Musicais

Em Um Bairro de Nova York (2021)

Avaliação: 3.5 de 5.

Nos EUA esse filme está sendo saudado como um dia de sol após quase ano e meio de reclusão, sombras e mortes provocadas por todo mundo sabe o quê. O momento lá é outro. Com a vacinação em massa, as pessoas nem estão mais usando máscara, mas aqui… com todas as decisões, tensões, uso de máscaras, saques, tumultos, ódio político, e iminente colapso econômico, estou curioso para ver como o espectador brasileiro, que terá que levar viseira e o litrão de álcool para os cinemas, irá lidar com o bom humor e a celebração que esse “Em um Bairro em Nova York” (In the Heights) nos convida.

Alguns, com certeza, verão o filme como piada de mau gosto, outros talvez se permitam se divertir pelo profissionalismo do conjunto, os números musicais muito bem feitos, a atuação inspirada do elenco, e haverá um terceiro grupo que irá embarcar sem culpa de ser chamado de alienado, afinal, o filme é um tributo ao escapismo, traz, na essência,  a tradição de “Um Dia em Nova York” (de 1949), e “A Roda da Fortuna” (de 1953), dois clássicos que explicam como Hollywood enriqueceu vendendo ilusões.  Especulo que a porcentagem da preponderância de gosto irá depender. Nos EUA, o terceiro grupo parece que foi a maioria. No Brasil, vamos ver.

Em cena, estamos num bairro de periferia com três grupos de latinos – cubanos, dominicanos e porto riquenhos – aglomerados  num quarteirão de Washington Heights, e a turma toda é muito fofa. Os rapazes são vitaminados, atléticos e exibem um sorriso largo. As mocinhas comportam-se como princesas dos desenhos da Disney.  As crianças passam o dia pulando amarelinha e os velhos são figuras sábias e serenas. Estamos, é óbvio, num mundo idealizado. E talvez, a chave do sucesso de Lin-Manuel Miranda, que escreveu a peça e as letras das músicas primeiro para a Broadway, seja brincar com esse excesso de idealização, a começar como ele explica a origem do nome do simpático protagonista Usnavy (Anthony Ramos). Ele é assim chamado porque seu pai, chegando da República Dominicana, viu uma fragata de guerra pintado com as iniciais US NAVY, e resolveu batizar o filho com o que acreditava ser o nome do navio.

Usnavy conta toda a história cercada de um grupo de crianças debaixo de uma choupana numa praia paradisíaca que parece ser sua República Dominicana nativa. Ele conquistou seu sonho de montar o bar El Sueñito, à beira mar, mas não consegue esquecer dos amigos  de Nova York. Em seu passado, ele trabalhava dando um duro como gerente de um mercadinho, servindo café com leite para seus clientes e mantendo seu primo adolescente Sonny (Gregory Diaz IV) longe do pai traficante de drogas.

O simpático Usnavy também era amigo de Nina (Leslie Grace),”a esperta que conseguiu sair”, foi para a universidade, mas voltou para casa por sofrer bulling pesado da turma de brancos da faculdade, e era apaixonado pela pedicure do salão, Vanessa (Melissa Barrera), uma sonhadora como ele, que desenhava vestidos originais e alimentava o desejo de se tornar uma estilista. Esse é o subtexto de “Em Um Bairro de Nova York “, sonhos. Faz parte dos anseios de todos os moradores cubanos, dominicanos e porto-riquenhos de Washington Heights. Do proprietário do serviço de carros Kevin Rosario (Jimmy Smits), ao esperto vendedor de raspadinhas (Lin-Manuel Miranda); da cabeleireira Daniela (Daphne Rubin-Veja) ao motorista/despachante  Benny (Corey Hawkins).  Sem contar Peter, o grafiteiro (Noah Catala), que está sempre armando, com seus sprays de tinta, uma direção de arte em volta dos amigos, para tornar a vida dos amigos menos feia.

Nesse carrossel de ilusões há um personagem muito importante. Uma velha senhora cubana que todo mundo chama Abuela (avó) Cláudia (Olga Merediz).  Ela mantém o grupo unido, quase como uma família, com sua sabedoria. “Trabalhe sempre nos detalhes”, avisa a Abuela, “é na beleza de uma pequena flor de bordado, que deixamos de ser invisíveis”. Ou seu conselho mais persistente: “Tenha paciência e fé”.

Eles precisarão disso para superar o que nosso contador de histórias, Usnavy avisa, será o grande teste do lugar – um apagão que vai deixar o bairro a noite inteira no escuro.

Não vou mentir. Depois de 20 minutos, me peguei rindo, me divertindo com os excessos de alegria e cativado pelo calor humano da Abuela Cláudia. Sem querer, o filme me levou a pensar até naquela máxima de Nietszche, que adverte para você não olhar muito pro abismo, por que caso você se atenha demoradamente, o abismo olha de volta pra você.

Vendo o filme me permiti por duas horas, abandonar o abismo. No fundo, “Em Um Bairro de Nova York” é um “Faça a Coisa Certa”  com Dança e sem todo aquele conflito que Spike Lee adverte que existe nos bairros da periferia norte-americana. E é isso mesmo, não há nem cheiro de policiais nos quarteirões latinos de Washington Heights, e a galera em cena é tão gente boa, que não há mesmo espaço pra colocar a chatice cotidiana. Acredito que a sorte de Lin-Manuel Miranda foi ter encontrado um diretor que remove habilmente a origem teatral do espetáculo. Jon Chu é o cara que já vinha tentando mostrar em dois títulos (Ela dança, Eu danço 2 e 3) que filme de lambada também traz arte. Neste caso, a encomenda deu samba. Ou melhor, deu salsa, merengue e hip hop.

Chu aqui teve todo o dinheiro do mundo para dar asas à imaginação. Ele compõe números de dança com fantasia lírica, como a sequência em que Benny e Nina desafiam a gravidade dançando ao lado de um edifício como se os dois fossem o Homem Aranha. Ou um número mais gravitacional e ambicioso, o trecho em que todos se amontoam em um piscinão para desenvolver uma geométrica coreografia (no melhor estilo dos mosaicos humanos de Busby Berkeley), tudo porque alguém comprou um bilhete de loteria vencedor na bodega. Quem ganhou o bilhete? Ah, quem se importa com isso?

O negócio é se esbaldar. Sair para as ruas e dançar e cantar, mesmo que seja só dentro da mente.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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