Faroeste

Relatos do Mundo

Avaliação: 3.5 de 5.

News of the World (2020)

Hoje para ficar ligado nas novidades dos jornais, se é que a gente pode usar essa palavra tão antiquada (jornal), basta usar um aplicativo de celular e você tem uma seleção completa de notícias. Mas se você morasse no Texas em 1870, bastava pagar dez centavos para Tom Hanks selecionar as melhores manchetes e ler em voz alta pra você. Parece um negócio empolgante, não?

Em Relatos do Mundo, o diretor Paul Greengrass aposta que sim.

Esse faroeste é uma das atrações imperdíveis essa semana na Netflix, sobretudo pelo grande cineasta que Greengrass é, e não por Tom Hanks. O diretor britânico demonstrou por 20 anos um senso de observação sócio-político aguçado e um instinto visual forte em filmes como Domingo Sangrento (2002), Vôo United 93 (2006) e Capitão Philips (2013) e, principalmente esculpiu um nicho para si mesmo com um estilo de cinema com imersão na verdade que deu substância até mesmo a filmes de ação (os três filmes que dirigiu para a franquia Jason Bourne).

Logo, as expectativas por Greengrass investir no western dava pinta de que ele estava chegando para trazer uma nova reformulação ao gênero.
A notícia ruim é que ele não chegou nem perto. Vasculho aqui na memória e chego a conclusão que o último que se aprofundou bem no gênero foi o Andrew Dominik, com O Assassinato de Jesse James. Gosto também da Kelly Reichardt, só que não pelo First Cow, que muita gente considerou um dos melhores filmes do ano passado, e que pra mim não desce, mas por O Atalho, esse sim um olhar feminino e feminista visceral que embaralha nosso entendimento do que é um western. E, é claro, Tarantino trouxe duas propostas diferentes com Django Livre e Os Oito Odiados.

Perto desses, o projeto de Greengrass parece num patamar abaixo, mas se comparamos com os filmes exibidos no Netflix, Relatos do Mundo sobe vários degraus acima. O filme pode não se realizar em tudo, mas Greengrass faz um filme inteligente, cheio de ideias e abre para nós o mundo num cinemascope, cortesia do fotógrafo Dariusz Wolski (um colaborador regular com Ridley Scott) de imagens suntuosas das vastas paisagens capturadas em locações no Novo México (algo que soa como um colírio para nós, reclusos pela pandemia há um ano).

A primeira parte discorre de forma quase meditativa. Hanks interpreta o Capitão Jefferson Kidd, um veterano da Guerra Civil que vive como um agregador de notícias analógico. Kidd, que lutou ao lado dos confederados, viaja de um lugar para outro, vendendo uma mistura de diversão e informação. Ele promete intrigas para distrair o povo de seus próprios problemas, mas o público, assim como muitos espectadores de canais de streaming, só reagimos, quando entre suas escolhas ele inclui relatos sobre um surto de meningite, um incêndio em uma mina de carvão e um acidente de balsa.

Existe um amor de Greengrass, antes um diretor de documentários da BBC, pela observação jornalística do mundo, e aqui talvez seja a isso que ele quis prestar seu tributo. Ele se atém, sem pressa, buscando revelar os meandros do que seria viver nos dias e nas noites quentes do Velho Oeste. Então vemos que, no Texas de 1870, um estado de hostilidade persiste apesar da Guerra ter acabado há cinco anos. Soldados da União patrulham as cidades e estradas, lembrando o tempo todo que os cidadãos são perdedores e abusando das tentativas de cordialidade. Kidd tropeça nas consequências de um linchamento e ouve relatos frequentes de violência contra índios e mexicanos. Fala-se bastante em Relatos do Mundo, mas é interessante que os confrontos, duelos, tiroteios, quando Kidd chega, já aconteceram.

