Festival

Mulher Oceano e outras dicas – 44ª MOSTRA INTERNACIONAL DE SP

O filme de Djin Sganzerla foi um dos grandes destaques do evento, que agora entra na fase de repescagem. Segue mais algumas dicas de títulos excelentes para assistir até domingo pela plataforma https://mostraplay.mostra.org/.

MULHER OCEANO (2020), Djin Sganzerla

O mestre Rogério Sganzerla (diretor do clássico O Bandido da Luz Vermelha) ficaria orgulhoso de ver com que ousadia a filha Djin Sganzerla se coloca neste seu longa de estreia. O filme tem duas protagonistas chamadas Ana e é a própria Djin que vive ambas. Uma é uma sofisticada escritora loura que se distanciou do Brasil (está no Japão) para preparar seu novo livro. A outra Ana é ruiva, mora na periferia do Rio e é uma nadadora. A primeira parte tem uma elegância e um clima que lembra o Kieslowiski de A Dupla Vida de Veronique. De fato, há um certo mistério enquanto se desenvolve a história em separado das duas mulheres que parecem sósias. Ambas mantém uma relação de fascínio pelo mar, a primeira usando-o como inspiração para o ofício de escrever.  Um amigo reafirma: “os escritores estão sempre dançando à beira do abismo”, ao que ela responde: “mas o abismo é muito maior se não mergulhamos”.

Djin mergulha fundo no filme. Tem a técnica e a segurança de colocar as emoções fluídas e não inteiramente articuladas destas duas mulheres, sem que nada soe confuso. Ao contrário, as duas são muito tocantes, muita humanas. Na segunda parte, um mundo de associações acaba definindo com muita habilidade quem é uma e quem é outra (não cabe dar spoiler aqui). A técnica da cineasta é tão firme e sedutora que vamos sendo levados pela mão. É emocionante de assistir. É como se uma jovem poetisa abrisse seu coração e nos contasse a história de sua vida nos termos de romance e beleza que ela sente quando fala de cada entrelinha. Vi com grande prazer, e em breve quero rever, porque sinto que o Oceano das mulheres de Djin ultrapassa mais que o Atlântico e o Pacífico.

LUA VERMELHA (2020), Lois Patiño

Visualmente esse filme espanhol é extraordinário – cenas magníficas de uma ilha, banhada por um oceano tão escuro quanto sangue arterial.

O conteúdo é uma lúdica história de terror sobre um pescador local, Rubio (Rubio de Camelle), que se convence de que um monstro está caçando nas costas de sua cidade costeira enquanto depara-se com cadáveres ao pegar seu barco todas as manhãs. O tal monstro náutico permeia todo o filme, no entanto, as verdadeiras ameaças aqui parecem vir de construções do homem, como uma hidrelétrica filmada em ângulos que transformam o concreto em uma extensão de espaço em branco que se estende além da moldura.

E então, o próprio Rubio desaparece, tornando-o um protagonista mais referenciado do que visto enquanto outros habitantes da cidade ruminam sobre se o palpite do homem estava certo.

A cidade onde esses moradores moram é filmada em termos ainda mais nítidos do que as paisagens, evocando retratos de estagnação e alienação.

Os atores não profissionais estão dispostos como manequins e freqüentemente em silhueta, distanciados uns dos outros e muitas vezes olhando em direções opostas.

A mitologia é um elemento crucial de Lua Vermelha com um trio de bruxas aparecendo quase meia hora depois do início do filme em busca do desaparecido Rubio. Essas mulheres passam o resto do filme vagando pelo campo e pela cidade litorânea, geralmente as únicas pessoas em movimento no quadro.

É um filme barroco, de uma extravagância que pode irritar alguns, mas embarquei na atmosfera estranha que o diretor Lois Patiño planeja envolver o espectador. A concepção é bem particular, e o cineasta parece muito confiante do caminho que está trilhando. Vale a pena guardar seu nome.

NADANDO ATÉ O MAR SE TORNAR AZUL, Jia Zhangke

O grande Jia Zhangke, autor de filmes como Plataforma, Um Toque de Pecado e As Montanhas se Separam, teve uma presença marcante nesta 44 Mostra. Tanto em “A Visita”, seu curta de cinco minutos dentro da coletânea “Masters in Short”, como neste afetuoso documentário, “Nadando Até o Mar se Tornar Azul”, continua passando uma força impressionante. Jia aqui faz uma série de entrevistas com autores célebres de sua Chanxi natal para lançar um olho sobre a mudança da China da vida rural para urbana; as implicações dessa transformação, e os aspectos mais sensíveis à censura do Estado.

O clima de reminiscências lembra os documentários do mestre Eduardo Coutinho. As entrevistas parecem em grande parte não editadas, quase divagando às vezes, mostrando a maneira como os escritores falam sobre o passado e não como escrevem a respeito. O diretor permite que essas divulgações nos afeiçoem à medida que o próprio filme se aproxima de uma estrutura de capítulos incomum (numeração 1-15, com títulos como Mãe, Som, Voltando para Casa, e assim por diante).

A migração em massa de chineses de fazendas para cidades forneceu o pano de fundo de grande parte do trabalho mais recente do diretor; e através de suas entrevistas com os escritores Liang Hong, Jia Pingwa e Yu Hua (que nasceram cada um com uma década de diferença) – recebemos um olhar quase cronológico sobre as memórias em mudança por três décadas.

