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O Nariz, Dias, Isso Não é Um Enterro, Charlatão – 44ª MOSTRA INTERNACIONAL DE SP

A maratona da 44ª Mostra Internacional de SP me deixa sempre no impasse, a oferta de filmes é imensa (quase 200 títulos) e você fica sempre querendo ver mais, só que como jornalista ao mesmo tempo é necessário parar para escrever. Portanto, não sei se as dicas que estou dando são as melhores para esse fim de semana, mas combinei o que realmente adorei até agora (o russo “O Nariz ou A Conspiração dos Dissidentes” e um incrível filme feito em Lesoto: “Isso Não É Um Enterro, É Uma Ressurreição), mas também estou falando do que está sendo badalado, como o Dias, do Tsai Ming Liang, e “Charlatão”, o último da Agnieszka Holland.

O Nariz ou A Conspiração dos Dissidentes (2020), Andrey Khrzhanovsky

Um filme que é um jorro de invenção do começo ao fim. Começa como uma parábola: “Ontem surgiu uma espinha no meu nariz e hoje acordei para espremê-la, mas quando cheguei no espelho o meu nariz tinha sumido”.  Em desespero, o personagem sai pela cidade em busca do nariz perdido e, oras, vejam só, descobre que agora ele vive como uma pessoa, e está disfarçado do Conselheiro do Estado.

O mote desta história alegórica é tirado de um conto homônimo de Nikolai Gogol, que por sua vez abalou a sociedade russa em 1930, quando o compositor clássico Dmitri Shostakovich a transformou em ópera. Stálin achou a peça de muito mal gosto, mandou fechar o teatro e prender Shostakovich. A partir disso,  o governo criou um staff , baseado nos valores do que consideravam que era bom e o que era lixo, e passaram a censurar tudo o que era feito em arte na União Soviética.

O diretor Andrey Khrzhanovsky recapitula essa história numa colagem que experimenta diferentes estilos e técnicas, do cinema, fotografia, pintura e animação e faz uma ode ao papel do artista lutando contra a natureza da opressão. E é muito interessante como ele encadeia o contexto criando uma ponte entre o passado e o presente. Numa cena, vemos  Wladimir Putin reunido com o Ministério da Cultura igualzinho Stalin, com a diferença que o estadista do passado pelo menos se dispunha a discutir arte. Putin nem fala de arte, ele a ignora, acha uma perda de tempo.

O que parece cômico neste filme não é apenas cômico. Depois de rirmos de tanta ignorância, desamparo, estupidez e maldade idiota, à risada continua presa na garganta, porque o que é engraçado não é só engraçado.

Isso Não É Um Enterro, É Uma Ressurreição (2020), Lemohang Jeremiah Mosese

O desempenho de Mary Twala Mhlongo neste filme é uma coisa de outro mundo. Descubro que ela faleceu logo depois que as filmagens se encerraram. É uma triste ironia, porque o filme gira todo em torno do signo da Morte, mas a atriz afasta as trevas de si com uma caracterização luminosa. Sua personagem, Mantoa, é uma viúva de 80 anos, que perdeu a razão de viver, e a morte torna-se uma companheira. Nós a vemos deitada esperando o fim em seu vestido de noiva. Após a morte de seu único filho que deveria voltar para ela depois de trabalhar em uma mina sul-africana, sua vida sucumbiu ao desespero. Seus dias passam, e ela contempla as paredes azul-escuro de sua pequena cabana. A cabana – que foi feita pelo marido, também é um lembrete de sua solidão.

Ela decide acabar com sua vida pedindo ao coveiro nativo que garanta que a enterre exatamente ao lado dos restos mortais do marido e do filho. No entanto, os planos do enterro são interrompidos pela notícia de que sua aldeia está passando por um deslocamento coletivo em larga escala. O governo escolheu a vila como parte de seu “Projeto Água das Terras Altas”. Para piorar as coisas, o lugar onde os túmulos de seus ancestrais estão logo será inundado para que uma represa possa ser feita em seu lugar.

Mantoa, assim, encontra uma nova vontade de viver. Ela adquire uma pequena revolta onde algumas pessoas da comunidade se reúnem para se revoltar contra a ideia de progresso do governo. Ela não acredita em pegar uma vida na cidade quando seu leito de morte chama por ela dia sim, dia não. As outras pessoas da aldeia também entendem que se afastar de sua pequena vida só vai fazê-los se sentir deslocados.

