Comédia Drama

Druk – Mais Uma Rodada

Avaliação: 4.5 de 5.

Tá aí um filme que desperta a vontade de ser visto e revisto já no dia seguinte. Druk – Mais Uma Rodada tem o espírito de armação entre amigos, no instante que se encontram, desprendidos de qualquer pudor, numa mesa de bar e falando sobre tudo, afinal nada é pequeno para uma conversa entre verdadeiros amigos. Existe a bebida em cima da mesa? Muitas garrafas, mas esse não é o ponto essencial. Há quanto tempo você, leitor, não arma uma rodada de conversas destas, hein?

Eu também coço a cabeça e me incluo nesse barco.

Mas certas coisas só são perfeitas porque não perduram. Elas ficam na nossa imaginação, provocam saudades e a gente quer repeti-las, e não consegue. Gostaria, mas não da mesma forma. Druk, Mais Uma Rodada também é maravilhoso por esse olhar inevitavelmente sentimental.

Thomas Vinterberg captura outros anseios, inclusive subversivos, e é neste ponto que ele conquista toda minha simpatia. Todo mundo lembra de Vinterberg por A Caça (2012), o  filme sobre aquele professor (Mads Mikkelsen) injustamente acusado de pedófilo que tem sua vida cancelada por toda comunidade e não consegue reparar as impressões mesmo depois de provar sua inocência. Qualquer descrição é insuficiente para dar conta da força com que o homem é jogado pra baixo e de como os envolvidos em prejudicá-lo somem do mapa quando se configura a verdade.

Se tivesse feito só esse filme, Vinterberg já merecia destaque nas enciclopédias de cinema, mas ele também dirigiu o excepcional Festen – Festa de Família (1998), um nocaute contra a tradicional clã burguesa. Em cena, tínhamos o patriarca de família empreendedora fazendo 60 anos e chamando toda a prole para um almoço. Ele só não contava com o show do filho, que aparece pra tirar os esqueletos de todo mundo do armário. A força radical de Festen, ia muito além do mero conteúdo, o filme era o marco inaugural  de um movimento cinematográfico, que deu muito que falar nos anos 90, o Dogma 95.

Não vejo como mera coincidência, o fato de que o Dogma foi tramado por um quarteto de cineastas durante muitas rodadas de bebidas na mesa de um restaurante, exatamente como em Druk – Mais Uma Rodada. A diferença é que saem de cena os cineastas para entrarem professores. E estes professores também tem um plano para pôr em prática. Os amigos discutem a teoria (claramente incorreta) do psiquiatra norueguês Finn Skarderud de que todos os humanos nascem com uma escassez de 0,05% de àlcool no corpo.

Aterrado pelas frustrações diárias de suas realidades, o quarteto está desesperado o suficiente para tentar aumentar o próprio teor etílico no sangue, na esperança de readquirir a confiança cotidiana. E então, decidem realizar o experimento: cada um deles beberá durante o dia de trabalho e monitorará se o aditivo resulta em maior desempenho social e profissional. A premissa de Druk – Mais uma Rodada é absurda, para dizer o mínimo, mas os atores a vendem totalmente, imbuindo seus personagens com uma sinceridade calorosa que descongela a descrença.

O filme se preocupa principalmente com Martin (Mads Mikkelsen), o professor de história auto-piedoso cuja alegria do passado se enrugou e se perdeu. Ele não consegue comandar o respeito que uma vez teve: pela esposa, que agora o está traindo, pelo filhos que o acham um chato, e pelos alunos que, em massa, fazem campanha junta a diretoria da escola para substituí- lo. Mikkelsen – que está concorrendo ao Oscar de melhor Ator pelo papel – está fascinante aqui, escavando o desânimo internalizado de Martin. Cada gesto é pesado por uma letargia que comunica a total perda por qualquer encanto da vida.

Mas uma sequência de tragos basta para se operar a transformação. O efeito é surpreendente, de sujeito cabisbaixo, numerando tarefas com a voz monocórdica, Martin passa a um entusiasta pelo conhecimento, propondo debates animados com os alunos. Bem-humorados com esse choque de vitalidade, os adolescentes respondem à energia repentina de seu professor como se ele fosse Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos, aplaudindo o sujeito pelas suas lições recém-envolventes.

