A Noite da Emboscada (1968)

Avaliação: 3.5 de 5.

De todos os diretores americanos que saíram da TV, Robert Mulligan foi um dos raros (o outro foi John Frankenheimer)  que pensou em termos puramente visuais — ele encarnou totalmente o ideal de Astruc do caméra-stylo. Há longas passagens em muitos de seus filmes: O Sol é Para Todos (1962), O Preço de Um Prazer (1963), A Inocente Face do Terror (1969), Houve Uma Vez Um Verão (1972) e esse A Noite da Emboscada, praticamente todos você pode desligar o som e acompanhar a ação sem qualquer diminuição de clareza ou impacto. Hoje compreendemos isso como pureza visual. Em 1969, até mesmo sensibilidades iluminadas como Pauline Kael viam o cinema centrado no personagem de Mulligan como frágil, tocantemente pitoresco ou pedante. Era fora de moda fazer em 1968 um filme sem subtexto político.

Mas isso é uma injustiça, como bem ressaltou Bertrand Tavernier em 50 Anos de Cinema Americano, seu dicionário crítico co-escrito com Jean-Pierre Coursodon. A Noite da Emboscada não chega a ser uma obra-prima desconhecida, mas que o filme tem grande força e Mulligan continua sendo um cineasta que merece ter a obra revista.

Nos termos de como pensou a questão da luta pelos direitos civis, ele era visto como um cineasta acadêmico. Em comparação com Altman, Peckinpah e Sarafian, também nascido em 1925, Mulligan parecia o professor universitário que ficou para trás para ensinar uma sala de aula vazia enquanto seus colegas saíam para marchar. Mas seu empenho é tocante, porque mesmo com a sala vazia, ele acredita nas causas perdidas. E toda essa ligação emocional desperdiçada ressalta o que agora parece ser um sentido poderoso.

A Noite da Emboscada chegou a Mulligan e seu parceiro de produção Alan Pakula, pelas mãos de George Stevens, que achou a história de Theodore V. Olsen intrigante pela pitada de horror que inseria ao gênero western.

De fato é uma trama assustadora e lapidada no roteiro de Alvin Sargent por uma ironia permanente. Sargent sempre foi um hábil roteirista para lidar com dramas íntimos, vide Lua de Papel (1974),  Júlia (1977) e Gente Como a Gente (1980), e neste A Noite da Emboscada, ele não fará diferente.

Curioso é que o filme é um western, mas não há propriamente um duelo, ocorre sim a disputa entre dois rastreadores de quem demonstra mais perícia em seu ofício. Na primeira cena, vemos Sam Varner (Gregory Peck), um batedor do exército, se ocultando tão bem sob as sombras de um desfiladeiro, que termina emboscando um grupo de apaches. Ele encontrará um rival, mais invisível que ele. O apache Salvaje é chamado pelos índios de “Fantasma da Lua”, e logo em seguida, vemos por que: ele dizima sozinho um pelotão de 10 soldados. Em princípio, Sam não quer se envolver na caçada de Salvaje. Ele está se aposentando do exército e rumando para seu rancho no Novo México. Mas ele se afeiçoa a Sarah Carver (Eva Marie Saint), uma mulher de meia idade que foi sequestrada pelos apaches, teve um filho índio e agora junto com o menino sofre com o preconceito implacável do sociedade branca. Forçados a passar a noite em um posto avançado, eles atraem todo tipo de olhares hostis. O próprio protagonista demonstra relutância, quando Sarah lhe pede para acompanhar ela e o filho até a estação ferroviária.

Mas ele auxilia a mulher e o menino e, aos poucos, começa a entender que Sarah e seu filho estão sendo rastreados pelo pai do garoto, que é ninguém menos que o “Fantasma da Lua”.

Assim, Sam se vê protegendo e cuidando deles.

O filme é fascinante pela forma como minimiza os diálogos. O protagonista expõe seus sentimentos pelas atitudes, a mulher também é silenciosa, mesmo quando demonstra medo e uma certa desorientação, e a encenação de tristeza e perplexidade do menino fica igualmente bloqueada na garganta como um nó.

O garoto tenta escapar para se juntar ao pai; Nick (Robert Foster), amigo mestiço de Sam, ensina o menino a ler números, de modo a jogar pôquer e se juntar ao mundo dos homens brancos. Sam descobre que a criança não tem um nome, quer chamá-lo de Thomas. A mãe diz que o menino já tem muito a processar, e não tem estrutura para entender o novo mundo.

Mas o melhor do conjunto é Salvaje. O vilão é construído como uma ameaça formidável, quase sobrenatural.

Mal vemos o personagem (em relances descobrimos que é o ator Nathaniel Narcisco, que o interpreta). Sua ausência, trabalhada sempre em extra-campo adquire progressivamente um sentido de ameaça imparável. E nem as montanhas, que cercam a casa de Sam, como uma muralha, serão capazes de contê-lo.

Esse fantasma será a base sólido do filme até o fim.