Festival

Ferrara, Zhangke e Panahi, três mestres na 44ª MOSTRA DE SP

SIBÉRIA (2020)

O cineasta norte-americano Abel Ferrara formou colaborações célebres com atores como Christopher Walken (“Rei de Nova York” e “Os Chefões”) e Harvey Keitel (“Vício Frenético”), mas é com Willem Dafoe que ele parece encontrar um ator na medida para experiências mais excêntricas. Mesmo num filme irregular como o quase-biográfico “Pasolini”, a associação Ferrara/ Dafoe alcança momentos, num patamar bem acima de quase tudo que é feito na produção norte-americana. O mesmo pode se dito do rabisco do ano passado,  “Tommaso”.

“Sibéria” é mais ambicioso. Trata-se de uma bela, desorientada, às vezes hilária caminhada em deserto geográfico e psicológico que vai encantar alguns e mistificar muitos outros.

Dafoe interpreta Clint, um homem torturado por algo do passado que fugiu para as selvas do norte do Canadá depois que a parte civilizada de sua vida não deu certo. Ele dirige uma estalagem, onde transitam esquimós, russos e outros habitantes do Ártico que falam dialetos, diálogos que Ferrara faz questão de não traduzir para aumentar o estranhamento. E há também uma atmosfera de abstração.  Nesta estalagem, tudo é possível, mas nada é ao acaso: tudo tem uma aparência “normal” até que algo nos desvie da normalidade. À certa altura, Clint é atacado por um urso, depois faz amor com uma garota esquimó grávida.

No porão de sua casa, encontra um abismo.

E no fundo de uma gruta se depara com um lago, onde da superfície sai um homem. Clint fala com ele. O que é? Um sonho, um labirinto, um purgatório? Ou um sonho que sonhou um purgatório labiríntico?

O outro responde: “Você finge estar aberto a todas as coisas, mas não pode acreditar como você é de mente fechada.”

Clint prossegue por essa gruta escura, vendo momentos íntimos de sua vida e, então as paredes se dissolvem, levando a viagem para o deserto da África, e para um contato com o pai, a mãe, a esposa, o filho.

Seus cinco huskies sempre o estão acompanhando por essa jornada, inspirada no “Livro Vermelho”, de Carl Jung.

Quem busca explicações fáceis pode se frustrar nesta Sibéria. Pois conforme o andarilho mergulha mais fundo, a lógica cartesiana se dilui. Ao atravessar uma floresta paradisíaca que o trará de volta à estalagem, apenas a visão dos cachorros o acompanhando. Apenas os animais conformam Clint, mostrando que entre gozos e ausências, ele não está só.

E, por fim, chegamos a um ponto em que o único sentido no filme é descobrir a ilusão de fazer sentido.

Psiquiatras, psicólogos e afins vão adorar. Eu amei.

MASTERS IN SHORT (2020)

Nesse programa com cinco curtas de renomados diretores, o chinês A Visita e o iraniano “Escondida”, me pareceram muito superiores aos outros três, mas abaixo comento todos:

Visita, de Jia Zhangke

Começa com uma batida enérgica na porta de um escritório. É Lian Yirui (um dos colaboradores da vida real de Zhangke) vindo para uma visita relacionada ao trabalho. Uma assistente tira a temperatura antes de deixá-lo entrar. Totalmente mascarados, o visitante e o diretor olham um para o outro em silêncio, ponderando a etiqueta certa para a situação. As mãos devem ser oferecidas? As mãos devem ser gentilmente recusadas? O desinfetante para as mãos é apresentado com polidez assertiva em uma bandeja, como uma bebida de boas-vindas que não pode ser recusada. Fotos de exteriores de uma janela são examinadas em um tablet de tela sensível ao toque e um tratamento de fotoshop numa imagem é considerada, mas – ouch – depois de alguns toques na tela, as mãos devem ser lavadas. Depois os dois, sentados à distância adequada, só se permitem um gole de chá em breves momentos desmascarados, assistindo à projeção de um filme antigo onde um grupo de pessoas, como um enxame, ondula, assemelhando-se a um mar vivo.

Aparentemente filmado em 1 hora com um celular, este filme de 4 minutos está em um rigoroso preto e branco, exceto a partir de uma foto de uma flor e uma vista do céu externo; a natureza brilha, inquieta com a angústia humana e a distopia monocromática. O som também tem um papel primordial em destacar os gestos e procedimentos de novas formalidades do tempo do Covid, gel, água corrente, termômetros de clique, em contraste com as notas sombrias na trilha.

Apesar do minimalismo e do sutil senso de humor da primeira parte, este pequeno trabalho consegue ser um soco com sua sequência final. O sentimento melancólico vindo da multidão espessa, balançando para frente e para trás com o som das ondas é extremamente triste. É a alegria distante da proximidade tátil, união humana vista através de uma lente; um mundo que não é mais nosso, mas que pertence ao mundo da representação.

“Visita” é um pequeno presente precioso de Jia Zhangke, uma bela gota de melancolia.

