Documentário Nacional

Cine Marrocos (2018)

Avaliação: 5 de 5.

Esse belíssimo documentário de Ricardo Calil foi finalizado em 2018, mas só conseguiu circuito para estrear no Brasil na última semana. É um dos maiores filmes do cinema nacional dos últimos anos. Calil, que nos deu os ótimos “Narciso em Férias”, “Uma Noite em 67” e que venceu o último É Tudo Verdade, com “Os Arrependidos”, vem se revelando um de nossos melhores cineastas. Nesse “Cine Marrocos” ele espreme o sumo ácido da divina decadência dos cinemas de rua para nos mostrar uma São Paulo que desapareceu e outra de extrema desigualdade social que surgiu na virada do milênio.

A São Paulo de outrora era aquela dominado pelas saraus cinematográficas em templos cinematográficos com quase 2 mil lugares, e onde era vetada a entrada de homens sem gravata. Nos anos 50, o mais luxuoso da capital era o Cine Marrocos, um monumento com decoração inspirada nas Mil e Uma Noites  que funcionava na rua Conselheiro Crispiniano, 344, a poucos metros do Theatro Municipal. Símbolo da pujança econômica, o cinema era voltado para a high society que frequentava o centro. E em seu auge (1954), o opulento Marrocos foi sede do I Festival Internacional de Cinema do Brasil, evento que trouxe grandes estrelas hollywoodianas (Errol Flynn, Edward G. Robinson, Joan Fontaine, Fred McMurray) e nomes lendários do cinema europeu (o cineasta austríaco Eric Von Stroheim, o francês Abel Gance, o papa da crítica André Bazin e o mítico fundador da Cinemateca Francesa, Henri Langlois).

Mas essa direção de arte elaborada despenca na São Paulo do presente. Os cinemas de ruas viraram Igreja ou se tornaram ruínas. E um excelente símbolo das disparidades econômicas e sociais não apenas da cidade, mas do país, são perfeitamente ilustradas quando o cinema de glórias passadas, torna-se em 2013, a segunda maior ocupação de moradores de sem tetos do Centro de São Paulo.

Calil começa seu filme intercalando imagens dessas duas eras num mesmo prédio. O tempo passado, vendendo glamour, com o desfile de personalidades internacionais numa sessão de gala, em contraste com o triste presente de um cinema em escombros, habitado por 423 famílias pobres, perdidas e deserdadas (entre brasileiros e imigrantes haitianos, angolanos, nigerianos, congoleses). Desse entrecho, nove entre dez documentaristas passariam a investigar o cotidiano dos Sem Tetos de forma naturalista, mas Calil segue um caminho lúdico. Ele propõe uma oficina de atuação (com ajuda dos professores atores, Ivo Muller e Georgina Castro), para os moradores do Marrocos reencenando, com essa trupe, trechos de alguns clássicos do cinema  que foram exibidos no passado.

Assim seu projeto se firma como um estudo de possibilidades de olhar. O olhar sob uma perspectiva de como as coisas são, o olhar sob a perspectiva de como elas poderiam ser reimaginadas.

E a partir dessa Oficina, o cineasta mergulha no dia-a-dia dessas pessoas, particularizando o drama de cada um dos moradores.  Como a caboverdiana Dulce Tavares, o congolês Júnior Panda Badibanga, o camaronês Koutou Yamaia e os brasileiros Fagner Oliveira, a ex-bailarina  Volusia Gama e Valter Machado – um diretor de teatro que por conta da crise virou Sem Teto. Como Valter, todos eles  são pessoas talentosas, cheias de vida e sonhos, mas possuem uma trajetória infeliz, que os levou à condição de precariedade.

Há um constante desalento, uma incômoda impotência, desemprego, ausência de sentido e saudade, muita saudade. Saudade de um ente querido que morreu. Saudade de uma paixão súbita por alguém que partiu. Saudade de uma vida menos árdua na luta pela sobrevivência. Saudade de uma humanidade que se perdeu no mundo individualista em que vivemos.

Nos ensaios da oficina, Calil reserva um tempo preciso para registrar os exercícios de um conjunto que não se acomoda em papéis únicos. São homens e mulheres extremamente empenhados na busca de olhares, de gestos e de um equilíbrio do corpo. Sente-se também uma certa urgência do grupo, um certo desespero, de querer mostrar algo de importante, de significante, como se há qualquer momento, qualquer plano ou projeto não pudesse ser finalizado.

Numa ocupação, a vida é provisória, as pessoas podem perder seu teto a qualquer momento. Isso é fato. A prefeitura de São Paulo tentou diversas vezes a reintegração de posse do imóvel, e realmente, eles foram despejados do cinema em 15 de outubro de 2016.

No filme todo torcemos para que a trupe consiga embarcar nessa experiência de compor um personagem e remontar a cena de um filme, sabendo que as artimanhas da vida podem pregar-lhes uma peça. Alguns esboços, é claro, vão ganhando corpo. É magnífico ver o diálogo entre a cena original de um “Noites de Circo” e com que intensidade o trecho é recriado com os Sem Tetos. Impressiona igualmente a versão do famoso monólogo do filme “Júlio Cesar”, interpretado no original por Marlon Brando, virar um rap na voz do camaronês Koutou Yamaia, ou presenciar (não existe palavra melhor para descrever) a comovente interpretação da ex-bailarina Volusia Gama, refazendo os passos de Gloria Swanson descendo as escadas para seu close final em “Crepúsculo dos Deuses”.

Não cabe aqui dar spoilers, mais importante do que descobrir se o diretor e sua trupe concluíram o filme como planejado, é sentir a força transcendente que o trabalho desenvolvido em equipe proporcionou, porque para eles, a paixão da entrega possui méritos que são intocáveis pelo mundo exterior. A intensidade da incompletude de um desejo é esmagadora. Passa através de todos os obstáculos, e é mais poderosa que qualquer poder ou jogo de interesses. Ainda que o Centro de São Paulo continue a ser um espaço imobiliário muito disputado por empresários e a política pública continue falhando com milhares de famílias que não tem um teto pra morar, a esperança dessa multidão de desassistidos não se apaga.

“Cine Marrocos” está em exibição no Espaço Itaú de Cinema – Augusta e no Espaço Itaú – Frei Caneca.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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