Entrevista

Diário de Produção – “Meninas” – Parte 5

É impossível entrar numa conversa com a atriz Mila Cassiano, a quinta protagonista do filme “Meninas”, sem esboçar pelo menos uma risada. Mila é espirituosa, uma pessoa tão de bem com a vida, que mesmo quando você está desanimado, ela, generosa, enxota o baixo astral do ambiente, fazendo a gente acreditar que os desapontamentos e indignações da moderna sociedade civilizada, são uma tolice, e que por que não podemos encarar a vida de uma maneira mais tranquila?
Pessoas assim são raras, e quando as encontramos, o melhor é se apegar e cultivar a amizade. Duvida? Então veja as respostas de Mila a essa entrevista e me digam se não vale a pena ter uma amiga assim:

Hamilton Rosa Jr. – Mila, você fugiu que nem o diabo da cruz de me dar essa entrevista, e agora chegou a hora da verdade. Pra você, é mais difícil que subir num palco?
Mila Cassiano –
(Risos) Eu não fujo de nada. Eu tenho um jeito expansiva, brincalhona. É claro, que quando você disse que queria fazer uma entrevista comigo, bateu um frio na barriga. Não sou acostumada. Parece que alguém está parando tudo pra perguntar alguma coisa muito séria (risos). Mas daí vi as perguntas que você fez para as outras “Meninas” e achei que dava pra encarar. Quando eu subo no palco também pinta essa insegurança e dá vontade de fazer que não é com você. Mas uma vez que você se empenhou, ensaiou, não tem como escapar. Me sinto melhor quando tenho um parceiro de cena ou quando a cena é coletiva, mas quando você entra pra fazer um número sozinha, ufa, é terrível.

HRJ – De todas as Meninas, você é a mais festeira, faz piada com tudo, e, às vezes, tenho a impressão de que você está fazendo um número musical. A Mila séria é assim também, ou ela não existe?
Mila –
(Pausa pra pensar) Bom, eu acho que mesmo com a seriedade que a vida exige, a gente tem que tentar ser leve e brincalhona. Há momentos que temos que manter a seriedade, mas eu não gosto de ver uma amiga ou amigo tristes. Mostro meu sorriso e faço o possível para erguer o astral da pessoa. Aliás, já nasci assim.

HRJ – Sei, você já nasceu contando uma piada pro médico.
Mila –
É… (risos). Sabe, o riso pode ser algo mágico pra vida de qualquer um. Antes de fazer teatro, antes de qualquer coisa, lá em casa, eu já montava minhas cenas. Era muito divertido. Pra minha mãe, para minhas irmãs, eu era chamada de a “Lambidinha”.

HRJ – Existe inconformismo no seu riso, ou isso é viagem minha?
Mila
– Não sei se entendi essa pergunta, tá num tom muito psicanalítico, né? Sou bem humorada, por que sou.

HRJ – Tem uma cena no “Meninas”, que escrevi pensando em você. Sua personagem, a Selma, derruba a máscara dentro de uma taça de vinho, e ela torce a máscara e depois bebe o vinho. Na vida real, você faria o mesmo, ou você é fina, jamais faria isso?
Mila –
Fina eu nunca fui (risos). Eu faria como a Selma, tomaria o vinho. Acho um desperdício jogar bebida fora.

HRJ – (Risos) Mila, além de irreverente, percebo que você não precisa de palco pra fazer performances…
Mila –
Ah, adoro performances. Mesmo quando eu trabalhava no caixa do banco, acho que eu encarnava alguns tipos. Eu usava uns modelitos… Sempre fui despojada. Meio bicho grilo… andava de chinelo, sandália de couro, umas calças meio riponga, enfim… Mas o pessoal gostava do meu exotismo e eu era boa funcionária, então nunca houve reclamação. Se bem que, um dia fiquei sabendo que, numa reunião, o pessoal da gerência comentou que era uma pena que eu não me vestia de forma muito refinada… Bom, eu fiquei sabendo da história e óbvio, que eu não podia perder a “deixa”. No dia em que ocorreu uma festa de confraternização, cheguei no local vestida de madame, com uma “saiona” longa, um colete brilhante preto, estilo belle époque, um chapéu deslumbrante, e luvas de renda, Imagina isso numa churrascaria (risos). E foi maravilhoso, toda diva, tirei a luva de renda, peguei os talheres e, bem chique, cortei a picanha… (risos). Resultado: ninguém mais ousou reclamar. Tiveram que se habituar com o meu jeitinho.