O filme fica cada vez melhor à medida que se desenvolve, vale apenas a ressalva: talvez fosse mais intrigante se o cineasta começasse por escolher outro ator para protagonista, alguém mais ambíguo como Viggo Mortensen ou mais casca grossa, como Sean Penn. Como temos Tom Hanks em cena, bondade é a nota dominante.

E não temos dúvida, que Kidd servirá como um pai, quando encontra uma criança (Helena Zengel) desorientada debaixo dos pés de um cowboy enforcado. A menina parece alemã, mas ela fala em dialeto Kiowa. Kidd encontra documentos com o morto que revelam, que Johanna, a menina, foi sequestrada pelos índios e viveu entre eles por seis anos.

Como vimos em Rastros de Ódio, a obra-prima de John Ford, as implicações de viver muito tempo com o inimigo não são bem aceitas para os que estão do lado de cá, principalmente quando a vítima regressa e tenta se integrar a sociedade. Os desdobramentos são cruéis.

Há uma sequência de arrepiar, onde Johanna avista do outro lado de um canyon, a marcha dos Kiowas vencidos, rumando possivelmente para uma reserva indígena, e um abismo na frente da menina a impede de seguir com eles. Desesperada, ela grita na língua indígena para eles virem buscá-las, mas a tribo continua numa marcha inexorável, sem se voltar para trás, como se fossem fantasmas abandonando a paisagem.

Outra cena memorável ocorre quando Kidd e Johanna são perseguidos por alguns fora-da-lei ao longo de uma cordilheira traiçoeira, e o tiroteio que se segue tem a classe de mestre de Greengrass, com um estilo apertado e repleto de suspense.

Mas o diretor parece encontrar o que seu cinema tem de inquietante, no trecho em que Kidd chega a uma cidade dirigida por um certo Sr. Farley (Thomas Francis Murphy). O sujeito, que supervisiona um estado inteiro, organizou seu povo para expulsar nativos americanos e pessoas negras da cidade, e ele é autor de um jornal local que canta seus próprios louvores. Farley pede que Kidd leia seu jornal para o povo, mas Kidd percebe que o político quer usá-lo como instrumento para sua reeleição. Com uma oratória hábil, Kidd faz um engrandecimento tão artificial do sujeito, que a imagem de político sério se quebra. Claro que, Greengrass com esta subtrama está sinalizando mais para o estado sociopolítico das manchetes atuais (o trumpismo, sobretudo) do que sobre o Velho Oeste. Afinal, quando você controla informações com propaganda, você controla as pessoas. Mas dê às pessoas uma escolha para aprender, e você perde o controle sobre elas.

É um pequeno interlúdio que pousa no meio do filme, mas parece a sequência que atraiu o cineasta para o material.

Outros prazeres incluem a relação entre Hanks e Zengel, uma jovem atriz impressionantemente que recusa todas as tentações de fofura. A dupla de atores exagera na simpatia que se desenvolve entre Kidd e Johanna, e o filme é terno sem cair para o sentimentalismo.

Há um debate ressonante entre o Capitão Kidd e Johanna no centro de tudo, questionando se uma pessoa deve progredir em linha reta (como os personagens de faroestes invariavelmente fazem, impulsionados pelo Destino Manifesto) ou adotar uma visão mais holística sobre o mundo (como os Kiowas preferem). Em última análise, nossos heróis não podem crescer apenas olhando para frente; eles se curam confrontando a violência e a tragédia de seus passados.

Dado o tempo e o lugar do filme, suas lições se estendem à necessidade da América de se curar após a Guerra Civil. Mas é claro que essa observação se estende ao presente, e à guerra cultural dos últimos quatro anos, que, de certa maneira, foi definida por uma vontade, ou falta dela, de reconhecer os pecados passados e presentes da América. Esse é um comentário digno selado por uma entrada singela e bastante simples.

Um programa digno e um muito acima da média dos filmes de serial killers, traficantes, e comediantes careteiros ofertados pela Netflix.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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