A Balada de Little Joe

The Ballad of Little Jo, 1993

Avaliação: 3.5 de 5.

A cineasta Maggie Greenwald batia de porta em porta no começo dos anos 90 em busca de um produtor que se atrevesse a financiar um pequeno western baseado na história verídica de uma garota que tornou-se um pistoleiro lendário no século 19 em Ruby City, Montana. Se a idéia de fazer um filme feminista era imprópria até o princípio dos anos 60, podemos imaginar que com a evolução dos costumes, as concessões talvez fossem menores nos anos 90. Mas a via sacra que Maggie Greenwald amargou para produzir “A Balada de Little Jo” esbarrava numa série de entraves. O roteiro de Maggie lidava com a identidade sexual de uma forma natural, e era absolutamente relevante, para um gênero que tocara poucas vezes no assunto e sempre superficialmente. Estava sintonizado, inclusive com a onda politicamente correta, pois tratava-se de um libelo contra todas as formas de dissidência ou diferença. Mas nada poderia ser mais delicado naquele momento em que a escalada da Aids abalava a sociedade que um western que parecia sugerir as preferências sexuais de sua mentora.

Os grandes estúdios não financiariam uma história tão desconfortável,  escrita por uma lésbica, que ainda por cima fazia questão de dirigi-lo[1]. Mesmo que pudesse gerar algum marketing, afinal seria o primeiro western dá história realizado por um representante do sexo feminino, era inconcebível um filme em que a mulher mostrava sua porção masculina e no clímax da ação, um homem revela seu lado feminino. Maggie Greenwald tomara contato com a história verídica de Little Joe, comprara os direitos autorais e mantinha-se irredutível.

A trajetória de Little Jo é fascinante. Viveu em meados do século passado. No registro oficial o nome era Josephine Morgan. Sabe-se que era uma jovem solteira da classe abastada de Buffalo, Nova York, que foi expulsa de casa pelos pais ao engravidar e recusar o casamento. Josephine deixou o filho com a irmã, foi para o Oeste e mudou a identidade para poder sobreviver. Formou um bando de renegados e manteve o disfarce por tanto tempo, que só descobriram a verdade no dia de seu enterro.

Em 1993, 39 anos depois de Joan Crawford instigar o imaginário masculino vestida de cowboy, Suzy Amis incorporou o tipo, com um realismo extraordinário. Na estrada que leva ao Oeste, Josephine é enganada por cowboys e roubada por mineiros. Passa fome, sede e tropeça em quase todas as pedras do deserto. Conhece um mascate negro (Rene Auberjonois) que se faz de seu amigo para enfim estuprá-la. Num súbito ataque de fúria, Josephine corta os cabelos e destrói o rosto com uma faca. A cicatriz embrutece mais a alma que a delicada feição. Usando um chapéu velho e um sobretudo surrado, arruma emprego numa fazenda de criação de ovelhas. Torna-se o “homem” de confiança de um rancheiro chauvinista (Ian McKellen), depois um guia para os imigrantes russos que chegam a região. Ela também é contratada para servicinhos infames, como matar os desfavorecidos que roubam gado para se alimentar. Todas as prostitutas da cidade querem dormir com Little Jo, mas nenhuma tem essa sorte. Um dia, fazem uma festa em homenagem ao “homem” que sempre as protegeu dos maus tratos dos clientes.

Muito do êxito artístico de “A Balada de Little Jo” (nunca lançado comercialmente no Brasil) deve-se ao talento de Suzy Amis. Despojada de sua vaidade, essa ex-modelo, faz de Little Jo, um personagem firme que levanta uma espécie de santuário onde guarda pensamentos e desejos. Fora de lá, no cenário social, faz coisas que uma mulher do século 19 nunca poderia sonhar. Constrói uma casa com as próprias mãos, vota nas eleições presidenciais e arruma um homem, um chinês (David Chung), para cozinhar para ela. Com esse imigrante, aprende a fumar ópio. Imersa na alucinação da droga, ela se entrega ao chinês (outra minoria sempre marginalizada nos westerns) e, por um instante, se livra da camisa-de-força de ter uma única identidade sexual. A Balada de Little Jo é o primeiro western bi do cinema.


[1] Sem as bolsas de estudos oferecidas pelo American Film Institute, que mantém workshops específicos para a classe feminina desde 1973, as chances de uma mulher concretizar um projeto cinematográfico como diretora são muito menores que a dos homens. O programa de incentivo se tornou um estágio decisivo para a obtenção de emprego na TV ou no cinema. A disputa para pleitear uma bolsa de estudos em 1999 envolvia 150 diretoras e apenas oito foram contempladas. A Universidade da Califórnia e a Universidade de Cinema de Nova York estendem os programas de incentivo a seus alunos, mas a grande maioria de seus contemplados continuam sendo do sexo masculino.