Clássico

Nashville (1975)

Avaliação: 5 de 5.

Há 46 anos, o cineasta norte-americano Robert Altman ofereceu uma visão corrosiva dos EUA centrada na capital da música country. Nashville é um conto de desordem e negação que parece relevante hoje até para o nosso orgulhoso Brasil.

Para entender o significado deste filme caótico, é necessário entender antes de tudo o que representa a cidade de Nashville, para a cultura norte-americana. É o lar do Grand Ole Opry, o programa de TV musical mais importante nos EUA para as estrelas country, e a cidade é amplamente considerado como a maior incubadora da música caipira note-americana. Robert Altman e a roteirista Joan Tewkesbury lançaram seus olhos na cidade como pano de fundo para seu filme, dentro de um tempo de execução expansivo de quase três horas. Eles combinaram uma visão realista do capital da música country com seus pensamentos sobre uma turbulenta era política nos EUA, costurando suas impressões do coração estrelado, peludo e patriótico de uma grande parcela do povo norte-americano.

Nashville ocorre ao longo de três dias, quando um candidato presidencial populista – Hal Phillip Walker – contrata músicos para se apresentar em uma de suas arrecadações políticas. Com uma plataforma sem sentido, incluindo ideias como mudar o hino nacional para ser mais simples, a campanha de Walker é uma farsa gloriosa. Nós nunca realmente vemos o político se aprofundando em ideais, em vez disso sua campanha parece inteiramente representada por uma van com um logotipo e um alto-falante, dirigindo pela cidade tocando slogans e pontos de discussão fáceis.

O filme de Altman tem cerca de duas dúzias de personagens ao longo de sua duração, cada um ocupando um estrato diferente da cena musical country na cidade. No topo do grupo está Barbara Jean (Ronee Blakley), uma estrela gentil que sofre de uma doença crônica e se veste frequentemente de branco, fluindo pelo palco como uma boneca vitoriana. Haven Hamilton (Henry Gibson) é o veterano caipira e patriota da cena, um artista de platina com uma série de músicas odiosamente sentimentais sobre os EUA (“Devemos estar fazendo alguma coisa direita / Para durar 200 anos”). Depois há Keith Carradine como Tom Frank, que faz parte de um trio popular no lado mais boêmio do Country. E embora seu grupo se defina como ostensivamente da contracultura, eles provam ser tão rasos quanto o resto. Enquanto isso, Albuquerque (Barbara Harris) e a memorável cantora Sueleen (Gwen Welles) estão perseguindo desesperadamente o estrelato, mesmo estando claramente mal equipadas para isso.

Esses e outros personagens, como um empresário irrequieto, um cowboy em seu triciclo, fãs em delírio vão cruzar seus destinos, espetaculares, engraçados, trágicos até culminar com a cena do assassinato de uma cantora por um atirador solitário.

Em meio aos bons e velhos conservadores, caipiras e evangélicos norte-americanos, Altman oferece uma visão inabalável de um país que tinha acabado de passar pelo auge do escândalo Watergate, no qual um presidente, que havia vencido por um deslizamento de terra na última eleição, foi revelado como um bandido.

No mundo de Nashville, as regras do jogo, seja na música ou na política, são as mesmas: vemos a ignorância alegre de um grupo de pessoas que são em grande parte expostas como rasas e moralmente pequenas, por posição e poder, e uso de sentimentos e valores familiares cuidadosos para vender coisas a um público disposto. É engraçado ver como a ligação de Nashville da cultura das celebridades com a politicagem alçaria em menos de uma década, o cowboy estrela de cinema Ronald Reagan presidente.

Mas, embora muitos dos personagens de Altman sejam alvos de sátiras estranhamente engraçadas – especialmente a insuportável jornalista britânica interpretada por Geraldine Chaplin – há generosidade lá também. De um mundo presa da loucura da mídia e obcecado pelas relações de sexo, dinheiro e poder( as três libidos fundamentais da sociedade norte-americana), surge uma grande ternura, uma saudade dea comunicação verdadeira, que se encarna em algumas personagens. Como Delbert Reese (Ned Beatty), um advogado que é um dos ativistas locais de Walker, em um momento de silêncio enquanto ele frita ovos, suspeitando que sua esposa está tendo um caso; a mulher infiel, interpretada por Lily Tomlin, se revela uma dona de casa triste e gentil com os dois filhos surdos que ela adotou. A comunidade de Nashville pode não ter adorado a representação aguda de Altman sobre eles, mas ele nunca foi um cineasta que negou a inexorável e básica humanidade de seus personagens solitários e perdidos.

Altman faz com que cada detalhe específico, o incidental e o íntimo pareçam profundos. Nashville transcende seu ambiente, mesmo quando o captura tão de perto; conta uma história sobre o amargo caminho final da aspiração, a inutilidade das celebridades e a estupidez flagrante de um sistema político que cada vez mais se assemelha à mesma cultura de celebridades.

Quando a violência subjacente desse sistema aparece, com o terrorista abrindo fogo no show de arrecadação de fundos de Walker, e atirando em uma cantora inocente no palco na frente de uma plateia, o insólito quebra a convenção dos gêneros, e um filme que parecia oscilar entre o musical e a sátira, ganha ares de tragédia  O cinema e os assassinatos políticos tornaram-se curiosamente entrelaçados nos anos 1970 e início dos anos 1980, desde filmes que inspiraram tentativas de assassinato (Taxi Driver/ 1975) até assassinatos que inspiraram filmes (A Trama/ 1974).

Na conclusão indelével do filme, Barbara Harris fornece uma interpretação assombrosa e cheia de alma de uma canção, It Don’t Worry Me, para acalmar o público caótico depois que Barbara Jean é levada às pressas para o hospital e o atirador é preso. Todos, palco e público, se juntam em um hino de tranquilidade e repetição que parece confortar os observadores chocados com o atentado. A câmera do cineasta Paul Lohmann pula entre indivíduos, a maioria brancos e bem alimentados – um público da vida real servindo como figurantes de uma história que não deixa espaço algum para os negros..

Com o sentimentalismo profundo de suas canções e o cabelo laqueado de suas estrelas, Nashville foi um filme perfeitamente reflexivo de seu tempo e lugar. Em meados da década de 1970, houve um ressurgimento bem estabelecido da música country nos EUA. O gênero falou com a tradição e a velha escola americana; era a maneira do coração branco fingir que turbulência social, protestos anti-guerra e corrupção presidencial estavam longe de sua própria realidade. Com pouquíssimas exceções – Kris Kristofferson, entre eles – os artistas country da época ofereceram uma visão míope de sua nação voltada para a chamada “maioria silenciosa” de Nixon – o termo que o presidente cunhou em 1969 para se referir aos americanos que o apoiavam.

Os versos fáceis de It Don’t Worry Me são uma ode cativante à ignorância alegre, afinal: “Você pode dizer que eu não sou livre / Mas isso não me preocupa”. Altman e Tewksbury fazem bem em nos lembrar que poucas pessoas entre os espectadores tendem a abraçar uma realidade política complicada. Para Altman, o emblema do verdadeiro orgulho nacional é a alienação. Nashville atinge o coração da vida americana, à sua pomposidade, e permanente negação contra as rachaduras do american way of life. Diante de uma temporada política conturbada, é desnecessário detalhar o quanto a alegoria deste filme de 1975, traduz a atualidade, seja nos EUA de Trump ou no Brasil daquele que me recuso a citar o nome.

Clique aqui pra você saber em que canais de streaming Nashville está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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