chefão e arranca o nariz de um deles com as unhas.

A famigerada fera que aparece ali está protegendo a família ou tentando limpar as sujeiras do passado?

Intriga a forma como David Cronenberg faz progredir a ação. A violência, embora referida logo no título original, é apenas necessária para o desenvolvimento da psicologia dos personagens, que por dentro parecem gigantes. Praticamente tudo tem de passar pelos atores, permitindo ao formidável Viggo Mortensen que mostre seu potencial de ator, bem como Maria Belo, como a esposa, e William Hurt como um mafioso misterioso que aparece dez minutos em cena (mas com uma intensidade que o fez ser lembrado para o Oscar de Ator Coadjuvante). Já as cenas de ação são rápidas e brutais, tão econômicas como o estilo narrativo escolhido pelo realizador, e com conseqüências terríveis, porque David Cronenberg não acredita na violência estilizada. O que ele quer discutir são os efeitos que ela é capaz de provocar na natureza humana.

Por isso, há algo de perverso, quando Cronenberg mostra o filho de Tom, esmurrando garotos na escola com o mesmo sadismo revelado pelo pai em cena anterior. A verdade é que talvez Tom nem seja mesmo aquele psicopata que Carl Fogarty está dizendo que ele é. E talvez o filho não tivesse sido influenciado pelos atos do pai, afinal os garotos da escola estavam provocando ele desde o início do filme. Mas cada um pode despertar o selvagem adormecido dentro de si, basta só aparecer a razão certa para ativar o gatilho.

Cronenberg faz um filme tão estimulante, que termino de ver e vou procurar mais detalhes de bastidores sobre a produção. Acho no you tube um extra, intitulado Atos de Violência, onde o diretor canadense aparece orquestrando a ação de duas seqüências capitais: a seqüência do motel em que uma criança flagra o pistoleiro examinando as pessoas que acabou de matar e o momento em que Tom briga entra no tiroteio com os dois sujeitos no bar.

Para começar, Cronenberg não usa storyboards. Ele se prende à feitura do roteiro e depois no set, intuitivamente vai construindo a cena e procurando os melhores ângulos para apresentá-la. Uma breve declaração serve para desfazer o estereótipo de que ele seria fã de cinema. “Nunca fui um cinéfilo. Não cheguei ao cinema por causa de John Ford, Howard Hawks ou de Orson Welles…” Ele próprio inventou o seu gênero, “cronenberguiano”, que é algo que tem tanto de reconhecível como de alienígena (é sempre um misto do que já vimos mas tem como resultado uma “coisa nova”), que tem o olhar distante de um clínico e a vertigem de um temerário explorador.

No set, o espectador pode testemunhar a atenção do diretor a maquiagem e o seu prazer em ajustar o rosto descarnada de um ator, que no momento de sua morte deve deixar a língua escapar pela bochecha. Ao mesmo tempo que delicadamente ajusta o rosto do ator, vira-se para um técnico e pede para ele espalhar mais sangue cenográfico pelo chão.

Outra cena de bastidores bizarra que encontra no you tube é a que mostra Ed Harris sendo alvejada por uma espingarda de dois canos (uma cena, aliás, que deu um trabalhão para a equipe fazer e que foi removida do filme, porque Cronenberg achou que ela expunha uma reação de Tom, que devia ser mais ambígua). Mas na cena em questão Carl/ Harris é arremessado no chão e podemos ver o buraco aberto entre suas costelas. Então Cronenberg termina de filmar e depois chama Harris para olhar o VT. O ator demonstra certa repulsa pelo resultado. “Eu não me amarro na forma como David mostra essas coisas, mas entendo que é dessa maneira que ele cria seu discurso contra a violência”, diz Harris.

Faz sentido. Como o realizador disse recentemente numa entrevista à revista Total Film: “Sentir nojo, medo ou revolta é uma reação muito limitada. Para compreender a vida física neste planeta temos que usar a nossa racionalidade e enfrentar tudo o que nos desagrada. Se virássemos as costas a todos os que estão doentes ou deformados ou dementes, não teríamos o conhecimento ou o entendimento do corpo e da mente humanos. Eu talvez leve as coisas até um limite, mas os cirurgiões e os médicos também o levam e não sentem repulsa. Eles sabem da beleza que existe por trás disso”.

Clique aqui pra você saber em que canais de streaming Marcas da Violência está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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