A Fortaleza Infernal

Avaliação: 3 de 5.

The Keep, 1983

É visto como o filme maldito de Michael Mann. Uma obra tão cheia de senões que até mesmo o próprio diretor evita tocar no assunto. De fato, A Fortaleza Infernal tem fragilidades que são impossíveis de camuflar. Só que existe um orquestrador com uma visão consistente por trás da mal fadada experiência. Um diretor que mesmo no erro sempre tem algo interessante a oferecer. Para começar, esqueça o festival de hemoglobina e detritos orgânicos formalmente acrescentados nos filmes de horror do momento. Eis aqui um filme que não derrama uma gota de sangue. Esqueça também os gritos e histeria, como artifícios de sustos. Se o caminho para fugir destas facilidades é árduo e complicado, pouco importa.

O enredo é adaptado do conto O Fortim, do escritor F. Paul Wilson, e como o próprio nome já diz acontece na tal fortaleza, construída, para o que inicialmente parece ser apenas o capricho de um antigo senhor feudal da Romênia, porque ao redor dela não há nada para defender além de um pequeno vilarejo. Em 1941, no entanto, os nazistas esbarram no monumento medieval. E planejam usá-lo como base estratégica para evitar uma ofensiva soviética.

O local parece constantemente imerso em chuva e névoa e o oficial Klaus Woermann (o ator alemão Jurgen Prochnow), que lidera os soldados, acha a função naquele pedaço de fim de mundo, nada nobre. Debaixo da neblina, contudo, a muralha de pedra desafia a imponência nazista e a supera. Por fora, o muro é ornamentado por centenas cruzes foscas, por dentro as cruzes brilham como prata. Mas como podem brilhar no escuro? Os soldados, impressionados, se aproximam para entender o enigmático efeito. Dois deles, inventam de remover a prata à faca. A dupla terá o corpo destroçado instantaneamente. Frente à solene etiqueta militar, os soldados se assustam, mas precisam conter o medo. Woermann tem ordens expressas do alto comando para manter o destacamento por lá, e ai de quem desobedecer às ordens.

Mann filma esses homens rigorosamente enfileirados como autômatos que marcham para a morte. Parecem peças de um jogo de dominó. A cada noite, a vida de um soldado é sugada pela força oculta.

E assim o clima de mistério cresce em velocidade e tensão, com acréscimo de um oficial da SS (Gabriel Byrne) que chega para demover Woermann da ideia de que a fortaleza é amaldiçoada, e o doutor Theodoro Cuza (Ian MKellen) e sua filha Eva (Alberta Watson) chamados para decifrar as advertências escritas numa língua morta, que aparecem grafados num portal.

O horror não é o terreno onde Michael Mann rende o melhor. E aqui o terror desemboca no sobrenatural, tema inverso ao realismo que costumamos ver o diretor mais à vontade. No entanto, Mann nunca foi um cineasta de olhar engessado, faz um cinema de de busca, de interesse por novas formas de abordagem. E na ocasião em que decidiu adaptar o livro de F. Paul Wilson, estava muito ligado à leitura da obra do psicólogo Bruno Bettelheim, especialmente à ideia de que o medo não é apenas um sentimento com características infantis. Ele pode tanto ser a expressão pura da subjetividade psicológica e emocional, como também o reflexo de uma preocupação social. Pode tanto assolar nossos sonhos, como ser um tormento de convívio diário. Em suma, o pavor é capaz de chutar qualquer porta, invadir qualquer realidade, tomar qualquer ser, assolar qualquer comunidade.

No filme, o horror aflige curiosamente os nazistas e num contexto (1941) em que eles se sentiam menos vulneráveis (estavam ganhando todas as batalhas). Portanto, nada parecia mais saborosamente promissor do que colocar os nazistas e suas crenças arianas de superiorida de frente a algo irracional.

A escuridão dentro da Fortaleza talvez seja contingência dos limites da produção. Sabe-se que no meio das filmagens, a crise econômica atacou a companhia, os produtores recuaram nos investimentos e Mann se viu ao norte do País de Gales com uma equipe, os cenários construídos apenas pela metade dentro de uma cratera e na condição de salvar o barco a qualquer custo.

Verdade que o setor que mais se ressente dessa precariedade é o dos efeitos visuais. Mas nas filmagens, a alternativa de esconder as deficiências deixando tudo a meia-luz, acabou gerando soluções bem estimulantes. Mann lidou muito bem com o efeito da escuridão. Convocando o espectador para tatear o perigo que não se vê. A presença de Ian McKellen como o doutor Theodoro Cuza acena para uma reflexão metafísica sobre a longevidade da fortaleza em contraste com a brevidade da vida. Cuza evoca a lenda, conta a história do homem que teima em construir o templo, pedra sobre pedra. Mortal, per­dido na eternidade do mundo, agarra-se ao menor pedaço de terra, por medo de cair no abismo infinito. Hitler previa que seu império estava predestinado a durar mil anos. Frente a Fortaleza, seus soldados não duram uma semana. Esse é o viés mais instigante de A Fortaleza Infernal e que talvez, se Mann encorpasse, teríamos algo realmente invulgar. Mas aí eis que um mal concreto precisa aparecer, e a partir do momento que A Fortaleza Infernal vira um filme de monstro, toda aquela atmosfera de mistério se desfaz. E entra em cena aquele mundo codificado que tão bem conhecemos.

O melhor de Mann, pelo menos neste longa, acontece quando ele se bate contra a convenção e mostra as trincas da estrutura. Seja ela de ordem nazista, ou da ordem de Hollywood.