Drama

Mank é uma volta arqueológica a Hollywood dos anos 40

Avaliação: 3.5 de 5.

É bem fácil de menosprezar Mank, o novo filme de David Fincher, afirmando que a obra é antiquada, cerimoniosa, pouco relevante, que não chega nem aos pés do filme que pretende homenagear, Cidadão Kane, nem ao seu criador, Orson Welles. Mas eu adoro refutar esse tipo de adjetivação apressada, superficial  e lacradora dos espertinhos da internet. Para começar, não há demérito em Mank não chegar aos pés do clássico de Orson Welles, afinal são muitos raros os filmes que alcançam o mesmo patamar  de Cidadão Kane. E também é verdade, Mank é antiquado, mas é lindamente antiquado. E com relação a relevância, acho que o filme de David Fincher abrange um universo conceitual muito maior do que as opiniões imediatistas tentam nos vender.

Diria até que achei o mergulho do cineasta no tema, fascinante. Primeiro, porque Fincher não só quis recriar uma época. No cerne do projeto vê-se que ele busca uma linguagem mais clássica para estruturar a trama (escrita pelo seu pai, Jack Fincher, muito influenciado pelo artigo do The New Yorker, Raising Kane, da terrível Pauline Kael). E, puxa, que aventura é para um cineasta, resgatar os paradigmas do como se fazia cinema num período, desaposentando as velhas dollys e gruas estocadas no quintal de tralhas dos estúdios. O senhor tecnológico, conhecido por inovações como as de Clube da Luta, Benjamim Button, Millennium, aqui só não abriu mão de uma novidade tecnológica: ele usa uma câmera digital 8k para captar os anos 40 num hiperrealismo.

Quem era Mank, ou melhor Herman J. Mankiewicz? Antes de roteirista de Cidadão Kane, Mank foi um dos sujeitos mais insolentes que frequentou Hollywood entre o fim do cinema mudo e o começo do sonoro. Insolente e criador. Ele foi um dos responsáveis por requintar a linguagem da indústria do entretenimento nos anos 30. Foi ele que levou a comédia anárquica dos irmãos Marx às telas, como também foi um dos “culpados” por trazer as maiores mentes do jornalismo, do teatro e da literatura de Nova York para escrever roteiros para os Estúdios. Gente como George S. Kaufman, Nunnally Johnson, Charles McArthur, Ben Hetch, Charles Lederer e por último, seu irmão Joe Mankiewicz (autor da obra-prima, A Malvada). Essa turma contribuiu para o nascimento de um novo tipo de comédia elétrica e inteligente (as screwball comedies) que pipocou de meados dos anos 30 até o começo dos anos 40, em clássicos deliciosos como A Primeira Página (1932), Suprema Conquista (1934), Levada da Breca (1939), Jejum de Amor (1940) e Núpcias de Escândalo (1940).

Mank não produziu ou assinou esses títulos, mas indiretamente foi um dos pais da filosofia, conforme pode muito bem ser visto na cena em que ele joga cartas com os roteiristas e depois quando os reúne para montar um argumento improvisado. O  tema central de Mank, de fato, não é a feitura de Cidadão Kane, mas antes de tudo, a história de um sujeito muito excêntrico (vivido por Gary Oldman), que participou dos bastidores de uma indústria, próximo de poderosos como Louis B. Mayer, Irving Thalberg e do magnata do jornalismo William Randolph Hearst, e foi tendo sua importância anulada, por conta de sua língua ferina, demolidora em alguns casos, combinado com as homéricas bebedeiras. E Mank era um sujeito indomável, fazia questão de demonstrar que nunca vestia a camisa de funcionário como a chefia pedia.

Nem mesmo Orson Welles (Tom Burke), com sua presença imperial, conseguiu dobrar as vontades do roteirista. Welles fez um contrato com Mank para que escrevesse o roteiro de seu primeiro filme como um ghost-writer, ou seja, o roteiro seria creditado apenas a Welles. Como o roteirista estava na pior, falido (ele acaba de sair de uma clínica de reabilitação), Mank não pensou duas vezes em aceitar o trabalho.