Druk – Mais uma Rodada entende como é divertido ver Martin e seus colegas grisalhos se atrapalharem durante o dia da escola, e documenta suas travessuras com uma ternura permissiva. Arrastados do piloto automático, os homens se soltaram e se divertem pela primeira vez em anos, recém-despertados para as possibilidades da vida. Embora os professores meçam rotineiramente seus níveis de intoxicação em testes pessoais de bafômetro – cujos resultados Vinterberg registra com cortes em números subindo na tela – chega um ponto em que a linha entre usar e abusar do álcool diminui e a brincadeira começa a ficar muito séria.

O tratamento do cineasta à inevitável queda de seus personagens é notavelmente leve, mas ele não poupa o espectador da ressaca, provando que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo.

A mudança tonal para a seriedade é habilmente gerenciada, e de uma hora pra outra, as risadas passam a ser incomodas, até o instante que não dá pra achar divertida uma combinação de náusea, azia, tontura e dor de cabeça. Eles percebem que estão no inferno, e descobrem o quanto é complicado o desafio de voltar inteiro.

O título original em dinamarquês literalmente se traduz como “bebedeira”, um fenômeno que, ao contrário da crença popular, é desproporcionalmente praticado entre homens de meia-idade. A exasperada esposa de Martin, Anika (Maria Bonnevie), reclama: “Este país inteiro bebe como maníacos”. Mas o consumo excessivo de bebidas alcoólicas não é um problema só da Dinamarca: afeta todo o Ocidente. Druk – Mais uma Rodada ganha um sentido mais abrangente, político, inclusive, quando numa hábil montagem, Vinterberg insere no meio do drama, cenas de líderes mundiais do passado e presente – Boris Johnson, Angela Merkel, Nicolas Sarkozy, Bill Clinton etc. – claramente embriagados em diferentes reuniões internacionais, rindo tolamente nas cúpulas do G8 ou gaguejando através de discursos na Casa Branca.

Ao apontar que nossos governantes eleitos bebem no trabalho, Vinterberg adiciona credibilidade à sua farsa e demonstra até que ponto, para melhor ou pior, o álcool é uma pedra angular de nossa cultura.

Talvez seja nessa concentração do material humano, nas suas incoerências e seus impulsos, que o estilo cinematográfico de Vintenberg se revela. Concentrar boa parte dos planos nos olhares dos atores não é algo novo no cinema, mas é na atenção dada ao olhar de Mads Mikkelsen, na maneira com que ele segue os acontecimentos, mantendo-se alerta a todos os detalhes previstos e imprevistos, que Vintenberg se revela um grande cineasta.

Mas não é só pela integridade com que relata os sentimentos vacilantes dos seus personagens, pela capacidade de detectar o reflexo da força ou da dúvida nos olhares de seus atores, que o filme enfim, se reafirma. Temos um outro ponto aqui, que talvez seja pronunciado em Vinterberg como amadurecimento de sua visão. Pois nem sempre as coisas certeiras, as que fazem doer, estão em roteiros ou palavras, mas muitas vezes estão embutidas no histórico de quem as armou. Com Druk, Vinterberg está fazendo um balanço de sua carreira e das parcerias que ficaram para trás. Paira a pergunta no ar: Para onde rumou a vitalidade daqueles quatro amigos cineastas do Dogma, 25 anos depois do triunfo? Kristian Levring tentou de tudo, fez até um faroeste na Dinamarca (A Salvação, que aliás, é bem bom), mas não filma nada desde 2014. Søren Kragh-Jacobsen deixou o cinema para filma seriados para a TV dinamarquesa. E Lars Von Trier, o mais famoso deles afundou na bebida, se perdeu em seus propósitos cinematográficos, e anda recluso. A sorte de Vinterberg é que a produtora de Von Trier, a Zentropa, continua funcionando, porque foi a própria que financiou Druk – Mais Uma Rodada.

O talento de Vinterberg não reside em buscar temas maiores e mais ambiciosos, como os que aumentaram a reputação de Von Trier, mas em buscar a grandeza em temas menores, sem se preocupar em projetar todas as implicações, mas em querer fazê-lo, pela visão de mundo que ele tem, pelo amor ele tem pelas pessoas que o rodeiam e pela forma como decanta essas aspirações na sua arte. Por conta disso, esse parece ser o filme mais pessoal de Vinterberg. Sua carta de amor para os amigos.

Druk – Mais Uma Rodada já está disponível para compra e aluguel, no NOW, iTunes/Apple TV, Google Play e YouTube Filmes, e a partir do dia 8 de abril, entra na programação também da Vivo Play e Sky Play.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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