O Adivinhador, Guy Maddin, Evan Johnson e Galen Johnson

Em 2015, os canadenses Guy Maddin e Evan Johnson atravessaram o espelho e rodaram O Quarto Proibido, um filme que era uma festa surrealista e que foi um grande sucesso na Mostra Internacional de SP daquele ano. Nesse o Adivinhador, toda aquela dimensão psicodélica e desenfreada parece comprimida em 19 minutos.

Visualmente é um filme bem inventivo. Além de Guy e Evan, tem mais um terceiro diretor, Galen Johnson. E, no fundo, o filme é uma brincadeira, a história de Stump the Guesser (Adam Brooks), um adivinhador de parque de diversões, o mais hábil de todos. Ele, não erra uma, isso até uma jovem se aproximar com os olhos fechados, e lhe perguntar qual a cor de seus olhos. Stump não apenas erra na adivinhação, ele se apaixona pela garota e depois vem uma revelação: ele descobre que ela é sua irmã desaparecida.

O filme tem uma atmosfera lúdica e fatalista, com uma estética a meio caminho entre o expressionismo e ritmado por uma montagem pulsante, como os belos filmes de Eisenstein nos anos 20. É muito estimulante, embora perca sua força nos minutos finais e a conclusão seja mal resolvida.

Os Caçadores de Coelhos, Guy Maddin, Evan Johnson e Galen Johnson

Esse é o curta mais fraco da seleção. É dirigida pelo mesmo trio de o Adivinhador, buscando surpreender o público como a mesma combinação de imagens delirantes. Sabe-se que a ideia é prestar um tributo ao Centenário de Federico Fellini. Uma Isabella Rossellini bem masculinizada entra em cena dizendo: “Ontem à noite sonhei que ainda estava vivo”. A voz dela parece desencarnada do espírito de Fellini. O cineasta volta a vida na pele de Isabella e desfila diante de alguns personagens marcantes da galeria Felliniana. Talvez, o problema aqui seja o fato que a trama não se desenvolve. No fundo, Caçadores de Coelhos parece mais uma vinheta que propriamente um filme.

Uma Noite na Ópera, de Sergei Loznitsa

Entre os muitos talentos consideráveis do cineasta ucraniano Sergei Loznitsa estão sua arte de editar documentos de arquivo. Ele faz uma demonstração virtuosa e esclarecedora dela, reunindo as imagens das presenças de personalidade na Ópera de Paris nas décadas de 1950 e 1960.

Do General De Gaulle a Brigitte Bardot, do Xá do Irã a Nehru, de Bourvil a Kroutchev e de Charlie Chaplin a Houphoet Boigny, sem mencionar inúmeras cabeças coroadas, é o diretório mundano de uma era que, diante de multidões sempre entusiasmadas, desfila nos degraus de Garnier graças às gravações das notícias filmadas naquela época. Uma noite na ópera torna-se, assim, não sem humor, uma questão sobre qual era a ideia de glamour em tempos passados – e em contraste também sobre o que o glamour se tornou hoje.

Loznistsa encontra, por fim, na voz de Maria Callas, algo que transcende o tempo. Callas canta e, de repente aquela voz límpida, dissipa a ideia de passado. A voz de Callas é presente e será futuro, enquanto o bom gosto da humanidade persistir.

Escondida, de Jafar Panahi

Condenado por pregar propaganda anti-ilsâmica em seus filmes, a justiça no Irã sentenciou o cineasta Jafar Panahi a 20 anos sem fazer filmes, e obviamente o proibiu de sair do Irã. Mas Panahi faz cinema de guerrilha. Usa a câmera do celular para continuar filmando e, uma vez que finaliza seus projetos, os envia para fora, por contrabando. Foi assim que, em 2015, ele ganhou o Urso de Ouro em Berlim por Táxi Teerã, e, em 2018, o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes por Três Faces.

Seu novo filme, o curta Escondida é um pequeno documentário, onde o próprio Jafar, sua filha e uma amiga, produtora, partem para o Curdistão em busca de uma cantora, silenciada pelas autoridades iranianas.

O filme mostra a expectativa do grupo em entrevistar a cantora e como eles pretendem trabalhar o caráter da proibição em caráter humano, político etc,  mas quando eles chegam ao local, todos os planos acabam frustrados.  O pai da garota sequer deixa os visitantes vê-la. O único contato possível  é vedado por uma cortina. E eles só poderão registrar a voz da garota entoando o trecho de uma canção.

É um filme genial porque dá corpo há algo que Panahi já vinha questionando. A matéria-prima essencial de cinema está naquilo que só pode ser mostrado e visto. E em seus últimos filmes, o cineasta fez isso a partir da demonstração dos gestos, de rostos sofridos, mas aqui em Escondida, o que sobra para mostrar?

Uma voz sem rosto, mas essa voz é poderosa.

Sibéria e Masters in Short estão disponíveis dentro da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo até o dia 5 de novembro na plataforma https://mostraplay.mostra.org/.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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