Entrevista

Diário de Produção:  “Meninas” – Parte 2

Dando sequência a apresentação do elenco do filme “Meninas”, conversamos com a atriz Inês Fabiana:

Hamilton Rosa Júnior – Muita gente passou a fazer terapia por conta da pandemia, Inês. Você que é psicóloga trabalhou muito nesse período?

Inês Fabiana – Num primeiro momento, eu cancelei todas as consultas, porque achava que não teria sentido fazer Online. Mas depois, percebi que a necessidade das pessoas de serem ouvidas se tornou tão vital, que eu tinha que me adaptar. Claro, meus pacientes queriam consultas presenciais, queriam que eu estivesse mais próxima deles, e eu fiquei no dilema. Mas eu tinha me arriscado antes. Naquele começo de pandemia, cheguei a atender um paciente que tinha viajado para o exterior e na outra semana ele me avisou que estava com Covid. Imagina isso. Quer dizer, acho que não é difícil imaginar porque  muita gente deve ter vivido esse desespero, né? O problema não é só com você, eu poderia passar para meu marido, e toda cadeia de pessoas que amo e estão por trás de mim.

HRJ – Penso que você parece bem responsável e segura do que diz, mas é sempre assim? Me conta: uma psicóloga também precisa de psicólogo?

Inês – Claro com toda a certeza. Todo psicólogo tem um supervisor. Essa pessoa, tanto analisa os trabalhos que a gente faz, como pode ser nosso terapeuta. Temos que ter, porque a gente lida com muitos problemas, e alguns são complicados, lidamos com pessoas e você tem que ser profissional, e é difícil. Por isso um psicólogo precisa de uma supervisão terapêutica, afinal somos humanos, e nosso sentimento também adoece.

HRJ – Você me passa a impressão de ser uma pessoa sempre sorridente. Qual é a receita para manter esse seu alto astral?

Inês – Olha, eu não sei se existe receita. Todos temos problemas. Mas… ah, eu gosto muito do ser-humano. Gosto de lidar com gente e quando estou com amigos ou quando estou no palco, isso me revigora, recarrega minha bateria. Um bom papo com um amigo, às vezes leva a gente a pensar, a refletir sobre nossas posturas. Já o teatro, tem aquela coisa do lúdico, que te liberta. Eu sempre falei, o teatro me curou, porque eu tive uma educação muito severa, restritiva, e o teatro me fez ver além disso, fez eu me sentir alguém muito maior. Mexeu com minhas emoções, mexeu com os meus movimentos, com a minha cultura. Ensinou-me a olhar direto nos olhos das pessoas, a confrontar, porque no palco ali, você tem 1000 olhos te olhando e, de repente, você tem que estar lá inteira, vivendo seu personagem com maestria. Adoro essa sensação de confrontar e ao mesmo tempo acolher e ser acolhida pela platéia.

HRJ – Inês, tem gente que envelhece mal e gente que envelhece bem. No seu caso, olho para as fotos antigas e vejo uma mulher linda, e olho para você hoje, e vejo que uma certa exuberância permanece. Qual é o segredo para continuar assim, se mantendo uma Menina?

Inês – Olha, obrigada pelo “menina” (risos). Mas eu não me vejo tão menina assim. Quer dizer, às vezes me sinto criança, porque por dentro, a gente nunca envelhece. Isso aqui é uma carcaça, né? Eu vejo que eu tenho um rosto, um corpo e um espírito que me preenchem. E, claro, tem uma questão de postura também. Minha irmã me diz que eu quero aproveitar tudo que existe no mundo, e eu digo que sim, eu quero tudo. Quero tudo que o mundo pode me dar (risos).

HRJ – No filme “Abelha Rainha”, você vivia uma senhora “fogueta”, e agora está trabalhando num filme com cinco senhoras “foguetas” e o diretor é o mesmo. Será que esse diretor tem pouca imaginação?

Inês – (Risos) Acho que esse diretor é um poço de criatividade. Você não pode falar nada que ele, ó, já foi lá longe. Você fala “A ” e ele já está no final do abecedário (risos). Mas vou responder sua pergunta: vejo que ele está dando sequência, sem querer, ou talvez querendo numa coisa…

HRJ – … Vai psicóloga, manda…

Inês – Olha, estou até chorando, a maquiagem vai derreter (risos). Mas, eu vejo que ele… No “Abelha Rainha”, ele fez um filme onde discutia o preconceito da sociedade  sobre o relacionamento sexual de uma mulher de 60 anos. Quem disse que na Terceira Idade não existe sexo? Claro que existe, e continua sendo bom. Como eu já disse, o espírito não morre, o corpo vai envelhecendo, mas os desejos continuam (risos). Já o “Meninas”, vejo que o diretor dá continuidade fazendo outras perguntas. O contexto do primeiro filme é mais festivo. Esse segundo, começa como uma celebração, as cinco senhoras são muito vivas, “baladeiras”, mas desta vez, acho que o cineasta quer mostrar a ressaca, e junto com a ressaca, um bicho-papão que aparece: o Covid. Então como é que fica a vida, em meio a toda essa carga que cinco mulheres de mais de 60 anos precisam enfrentar?

HRJ – Para as pessoas mais velhas e que levaram isso muito a sério foram quase um ano e 8 meses de reclusão. Além das consultas, o que você fez nesse período?

Inês – Ah, foi muito difícil. A gente pensa em levar as coisas na esportiva, mas não tem como, um mundo inteiro em volta pirando, adoecendo, morrendo, uma política estranha, a economia afundando, amigos próximos no desemprego, então não tinha como ficar em casa fazendo um tapete de 3 km de crochê. Acho que as pessoas do mundo todo estão mais sensíveis e deveriam praticar mais a solidariedade. Dito isso, eu tive que exercitar muito minha paciência. Comecei a pintar estátuas de gesso, estudei inglês, comecei a fazer aulas de canto, li dezenas de livros de filosofia, psicanálise, e caminhei bastante. Pegava minha máscara e ia no Parque Ecológico. Você conhece o Parque? É um lugar tão lindo. E eu ficava horas, sentada na beira do lago, sentindo aquela calmaria.

HRJ – Do nosso elenco, todas são veteranas atrizes, mas é você e a Stella, que continuam montando peças no Teatro. No entanto, vocês não participam de uma peça há quanto tempo? Dá para viver sem o teatro?

Inês – Não. A gente morre sem o teatro. Estou louca pra subir num palco de novo (risos). Quer dizer, já até estou com um papel maravilhoso. O “Meninas” vai marcar esse meu recomeço.

HRJ – Quem era a Inês na infância?

Inês – Eu? Pelo que me lembro, desde a infância, eu vejo imagens afetivas, saindo com meus pais e indo ao Teatro Municipal. Sabe, Campinas tinha um Teatro, ali atrás da Catedral, que não devia nada ao Municipal de São Paulo. Era um lugar imponente com suas galerias. E eu me lembro que minha mãe ganhava o chamado ingresso “a prata da casa”, que dava passe pra galeria. Ela me levava para assistir peças infantis, e eu recordo até hoje de um coelhinho no palco e uma menina fazendo um número musical, cheio de cores e luzes. Eu também era muito influenciada pelo meu avô, que me levava todo fim de semana no circo Irmãos Almeida. Imagina, ele gostava tanto do circo que ele nem pagava mais ingresso, todo mundo o conhecia. Eu tinha também um lado artista. Gostava de me apresentar. Lembro-me de meu pai tocando gaita, e eu o acompanhando com dança e assobios. Depois, me recordo da escola. Eles escolhiam os alunos para apresentar poesia, e eu sempre era chamada para subir ao palco e declamar. Aliás, eu tinha uma rival, a Regina. E a gente brigava para ver quem declamava melhor. Também havia o coral, as gincanas, teatrinho infantil…

HRJ – Muito bem: E quem é a Inês hoje?

Inês – Acho que… a Inês é uma pessoa tentando correr atrás do prejuízo (risos). Estou sempre estudando, sempre lendo. E não quero deixar de aprender.  Corro atrás daquilo que eu não tive muita oportunidade de ter.

HRJ – Sua personagem no filme se chama Roberta. Da turma, ela é o elemento agregador, tem uma cena que ela convida as amigas para morarem com ela. Ela gostaria de ter aquele ambiente festivo sempre. Você vê alguma semelhança sua com a personagem?

Inês – Você tá me bajulando. Não sei. Eu gostaria de ser como a Roberta, mas estou muito longe ainda.

HRJ – Ah, você é uma pessoa generosa, Inês. Aliás, gostaria de aproveitar para te agradecer, porque de certa forma, a reunião desse elenco de ouro nesse filme, se deve muito a você. Eu estava em outro projeto e foi você que dirigiu minha atenção para pensar numa história reunindo essas veteranas atrizes.

Inês – Que isso! Eu que tenho que te agradecer, Hamilton. Quando você me chamou em 2018, para fazer o “Abelha Rainha”, eu estava cheia de dedos. Não queria mais fazer cinema. Minhas experiências me levaram a diretores que, com raras exceções, não se preocupavam muito com o ator. E depois tem um monte de filmes que fiz, que nem foram finalizados. Você sabe, fazer arte no interior é complicado. Tem sempre a questão do dinheiro, que às vezes nem existe. E se você entra no projeto, é por amor, porque não tem cachê, você filma dias e noites… Então, depois não ver nem o resultado, é muito frustrante para um ator que apostou tanto. E é triste, mas essa é uma realidade de muitos cineastas daqui de Campinas.

Aí você apareceu, e era um cara que eu nunca tinha ouvido falar, e me enviou um monólogo em que pedia para eu verbalizar sobre os desejos sexuais na terceira idade, ah, pedi um tempo pra pensar… mas, depois, quando você abriu o cronograma pro elenco e disse que a gente ia fazer uma imersão, ensaiando dois meses antes de pisar no set… resolvi pagar pra ver no que isso ia levar.

Essa preocupação sua é rara. A maioria se preocupa mais com a técnica do que com o ator.

HRJ – Tá bom, Inês, chega dessa rasgação de seda. Vamos ensaiar?

Inês – Vamos.

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Link da contribuição:

https://nova.kickante.com.br/financiamento-coletivo/filme-meninas

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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