Drama Faroeste

O Preço do Triunfo

Avaliação: 5 de 5.

Nybyggarna (1972)

Nem só de Bergman vive a Suécia. No começo da década de 70, o cineasta Jan Troell dirigiu um épico monumental chamado Os Emigrantes, baseado em quatro romances de Vilhelm Moberg, que é um dos maiores filmes da história do cinema. Troell dividiu o filme em duas partes, sendo que a segunda, o preço do Triunfo, é um dos meus filmes de cabeceira. Em Os Emigrantes , vimos por que um grupo de suecos em meados do século XIX deixou suas terras e, na América, Karl Oskar (Max von Sydow) encontrou a rica terra que procurava e descansou sob uma árvore. 

Em O Preço do Triunfo, ele traz sua esposa, Kristina (Liv Ullmann), e família para o local que ele escolheu, e começa a construir uma casa na fazenda. Os Emigrantes teve aquele grande impulso para o novo país, mas sabíamos que o filme ia se concluir com o fim da travessia. 

O Preço do Triunfo é mais aberto a possibilidades. A começar pelo fato de que você pode vê-lo também como um western. Um western inovador. Os que viram em First Cow, de Kelly Reichardt o máximo em delicadeza para entretecer uma crônica original sobre o Velho Oeste, vão se assombrar com o patamar que Jan Troell alcança neste filme de 1972.

Nós nos encontramos novamente com todos os sobreviventes daquela viagem oceânica e, gradualmente, obtemos as respostas às nossas perguntas sobre se eles estão encontrando o que esperavam. 

Para Karl Oskar, a resposta é sim; para Ulrika (Monica Zetterlund), uma “mulher de vida fácil” na Suécia, sim, também. Mas, para Kristina, a resposta é mista; ela nunca teria emigrado sozinha e ela sente falta do que deixou para trás mais do que ousa admitir. E para o irmão mais novo de Karl Oskar, o sonhador Robert (Eddie Axberg), cuja adolescência foi destruída por trabalho forçado, a resposta é não. Se há algo faltando neste filme, é uma noção do que os filhos de Karl Oskar e Kristina carregam do passado de seus pais na Suécia.  Somos informados de que eles estão esquecendo a própria língua, o sueco, mas esse tema não é desenvolvido. No entanto, vemos a descoberta do que se tornará parte de sua herança como americanos: que as terras que Karl Oskar comprou do governo dos Estados Unidos eram roubadas.

Não há piedade com o destino da família. Nem romantização. Karl Oskar, o protagonista, é um homem prático e nada heróico e Kristina demonstra uma estreiteza de visão, raro de se ver em cinema. Mas como ser-humano, ela tem uma beleza especial – uma timidez e uma consciência de suas limitações que a torna adorável. 

Talvez por causa do amplo alcance da história e da forma como os personagens são vistos em termos de forças naturais, O Preço do Triunfo muitas vezes lembra o trabalho dos mestres do cinema mudo. Também aqui tudo parece estar na tela pela primeira vez. 

Embora Jan Troell domine o vocabulário moderno das técnicas cinematográficas, ele não é afetado pelos vícios dos filmes comerciais: todas aquelas milhares de formas de ênfase telegráfica, a maioria delas herdadas da publicidade e do teatro. Troell, que além da direção, assina também a fotografia e a edição do filme, mostra sua dívida com a história do cinema em apenas uma seção (um contraste efetivo), quando usa uma abreviatura estilizada para as lembranças febris de Robert de suas experiências no Oeste em busca de ouro: um sonho de terror latejando em seus ouvidos.

Há outros momentos incríveis no filme. Como a cena em que Kristina, psicologicamente afetada pelos tambores dos Siouxs da tribo que fica do outro lado do lago, entra em pânico quando dois índios invasores entram na sua casa para comer e roubar uma arma. Ela acaba acuada com os filhos próximo da lareira e a cena provoca uma crescente aflição, até descobrimos se tratar apenas de uma alucinação de Kristina.

Outro grande evento: uma perseguição dos bravos Siouxs pela floresta, com Robert correndo em disparada para não ser atingido por uma chuva de flechas, também se revela um mal entendido.

Os estereótipos dos westerns, a figura do pistoleiro, do cowboy e dos índios, estão no imaginário dos pioneiros. Mas será apenas uma vez que eles realmente farão contato com essas criaturas fantasmagóricas, num sanguinário confronto.

Troell evita se ater muito a barbárie do Velho Oeste. Ele prefere enfatizar o trabalho árduo de conquista da terra, a luta contra o frio e a fome, sem os truques medonhos que barateiam a maioria dos filmes épicos. É delicado até quando mostra Kristina limpando o traseiro do bebê com um punhado de grama e se desculpa para o pastor enquanto limpa as mãos sujas em algumas folhas. 

Liv Ullmann, aliás, pálida e frágil, intensa e determinada, tem a interpretação com um alcance que nunca vimos no universo de gelo quente de Ingmar Bergman. 

Troell é um mestre de cinema e não há nada de prosaico na forma como ele trata seus personagens e presta sua homenagem ao coletivo de pioneiros que deixaram seu país para uma aposta arriscada numa Terra Nova.

O Preço do Triunfo, desde as suas primeiras imagens, é tão abundante de expressividade e sinceridade que é difícil, quando o descobrimos, não experimentar o sentimento de que se vê um dos mais belos filmes do mundo.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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