A Espiã (2006)

Avaliação: 5 de 5.

Verhoeven teve a ideia para esse A Espiã, quando fazia a pesquisa para filmar Soldado de Laranja, em 1977, e descobriu que um grupo da Resistência Holandesa, muito corrupto, tinha escondido tesouros de famílias judias mortas durante a Guerra e pretendia gozar dessa fortuna assim que o confronto acabasse. As instruções para localizar os tesouros estavam num livro (daí o título original do filme The Black Book) que seria disputado a bala entre a turma todo, que tinha entre eles judeus também.

O cineasta tentou obter financiamento em Hollywod para levar a produção desse fato verdadeiro adiante, mas a comunidade que tem em sua alta cúpula, uma maioria judia, não gostou da ideia de ter judeus como vilãos no filme.

Filme de Segunda Guerra já tem os malvadões de praxe, são os nazistas, e não cabe mexer com paradigmas estabelecidos. Mas Verheoven, muito insolente, deu de ombros pro empresariado norte-americano e foi levantar o projeto na Europa. Levou seis anos para reunir financiadores, na Alemanha, Bélgica, Inglaterra e na Holanda.

A história de corrupção na Resistência Holandesa não entra em cena antes do terceiro ato. O filme foca as atenções numa personagem fictícia, uma cantora e atriz judia e sua luta pela sobrevivência quando ocorre a invasão nazista na Holanda. A heroína, a bela Carice van Houten (a feiticeira Melissandre, de Game of Thrones), aprende a se disfarçar como um camaleão, quando os nazistas se aproximam. A moça é tão meticulosa, que tinge até os pelos pubianos para não criar margem de dúvidas aos desconfiados arianos. E, ah, para continuar viva dorme com o inimigo e depois descobre que até gostou da experiência.

No fundo, Carice funciona como o alter-ego de Verhoeven, o cineasta que se dobrou a filmar em Hollywood, o inimigo número um do cinema de autor, e até gostou. E ele usa e abusa dessa vivência: em alguns momentos, “A Espiã” tem um senso de espetáculo, que lembra as melhores superproduções norte-americanas.

Como é habitual nos filmes do realizador, ele constrói as seqüências sempre com muito bom gosto visual (os enquadramentos, a fotografia, o guarda-roupa). Também habitual é o seu tremendo feeling na escolha das mulheres e nessa matéria, Carice van Houten é além de uma belíssima mulher, uma atriz de garra. A seqüência em que ela canta para os nazistas e de repente no meio deles avista o oficial que matou sua família, é um exemplo de como uma grande atriz é capaz de criar um mundo com pequenos gestos.

Menos rigoroso que O Pianista (Verhoeven não explora muito os efeitos políticos da ocupação do inimigo no país, centra-se mais a narrativa na protagonista e como esta tenta sobreviver e destruir os que assassinaram a família) e menos complacente que “A Lista de Schindler” (não há choramingos, nem “mutações” de oportunistas, se revelando “salvadores” no final), “A Espiã” é uma contundente evocação de tempos em que era fácil confundir-se com o perigo. A separação entre a lealdade e traição era uma linha muito delicada de ser detectada. E acredite: Verhoeven consegue humanizar até um oficial da SS!

É um filme sobre as pequenas covardias cotidianas, sobre as pequenas mentiras, traições, todas exercidas em nome da conveniência. Com aconselha um personagem à heroína: “Estamos em tempos confusos, não confie nos nazistas e menos ainda nos holandeses!”.

E, é claro que, a tolinha vai confiar, se estrepar, para depois aprender a viver, mesmo que na base da bordoada.

Verhoeven várias vezes foi ousado durante sua carreira, mas poucas vezes com a contundência que revela neste “A Espiã”.

Clique aqui para ver em que canal de streaming o filme A Espiã está disponível.