Engana-se quem vê pela carpintaria um filme menor, à medida que se torna um veterano, Zhangke parece cada vez maior. O cineasta, que fez 50 anos em maio último, entra em sua quinta década, e com uma nostalgia de olhos cada vez mais claros.

Zhangke tem buscado cada vez mais olhar para trás em seus filmes à medida que a China continua sua própria mudança sísmica. O título poético do filme refere-se a algo que Yu Hua diz enquanto ele vagueia por um lugar onde ele nadava quando menino. O mar era amarelo, ele explica, embora seus professores lhe dissessem que era azul. Os filmes de Jia Zhangke continuam documentando essa mudança de tonalidade, por mais grandiosas ou humildes que sejam.

PAI (2020), Srdan Golubović

Esse drama sérvio é contundente da primeira à última cena. Começa uma mãe desesperada, arrastando os dois filhos até a fábrica onde o marido foi demitido. Ela pede encarecidamente pela indenização que a fábrica não pagou. As crianças estão com fome, os operários olham para ela, uma inconveniência menor e lamentável, até que ela desparafusa a tampa de uma garrafa cheia de gasolina, se encharca – tenta encharcar os filhos também – e coloca fogo em si mesma. Ela arde por insuportáveis longos segundos antes que os homens recuperem seus sentidos e corram para derrubá-la no chão.
Esta primeira cena no quarto longa-metragem de Srdan Golubović está entre as aberturas mais visceralmente perturbadoras imagináveis, mas enquanto o resto do tempo de execução de duas horas sombriamente convincente ocupa um registro dramático menos agressivo e anti-climático, é uma declaração da rigidez e seriedade da intenção que toda a história vai suportar. As coisas dificilmente podem piorar depois de um ato desesperado de autoimolação; mas eles podem permanecer ruins em uma variedade de maneiras novas e diferentemente terríveis.
A ação passa a se concentrar imediatamente em torno do marido, Nikola (conhecido ator bósnio Goran Bogdan de “Fargo” da TV) enquanto ele ouve sobre a tentativa de suicídio de sua esposa e corre para o hospital. Ela está em recuperação, mas catatônica limítrofe, e seus filhos traumatizados – um menino mais velho e uma menina mais jovem – foram levados pelos serviços sociais.
Nikola não pode vê-los ou falar com eles até que a autoridade local, liderada pelo tirano Vasiljević (Boris Isaković) decida que ele está apto a ficar com eles.
Por razões venais, mesmo depois de Nikola reunir todos os recursos para atender à lista de expectativas que eles têm para manter as condições de vida das crianças, o serviço social nega sua petição.
Nikola opta por apelar, mas sabe que seu pedido será ignorado. e por isso resolve ir a Belgrado entregá-lo ao ministro pessoalmente. Sem um tostão, ele parte a pé — uma odisseia de cinco dias e noites caminhando pela desolação das paisagens rurais do país e dormindo em postos de gasolina abandonados, tudo sem muita esperança de real de justiça. “Meus filhos devem saber que lutei por eles” é tudo o que tácito Nikola oferece por meio de explicação.
Há algo quase religioso na busca de Nikola, com seu progresso em direção a Belgrado recordando peregrinações a lugares sagrados e os testes de seu corpo até seus limites de exaustão e fome sugerindo as mortificações da carne que os suplicantes suportariam na esperança de que Deus aprovasse sua pureza.
O filme é duro e gera uma indignação crescente por que vemos cada vez mais empecilhos no caminho deste pai. Sua angústia é kafkiana. Por isso mesmo o filme é incrível. Não bastasse, o desempenho de Goran, como o pai, é uma força da natureza.

VALENTINA (2020), Cássio Pereira dos Santos

Outro filme nacional surpreendente como Mulher Oceano. Esse trata de uma adolescente, a Valentina do título (Thiessa Woinbackk), que já foi Raul antes de mudar de gênero. Mudando de uma cidade de baixa renda para outra com sua mãe solteira, Marcia (Guta Stresser), Valentina lida na escola com as inevitáveis consequências de expor sua sexualidade.

A história é consistentemente sólida e os personagens centrais são muito bem compostas,  especialmente a jovem Woinbackk (que, aliás, ganhou o prêmio de Menção honrosa por sua interpretação nha Mostra) e também Guta Stresser como a mãe, que agoniza sobre a dor de sua filha. Há um vontade raivosa  do escritor-diretor Cassio Pereira dos Santos de enfiar verdades goela abaixo da parcela mais conservadora desse Brasil varonil, mas ao mesmo tempo ele compreende o terreno que está pisando. Não há muita aspiração ou esperança, em determinado grupo social.

No final do filme, o cineasta acrescenta algumas informações sobre a vulnerabilidade particular das crianças transexuais no interior do Brasil, cerca de 82% dos meninos e meninas trans abandonam a escola. A expectativa de vida dessa população é de 35 anos.

Contra as evidências, não há o que discutir.

Mulher Oceano, Lua Vermelha, Nadando Até o Mar Se Tornar Azul, Pai e Valentina estão disponíveis dentro da programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo até domingo, dia 8 de novembro na plataforma https://mostraplay.mostra.org/.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

0 comentário em “Mulher Oceano e outras dicas – 44ª MOSTRA INTERNACIONAL DE SP

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: