Entrevista

Diário de Produção:  “Meninas” – Parte 3

Elizinha Ferraz não é apenas uma grande dama do Teatro Campineiro, ela também é uma confeiteira de mão cheia. Seu jeito muito genuíno de fazer bolos e doces se parece muito com seu modo de agir na vida. São delicados, coloridos, com uma doçura requintada que todos nós gostaríamos de ter, mas não sabemos a receita. Abaixo, ela, muito generosa, conta o segredo dessa receita pra gente:

Hamilton Rosa Jr – Das cinco atrizes do filme Meninas, eu tenho a impressão que você, Elizinha, talvez seja a mais doce. Curioso, porque eu descobri que você faz sucesso como confeiteira. Me explica isso: Será que não é muita sacarose pra uma vida?
Elizinha Ferraz –
Não. Deixa eu te falar como eu sou: antes de tudo, eu sou muito ligada na família. Alguns podem achar isso muito tradicional, mas eu adoro. Está enraizado em mim. O pessoal por aí diz que esse tipo de afeto familiar, vem se perdendo, que as famílias nem sentam mais para almoçar juntas, e eu digo: que não. Nós aqui almoçamos. E não é uma obrigação, é um costume. Meus filhos e meu marido são superamorosos. Eu sento pra almoçar e a Laís põe os pés no meu colo e, quando ela tira, o João Vitor diz que é a vez dele. Esse trato, essa afinidade, vem dos meus pais, que eu preservo, passo para meus filhos e, talvez isso me inspire para fazer meus bolos e doces.

HRJ – Doce… Dulce.
Elizinha –
Sim, quando li o roteiro do “Meninas”, achei engraçado você ter dado o nome de Dulce para meu personagem. A gente mal se conhecia…

HRJ – Já faz um ano e oito meses que o mundo está bem amargo, durante esse período, como é que foram as encomendas?
Elizinha –
No começo, foi triste. Teve muitos cancelamentos. Eu faço bolos pra grandes eventos: casamentos e festas em igrejas, e isso, de repente acabou. Fiquei numa situação financeira bem complicada. Felizmente, com o tempo, apareceu outro tipo de cliente, com uma nova característica. Gente solitária. Como todo mundo estava isolado, o negócio era comemorar o aniversário sozinho. Então eu tive que me readaptar a essa nova tendência, fazendo bolos pequenos.

HRJ – Imagino, a carência de doce deve ter aumentando muito.
Elizinha –
E como! Surgiram os clientes, em busca do pedido imediato. Ligavam pedindo pra ontem e eu… Ah, não adianta me pedir um bolo à tarde, para eu entregar, à noite. Meu serviço, só funciona bem, mediante encomendas. Não consigo fazer nada correndo. Sou caprichosa, e capricho leva tempo.

HRJ – Estar casada, e ter excesso de responsabilidades, pelo que vi, não te impede de sair com as amigas pra baladas. Você é baladeira! (risos). Seu marido não tem ciúmes?
Elizinha –
Meu marido, o Alex, super respeita. Somos muito parceiros e ele me incentiva. Somos religiosos, somos espíritas, e a gente se conheceu num encontro, onde se discutia justamente a necessidade do diálogo. As pessoas não dialogam mais. E o Alex, desde o começo, se mostrou uma pessoa gentil. Ele é com todos meus amigos. Ele adota meus amigos. É só perguntar pro nosso elenco, ele adora todas as “Meninas”, ele faz pão e torta para elas… creio que eu fui abençoada de encontrar ele… se bem que ele não era muito favorável ao Teatro, tinha um pouco de ciúmes quando me via no palco… mas, ele me conheceu ali. E isso, ele teve que entender.

HRJ – Você acha que nossa sociedade está mudando? Da minha parte, ainda vejo marido amarrando mulher no pé da mesa pra ela não sair…
Elizinha –
Sério? Olha, acho que o impedimento não vem só do marido. Quando você é casada, às vezes, chega o fim de semana e você está acabada. Quer descansar. No meu caso, tem vezes que prefiro ficar em paz no sábado à noite. E a turma fica brava quando eu não vou, dizem que eu perdi… eu não vejo assim. Tem horas que a gente quer sossego.

HRJ – Verdade… a liberdade está em poder escolher…
Elizinha –
Claro… Mas, olha, eu aconselho essas mulheres que se sentem solitárias, primeiro a reatar as amizades. Esse negócio de não se comunicar com amigos, isso não tem sentido. Voltem, liguem, procurem. A pandemia está sendo uma coisa horrível, mas tem um lado que, você pode usar, que é bom. Aproveitem esse tempo para procurar a velha turma. Eu, graças a Deus, tenho o Alex comigo, e alguma coisa me diz que vamos viver juntos muito tempo, vamos ficar velhinhos juntos (risos), mas é tão bom o reencontro com as minhas amigas… sabe? Não tenho vergonha de dizer, mas houve um momento muito difícil pra mim, e, puxa, você não sabe o que elas fizeram… Tenho muita gratidão por elas…

HRJ – Elizinha, você é a caçula do grupo. Vi fotos de você, bem menina, já fazendo teatro. Quero dizer, esse sonho, já vinha lá atrás, quando você era bem novinha. O que significa o teatro pra você?
Elizinha –
Pra dizer a verdade não sei como eu entrei nisso (risos) Eu morava na frente do Conservatório Carlos Gomes e um dia, eu tava muito desencantada com a escola, sobretudo, com uma professora de matemática que me deixou de recuperação de maldade, e eu não queria saber de escola, não queria ir pra faculdade… um dia eu vi um anúncio no Conservatório, um curso introdutório de teatro de uma semana, e decidi fazer. Veja, não era um sonho, mas eu fiz a primeira aula, que era de maquiagem; depois fiz a segunda, que era sobre a construção de um personagem e, quando chegou no fim da semana, percebi que eu gostava de estar lá. Aí veio meu pai, que era um grande incentivador. Ele veio fazendo festa, queria que eu fosse pra São Paulo pra me profissionalizar, mas eu, primeiro, queria entender melhor o que estava acontecendo… E depois eu vi que os três melhores anos da minha vida, foram o período em que estudei no Conservatório. Muita gente me diz que eu devia ter ido pra São Paulo depois disso. Mas eu fiquei, insisti por aqui… e você sabe, a cidade infelizmente não comporta as artes como devia. Não dá pra se profissionalizar e viver em Campinas apenas do teatro… e, passados todos esses anos, tem gente que pergunta se eu desisti. Não, eu não enterrei minha carreira. Eu estou aqui, sempre pronta pra retomar.

HRJ – Fico lisonjeado de você estar neste projeto, por que sei que ele representa uma volta sua para uma coisa que você é apaixonada. Portanto as opções que eu tenho como diretor são: fazer dar certo, ou fazer dar certo, né?
Elizinha –
Que responsabilidade, hein? (risos) Eu não tenho dúvidas que vai dar certo. Você escreveu uma história muito sensível. É alegre, é triste, é bonita. Nossa…

HRJ – Lendo o roteiro, que leitura você faz da Dulce?
Elizinha –
Ela me emociona. É uma pessoa que quer que tudo dê certo na vida, mas a vida não é como queremos, né? Ela é muito real, o tipo de pessoa que ouve mais do que fala… acho que muita gente vai se identificar com ela, com suas risadas, com seus sonhos…

HRJ – Eu tenho dois filhos, moro com meu pai que tem 81 anos e mãe que tem 76, e fiquei desesperado com a possibilidade de perder qualquer um deles. Sei que você é uma pessoa muito “família”, Elizinha, você acha que já dá pra gente se arriscar a sair de casa?
Elizinha –
Ufa, essa pergunta… eu tive muito medo de perder minha mãe, ela está com 86 anos, e eu e minha irmã, tivemos que criar uma disciplina e ficar vigiando ela, porque não é todo mundo que é capaz de entender a gravidade dessa doença… foi duro, mas a gente segurou a onda. Por sorte, também não tive problemas com a Laís e o João Vitor, que são jovens, mas são responsáveis. E depois tem o particular. Eu, por exemplo, morria e morro de medo de pegar essa doença e passar pra alguém. Lesar alguém. Se acontecesse, meu Deus, eu não teria condições de superar o remorso. Então, dá um medo, né? As vacinas foram importantes, é claro, mas acho que a gente ainda tem que ter muita cautela porque a gente quer que acabe logo, mas infelizmente não acabou.

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Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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