HRJ – Vi nas redes sociais seu trabalho dando assistência aos animais. Fiquei até com a impressão de que você dá mais bola pros animais que pros humanos. Por acaso, você vê menos esperanças na raça humana?
Mila –
Olha, a raça humana não tem jeito (risos). Já os animais, ah, é o que eu mais amo na vida… sabe, eu vejo muito ser-humano dizendo que é do bem, o cara vai na Igreja, senta lá na frente do altar, reza, e quando sai, faz umas atrocidades… não gosto de generalizar, mas o povo é muito controverso… Eu já vi gente levando cachorro pra estrada e abandonando o bicho como se fosse lixo. Então não cabe na minha cabeça ver uma pessoa fazendo isso. (Bem nessa hora, um gato mia, perto de Mila).

HRJ – Quantos animais você tem na sua casa?
Mila –
Estou com seis gatos e um cachorro. Mas já tive mais… Essa que tá miando agora tá querendo chamar a atenção. Peraí que vou explicar pra ela que a atriz aqui sou eu (risos).

HRJ – O que te levou ao Teatro, Mila?
Mila –
A dança. Fui fazer um curso de dança no Conservatório Carlos Gomes, e por um tempo fiquei muito focada. Adorava dançar jazz, sapateado, e fiz algumas apresentações no Castro Mendes. Depois uma amiga, que conhecia meus dotes de palhaça (risos), disse que eu deveria tentar o teatro e que eu me daria muito bem. Sabe, né, as pessoas confundem o fato de como você é na vida, com o que você faria no palco e… mesmo assim, fui lá ver que bicho dava… E assim entrei pro ramo. Depois conheci as Meninas, a Stella, a Elizinha, a Rosana… e, olha como as coisas são, com o Teatro, às vezes dou uma pausa, mas na amizade, nunca paramos. Já são quase 40 anos que estamos juntas.

HRJ – Há muitas diferenças de atitude entre a Mila, quando tinha 18 anos, da Mila de agora?
Mila –
A Mila de agora é mais solta. Quando adolescente, eu morava em São João da Boa, e era bem tímida. Claro, cidade de interior te deixa bem solta, as pessoas ficavam na rua até tarde da noite, conversando nos bancos e nas calçadas, algo que a gente não vê mais hoje, né? Mas eu não era muito saideira, paqueradora, minhas irmãs sim, eu era mais quieta. Isso só foi inverter depois de adulta, ao fazer teatro, ao me sentir mais livre e solta. E quer saber? Hoje me sinto mais jovem do que naquela época.

HRJ – Você é formada em Letras. Quando você lê algum trecho de peça que não gosta, você fica com vontade de consertar e melhorar?
Mila –
(Risos) Ah, eu fico com vontade, sim! Mas não é pra fazer correção gramatical. Tem frases que, às vezes, na boca, não soam bem. Então eu converso com o diretor e “caneto” o texto.

HRJ – O que você acha do roteiro do Meninas?
Mila –
Olha, eu gostei bastante, por que se não tivesse gostado … (risos). Tivemos algumas leituras, mas não houve muitos ensaios, né? Quando começarmos, talvez eu queira “canetar” alguma fala, então o diretor que se prepare…

HRJ – Você parece muito boa em improvisar rápido então, uma última pergunta: a gente sabe que um camaleão muda de cor, dependendo do ambiente. Digamos que eu peça para você ser um camaleão e te coloque numa toalha xadrez. De forma improvisada: Como você faria esse camaleão?
Mila –
Primeiro, meu camaleão não entraria em crise. Ao contrário, ele ficaria xadrez como a toalha e acharia o máximo ser estampado. Seria um bicho bem alegre e colorido, como eu.

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Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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