Esta revolta coletiva serve como a única parte do filme sombrio de Moisés com algum senso de esperança. Até a história que Mantoa conta a uma criança é sobre como a morte se tornou uma parte importante de sua existência cultural. De certa forma, Isso Não É Um Enterro, É Uma Ressurreição é uma meditação sobre o novo e o velho. O enquadramento e a abordagem experimental garantem que a narrativa seja evocada como uma resiliência assombrosa do espírito humano. Mosese dirige o filme como um mito experimental e poético.  Filmando na proporção de 1.33:1, ele muitas vezes exemplifica a dor e a desesperança nos olhos de Mantoa. Seu rosto cansado e de luto pode colocar até as pessoas mais felizes em profunda agitação.

A partitura do filme é especialmente perturbadora. O design sonoro, tendo como pano de fundo uma existência fantasma faz com que cada quadro pareça mais sobrenatural. Pulsa em Isso Não é um Enterro uma visão profunda da singeleza e da dor de um povo e um país. Realidade e artifício não se rejeitam, antes caminham juntos, como resultado de uma criatividade exuberante

Dias (2020), Tsai Ming Liang

Não sou um entusiasta do cinema de Tsai Ming Liang. Gosto de Os Rebeldes do Deus Neon e de Vive L’Amour, respeito O Rio, O Buraco e entendo Adeus Dragon Inn, mas o filme que admiro é O Sabor da Melancia, que é um Tsai atípico, menos contido, bem-humorado e tomando liberdades com Taiwan, o cinema musical e o erótico.

Dias renova o  interesse do cineasta por esse universo hermético, pleno de cenas esticadas além dos limites. O filme foi saudado no último Festival de Berlim como a volta do mestre de Taiwan a velha forma e está causando um certo frisson na crítica daqui também.  Entendo e respeito, mas achei bem penoso de assistir.

Tsai Ming Liang propõe uma história de amor entre dois estranhos solitários. Um deles é Lee Kang-sheng, o ator que estrelou todos os filmes de Tsai desde Rebeldes do Deus Neon. Lee faz o homem que vive sozinho em uma casa, em algum lugar no campo nebuloso, sofrendo de uma doença crônica. A outra figura central do filme é o mais jovem Non (Anong Houngheuangsy), um imigrante laosiano em Bangkok que vemos meticulosamente preparar refeições: lavar alface e peixe, raspar pepinos, etc.

Tsai encena cada sequência com sua paciência observacional – essa tendência que ele tem de permanecer plantado em um único momento bem além do ponto que quase qualquer outro cineasta cortaria.  Dias se constrói à intersecção das histórias de Kang e Non: eles se conhecem numa sessão de massagem em um hotel de Hong Kong e a atração é magnética.

A longa cena que se constrói deste primeiro encontro é mais terna do que erótica, Tsai nos dá muito tempo para focar na pele jovem e na pele velha, refletir sobre os dias e anos que passam, e para habitar também a natureza quase ritual do encontro; mudando as posturas apenas um pouco, e o personagem de Houngheuangsy poderia estar carinhosamente lavando um cadáver.

É desses estranhamentos inusitados, que me levam a estender meu interesse. Outro é que o cineasta não se atém às conversas, filma tudo como se fosse um filme mudo. O momento mais bonito do filme acontece com Kang e Non na beira da cama, ouvindo uma caixa de música. A melodia é de Luzes da Ribalta, de Charlie Chaplin, outro cineasta com grandes ideias sobre imagem e música — e pouco interesse em legendas.

Entendo os enigmas de Tsai, eles são cumulativos e mais ressonantes por sua reticência, mas cada reticências não precisava durar meia hora.

Charlatão (2020), Agnieszka Holland

Antes de se tornar cineasta, a polonesa Agnieszka Holland colaborou em vários filmes com aquele que talvez tenha sido o maior diretor do cinema polonês, Andrej Wajda. Durante a Segunda Guerra, Wajda ajudou, entre um bico e outro, as forças da Resistência a vencerem nazistas e colaboracionistas poloneses. Depois, quando a Guerra acabou teve que se entender com os russos. A Polônia é marcada por essa dança de cadeiras do poder. Como sobreviver a um estado que passou por sucessivos regimes austeros?

