Festival

Coronation – 44ª MOSTRA INTERNACIONAL DE SP

Avaliação: 3.5 de 5.

A imagem que sintetiza 2020, para mim, é essa: um médico, usando um traje totalmente hermético, se equilibrando sob um pé, enquanto um outro o esteriliza até à sola. E essa cena, que eu gostaria que não fosse real, pertence ao documentário Coronation, de Ai Weiwei, um dos primeiros destaques da 44ª Mostra Internacional de São Paulo, que este ano está rolando ONLINE.

É uma pena que essa epidemia tenha nos roubado a convivência em filas e cafés, em entradas de cinema e corridas entre salas de exibição – essa é uma memória que guardo com afeição da cobertura de Mostras de SP do passado -, mas, por outro lado, com o caráter ONLINE, ninguém precisa ir a São Paulo desta vez para ver a vitrine cinematográfica, basta se cadastrar na Plataforma: https://mostraplay.mostra.org/ e alugar o filme que você deseja assistir. São quase 200 títulos esse ano.

Coronation foi o primeiro que escolhi da seleção. É um documentário angustiante, feito remotamente da Europa e em segredo pelo artista-ativista e cineasta chinês. Segredo, porque Ai Weiwei, apesar de nascido em Beijing, é considerado persona non grata em seu país. Desde os anos 90, tornou-se um dos críticos mais ferrenhos a China. Sua instalação com trabalhadores felizes e mecanicamente constituídos como bonecos de blocos Lego, em exibição no Museu Hirshhorn e no Jardim de Escultura em Washington – foi considerado uma piada de mau gosto pelo governo do presidente Xi Jinping.

Para Weiwei a China virou isso mesmo, um grande jogo de peças Lego.

Ao longo de sua carreira, o artista de 66 anos produziu esculturas, instalações, fotografias, vídeos e até mesmo uma série de publicações de mídia social que podem ser lidas como uma declaração política. Aliás, o filme anterior de Wei,  Human Flow – Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir, também é petardo. Ele acompanha o êxodo de refugiados pelo mundo, milhões de pessoas em deslocamento, e do alto vemos, a turba como um mosaico, gritando por um auxílio que, todos sabemos, não é ouvido. Coronation é a primeira grande investigação cinematográfica sobre essa pandemia que se instalou no mundo em 2020 e já abreviou a vida de 1.146.596 (até o momento –  24 de outubro).

Uma variedade de cineastas amadores no epicentro viral de Wuhan capturou imagens impressionantes e terríveis de uma cidade mergulhada em crise, e Weiwei organiza essas contribuições com sua visão crítica. Temos uma imagem dualista da China moderna, com um severo sistema de segurança pública, contenção e vigilância que minimizou o surto epidêmico com três lockdowns sucessivos, algo feito com um rigor sem igual em qualquer outro país do mundo. Mas temos também o registro da opressão de um sistema federal autoritário e fortemente centralizado, que acentua e amplifica as tensões entre o indivíduo e o Estado.

O filme demonstra: durante o lockdown, os habitantes tinham pouco tempo para decisões, porque uma vez instaurado, o indivíduo tinha que permanecer em casa, com um mínimo de contato externo por 14 dias. Assim vemos, o sujeito que, no vacilo, foi obrigado a viver no escritório por 14 dias, e mais grave ainda, o operário da construção que teve que correr contra o tempo numa nevasca na estrada, com dificuldade para chegar a um abrigo temporário por que não encontrava gasolina nos postos e ficou a esmo na estrada. (Descubro numa nota de roda-pé a partir do kit de imprensa, que esse trabalhador, depois que a filmagem foi concluída, conseguiu concessão das autoridades para voltar a sua casa em Henan, mas que uma vez no conforto do lar, cometeu suicídio).

É fácil entender por que essas medidas foram postas em prática, e ainda assim é difícil aceitar o efeito colateral do aumento da vigilância. Grande parte da contraofensiva chinesa envolvia (e ao que tudo indica envolve ainda) a coleta e o controle de informações com precisão sem precedentes. O fato de o governo saber onde todos e tudo está a qualquer momento soa como uma distopia, mas também pode ser a maneira mais eficaz e eficiente de acabar com uma praga.

A escala e a autoridade do Estado chinês permitiram que suas agências implantassem robôs de limpeza de rua e instalações hospitalares labirínticas praticamente durante a noite, e ainda assim essas mesmas qualidades tornaram a assistência amplamente inacessível em uma base pessoa por pessoa. Conhecemos um filho em luto, forçado a enfrentar  uma máquina burocrática por semanas  só para tomar posse das cinzas de seu pai, e sentimos a dor desse rapaz ao sentar num jardim, o mesmo em que um mês antes, eles estiverem e dizer: “o lugar continua o mesmo, bonito, com o mesmo banco, a mesma mesa, mas meu pai se foi”.

Um componente mais explicitamente ideológico toma forma na segunda hora, cristalizado em uma discussão sobre política e mídia entre uma senhora ex-revolucionária e seu filho mais pragmático. Ela rejeita a quarentena como uma clara violação de suas liberdades, enquanto ele tenta conciliar sua crença no plano do presidente Xi Jinping com seu ceticismo saudável, escondendo do povo as notícias negativas sobre a pandemia.

Outra variação sobre o conflito geracional se reproduz na cena em que um instrutor alegre ensina a um grupo de jovens como uma rotina de dança pode ser libertadora e maravilhosa, e depois na sequência, complementa, que esse programa de dança só é possível a pessoas que mantém lealdade ao partido e compromisso com a causa da segurança em um único espírito nacionalista.

Weiwei não se atem apenas a questão do Coronavírus. Ele reafirma este desastre não natural como um ponto de inflexão dentro da China atual, onde a luta contínua entre obediência e individualidade gera cada vez mais fissuras no sistema. Foi isso que fez o cineasta abandonar seu país, para viver na Europa. E é isso que precisa ser urgentemente revisto. Independente da questão da pandemia, Wei Wei comprova com Coronation que a nação já estava doente.

Coronation está disponível dentro da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo até o dia 5 de novembro na plataforma https://mostraplay.mostra.org/.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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