Isso mancha a reputação artística de Orson Welles? Não, Welles foi um prodígio do cinema, que mesmo que mesmo ridicularizado por seu talento, seu intelectualismo nos Estúdios, depois de Cidadão Kane, fez pelo menos meia dúzia de filmes extraordinários (Soberba, A Marca da Maldade, Mr Arkadin, O Processo e Chimes at Midnight, estão aí para provar).

Embora alguns possam refutar, o que conta em Mank é a história do sujeito perspicaz, que acredita que pode enfrentar um mundo frívolo, calculista e de autopromoção à todo custo, sem ser engolido. Com suas tiradas espirituosas, às vezes ele quebra a solenidade, outras, ele tenta comentar, mas emudece, como no episódio do cineasta Shelly Metcalf, designado por Thalberg para sabotar o candidato a governador Upton Sinclair, comunista de carteirinha, criando noticiais falsas para veicular nos cinejornais da MGM. Shelly é um personagem fictício, mas ele entra no filme para ilustrar como a máquina de propaganda da MGM estava azeitada naqueles anos com o Partido Republicano. Em 1933, o país estava vivendo a era de Depressão, que deixou milhões de operários sem emprego, e a única esperança de mudança que essa turma tinha, vinha das ideias comunistas de Sinclair. O povo ia votar em massa no candidato. Como o cinejornal da MGM era muito popular, Shelly pegou a missão pouco nobre de convocar dezenas de atores para se fazerem passar pela voz operária, emitindo opiniões de dúvida e temor sobre o comunista. Ele martelou tanto no assunto que acabou esvaziando a plataforma política de Sinclair. Shelly, como disse acima, não é um personagem real, mas as eleições e as maracutaias realmente aconteceram de forma monstruosa. E Fincher resolveu dar uma suavizada na verdade, mostrando a crise de consciência de Shelly quando o candidato dos operários perde a eleição.

Os livros de história depositam em Joseph Goebbels a culpa pela evolução da propaganda de massas, mas aqui vemos que Hollywood já fazia isso muito bem. Aliás, há um momento no filme, num jantar, que vemos Thalberg contando de sua viagem a Alemanha e demonstrando uma admiração pelo que viu na terra do Fuhrer.

Nenhuma personalidade artística escapa ilesa no filme, nem mesmo Herman Mankiewicz. Mank é autocentrado, arrogante, faz pouco caso da mulher e a humilha na frente de todos, chamando-a de a Pobre Sarah, e trai William Randolph Hearst, que o considerava um aliado, ao usar particularidades da vida do magnata, para forjar William Foster Kane, o protagonista de Cidadão Kane. Quem não consegue enxergar a identidade de Fincher, é realmente aqui que vemos sua marca autoral. Hollywood é tão sórdida quanto as vielas onde os policiais de Seven procuram um serial killer, ou o submundo que Edward Norton e Brad Pitt criam o Clube da Luta.

O único dado que impede Mank de ser o filme do ano é uma certa dispersão. Em alguns momentos vê-se claramente que Fincher queria construir uma história épica cheia de múltiplos flashbacks e múltiplos pontos de vista, como em Cidadão Kane. Só que no filme de Welles havia um dispositivo de enquadramento, a palavra “Rosebud” que mantinha o público ancorado.
Mank, em comparação, não tem âncora. Sentimo-nos à deriva, num oceano, esperando a bóia para nos salvar. Esperando alguém que nunca vai aparecer. Esse dado inconclusivo talvez seja intencional, mas deixa o todo com uma impressão meio bamba.

Em terra firme mesmo, só nos sentimos com os atores. Gary Oldman consegue um raro feito aqui, mostrando uma face cínica e anárquica. Aos poucos, contudo, ele revela, em cada flashback, como o sistema ilusório que o mantém inteiro desmoronou. O trabalho de Amanda Seyfried, como a atriz Marion Davies é igualmente excelente. Ela faz a loura platinada, usada como adereço pelo magnata Hearst, a mulher que nas conversas inteligentes está proibida de manifestar sua opinião, mas que num passeio pelo zoológico na mansão do amado, revela a Mank o seu mundo muito sensível e particular. O roteirista, encantado com a loura, a chama de Dulcineia e, ele de repente se vê como Don Quixote. As feras estão enjauladas ali para o casal viver por mais um minuto dentro do sonho.

Enfim, não dá pra chamar um filme que traz tudo isso de irrelevante.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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