Seu cinema é marcado pela desconfiança em relação às palavras de ordem, e também pela resistência às ideologias de extrema direita.

Agnieszka mantém esse legado, mas com um estilo personalista. Seus maiores filmes, Filhos da Guerra, e Mr. Jones, que passou quase despercebido pelo circuito brasileiro ano passado, remexem na história, procurando desfazer as lacunas que o estado varreu pra debaixo do tapete.

Charlatão, um dos grandes destaques da 44 Mostra deste ano, toma outro  quadro do coração doloroso da Europa, dilacerado pela ideologia totalitária. A história levemente ficcionalizada de Jan Mikolášek, o fitoterapeuta tcheco e curandeiro que se tornou uma figura influente na década de 1930. Ele tratava ricos e pobres, aceitando tanto alemães poderosos como seus pacientes durante a ocupação nazista, como, funcionários comunistas após a guerra.

O filme mostra que esse “doutor” era um espanto de simpatia e desenvoltura, tanto que caiu nas graças por exemplo do presidente tchecoslovaco Antonín Zápotocký. A amizade deles proporcionou uma vida de luxo e ostentação para Mikolášek. Mas a morte inesperada do estadista em 1957 fez a fonte secar mais rápido do que se esperava.

No dia seguinte ao enterro, ele foi julgado pelo governo comunista que há muito temia e se ressentia do que via como um charlatanismo, existente fora da medicina estatal. Será que era isso mesmo, ou Mikolášek incomodava pois seu charlatanismo era mais bem sucedido do que o de Stalin? A narrativa do filme se constrói em flashbacks, enquanto o personagem real é questionado em sua cela sobre a carreira, sua vida e suas contradições. A versão velha do Charlatão é defendida pelo veterano ator tcheco Ivan Trojan, enquanto o filho, Josef, interpreta o jovem Mikolášek.

A diretora nunca concebe o  “doutor” como um oportunista. Ao contrário, ela o recria como um sujeito digno, religioso, que desenvolveu um conhecimento ao longo dos anos (com a ajuda de uma enfermeira) para reafirmar através da análise da urina de seus pacientes diagnósticos muito assertivos. Numa cena, oficiais nazistas embaralham a ficha de vários doentes para desmascarar o doutor, mas, ele emite o diagnóstico de todos com precisão.

Holland dá a Mikolášek alguma vulnerabilidade imaginando para ele uma vida gay secreta com seu assistente Frantisek Palko (Juraj Loj), um gesto fictício baseado em conjecturas de longa data que cresceu a partir do fracasso do casamento de Mikolášek e da intimidade que ele tinha com seu assistente (os dois moraram juntos por várias décadas).

O fato é que aquela era outra época, onde a possibilidade de sair do armário num regime austero, poderia significar a morte. A trama prolonga essa e outras questões num punhado de episódios emocionantes, o mais surpreendente quando o jovem Mikolášek desenvolve um amor por ervas e uma vocação para a cura, e está angustiado com o fato de que sua irmã está sendo ameaçada de ter sua perna gangrena amputada. Na noite anterior à operação, ele entra no quarto dela e salva a perna com uma mistura de ervas. Um diretor como Spielberg daria um tratamento apoteótico para este trecho, mas Holland é mais austera. Há muitas outras cenas de “milagre”, que são apresentadas num misto de desconfiança e descrença, o próprio Mikolášek, tem dúvidas sobre o seu sucesso. Religioso, várias vezes ele cogita que talvez tenha sido assertivo, pela sorte de ter Deus ao seu lado.

Cai regime, um novo se estabelece, e não há como deixar de admirar esse Charlatão. Ele encontra sempre uma maneira de se reinventar.  Com certeza, a escolha de Holland por contar essa história é  de plena ironia. Afinal, esse Charlatão obteve algo precioso em toda sua sinuosa trajetória. Uma  independência política e liberdade criativa raras.

O Nariz, Isso Não É Um Enterro, É Uma Ressurreição, Dias e Charlatão estão disponíveis dentro da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo até o dia 5 de novembro na plataforma https://mostraplay.mostra.org/.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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