Musicais

Onde encontro os filmes de Bob Fosse no Brasil?

Podem me julgar: ainda tenho um aparelho de DVD em perfeito funcionamento em casa e sou o tipo de pai babão que revê em looping os vídeos de quando a filha tinha cinco anos e fazia balet. Bom, aí você pode me perguntar o que Bob Fosse tem a ver com isso, e eu digo que, ontem, no meio do velho vídeo musical de apresentação da escola, eu sempre pulava a parte em que um grupo de tap dancing entrava para dançar ao ritmo da clássica “All That Jazz”, mas desta vez, fiz diferente e resolvi assistir.

Quase cai da poltrona quando a professora inoportuna entrou para dizer que aquele era um número do musical “Cats”!  Torci para que ela tropeçasse na cortina. A música “All That Jazz” foi composta para “Chicago” e a coreografia que eles fizeram tinha aquela síncope rítmica que o grande Bob Fosse criou para a dança.

É engraçado, a morte faz a gente esquecer um cara, mas esquecer de uma escola, de um estilo já revela uma certa displicência. Bob Fosse morreu em 1987 e o cinema e, sobretudo, a Broadway ficaram órfãos. Aliás, quem ganhou o Oscar por “Chicago” em 2002 não foi ninguém que estava no palco. Foi o Fosse, que mesmo morto, estava lá divulgando sua arte. E ninguém se deu conta disso na época.

Bob Fosse foi o coreógrafo mais importante do musical nos últimos 60 anos. No cinema fez meia dúzia de filmes, mas colocou a energia de uma hidrelétrica neles. Começou mexendo com aquela coreaografia de “Kiss Me Kate” em 1953 e tudo o que foi feito em termos musicais dos anos 70 pra cá, teve influência dele.

Pesquiso no streaming e na web o que existe disponível do Bob e começo a dar razão para o analfabetismo da professora da minha filha. Descubro que “Charity, Meu Amor” saiu aqui pela Universal, mas não encontro o filme disponível nem em streaming. Achei “All That Jazz/ O Show Deve Continuar” em streaming no Now, mas para comprar em loja virtual ele é uma raridade. E a obra-prima de Fosse, “Cabaret”, necas de pitibiriba. Só existe disponível importada ou , é claro, pra baixar no submundo do torrent.

O Canal FX, produziu uma série caprichada sobre o multiartista ano passado, “Fosse/ Verdon” exibido aqui no Brasil pelo Fox Premium, com Sam Rockwell no papel do coreógrafo, mas Bob Fosse merecia mais consideração. Fosse foi o bailarino que tirou a virgindade dos musicais de Hollywood. Não tinha espaço para donzelinha em seus filmes. Você pode até afirmar que prostitutas e cafetões podiam ser vistos nos musicais antigos, mas eles não eram sexualizados. Fosse chutou a porta dos estúdios e colocou uma Shirley MacLaine bem putona em “Charity, Meu Amor”. Depois fez pelo menos duas obras-primas, “Cabaret”, com Liza Minnelli vivendo uma putona mais versátil, pois também era cantora, dançarina e atriz, e “O Show Deve Continuar”, com um Roy Scheider como gênio, criador de espetáculos maliciosos e também muito tarado.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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