A Origem

Avaliação: 4.5 de 5.

Inception (2010)

Leonardo DiCaprio não tem o requinte de um George Clooney em Onze Homens e um Segredo, mas lidera um grupo de ladrões cuja especialidade é se infiltrar no sonho de milionários e roubar segredos guardados no fundo do inconsciente. É uma invasão indecente. A equipe mergulha nos sonhos como se estivesse saltando de bungee jump e a mágica pós-moderna, filmada em IMAX, privilegia o sensorial. Temos perspectivas distorcidas, fantásticas luzes e sombras, um mundo anguloso e deformado de temores e ameaça.
E nossos heróis (será que dá para chamar de heróis?) navegam sorrateiros pelos labirintos do inconsciente, vasculhando intimidades, apalpando ideias e pensamentos. Fosse nas mãos de David Lynch, o resultado disso seria obsceno.

Com Nolan é mais comportado. Mas não posso dizer que não me diverti.

Já pensou se os chefões dos Estúdios de Hollywood tivessem o poder de roubar as melhores ideias de um roteirista e só precisassem de um ladrão para chegar a elas?
Sempre suspeitei que Christopher Nolan era muito desajeitado com o humor. Mas aqui, neste roteiro, que mais uma vez assina o roteiro com o irmão Jonathan, revela certa verve. Em vez de imaginar o artista como vítima, cria o calvário para os magnatas. No filme, nenhum empresário dorme bem, vivem apreensivos pelo medo de serem lesados na hora do sono, se cercam de seguranças para dormir, mas aí vem aquela história: quem é confiável para garantir a segurança? Num mundo onde uma adolescente com um celular descobre o que você faz, a jurisprudência vira ilusão.

Alguns críticos dizem que Nolan é um truqueiro, esconde a superficialidade de uma visão em uns cem números de cenas de efeitos e que A Origem é o maior exemplo deste cinema. Adoro essas questões que colocam um cineasta em cheque. Ainda mais quando ele é o queridinho do momento. Mas o filme merece sua fama. É um triunfo visual, cheio de especulações sobre as relações sobre a ciência dos sonhos e o inconsciente, que Nolan, leitor do escritor Jorge Luis Borges, rouba sem dar o crédito devido.

A ideia da trama se esboçou para o diretor logo depois das filmagens de seu primeiro longa Following (1999). Intrigado com a forma como o vilão do filme, Dom Cobb (Alex Haw), se revelava fruto da imaginação do protagonista, Nolan começou a considerar a materialização desta ilusão: e se realmente Cobb existisse? E se houvesse a possibilidade técnica de um ladrão transitar pela mente sem deixar rastros? O tema não parecia tão palpável a princípio, mas como bom leitor de Borges a ideia evoluiu,  só ganhou uma base empírica quando Nolan tomou contato com as novas técnicas de obtenção de imagens cerebrais, desenvolvidas por neuroradiologistas.

A perspectiva é de Um Admirável Mundo Novo. Já é possível ver como determinada área do córtex cerebral se ilumina quando sonhamos. E à medida que as técnicas de obtenção de imagens cerebrais se refinam, é impressionante como o quadro começa a ficar tão claro quanto aquelas transparências que mostram os mecanismos de um motor a combustão. Enfim, daqui a pouco até o que não achávamos possível sondar, poderá virar uma imagem concreta.

Em resumo, Nolan absorveu o assunto e seu lado arquiteto levou 14 anos para colocar tudo numa ordem. A ideia de como se locomover no subconsciente, a noção de que o tempo dentro de um sonho é mais amplo e elástico, a possibilidade de ampliar a experiência do delírio. Do ponto de vista visual, técnico e narrativo são primorosos. O diretor entrega ao público uma aventura que é viagem de primeira classe. O que se desdobra intelectualmente da aventura é epifania. Um exemplo: um cochilo de dois minutos, no território dos sonhos pode significar uma hora de aventura. O protagonista do filme nos conta que um dia chegou a viver cinquenta anos em sonho. Essa imersão, claro, lhe trará problemas. O mais irônico deles: Cobb não tem um sonho natural há algum tempo. Precisa de drogas para chegar lá. E apesar de estar metido no jogo de espionagem coorporativa, no fundo ele quer escapar do ambiente mercenário.
É por isso que aceita a proposta do misterioso Saito (Ken Watanabe) para retrabalhar a “cabeça” de um ricaço (Cillian Murphy), e induzi-lo – com a inserção de um detalhe em seu sonho – a mudar a forma de pensar.
Sim, no futuro imaginado por Christopher Nolan, todo mundo é manipulável. Homens prestam-se ao papel de puppets sem dilemas, basta serem bem pagos para o serviço. Acontece que Cobb não dá mais tanta importância ao dinheiro. Quer apenas o passe para voltar aos EUA, de onde foi banido, e reencontrar os dois filhos.
Seria simples se apenas o sonho dele contasse. Mas temos o mundo dos sonhos dos outros, dos sonhos dentro dos sonhos, dos sonhos em terceiro nível, e Nolan interliga os estados de consciência como se fosse uma caixa dentro de outra caixa.
Se o filme cresce em requinte, é neste território. De modo sutil, exige continuamente do espectador uma dupla postulação, ao mesmo tempo leitor de imagens, intérprete de sinais e também sensor privilegiado de ambientes, atmosferas e outros fluxos que a encenação não descansa enquanto não desvendar.

A proposta de Nolan, óbvio, podia render mais. Ele abre uma galáxia de possibilidades que daria pano para manga para uma dezenas de filmes, e também o precedente para julgarmos se suas escolhas não poderiam ser mais imaginativas, sobretudo depois que tomamos contato com o diagrama que a equipe de navegadores traça para entrar na mente de suas vítimas. Um dos personagens mais instigantes em cena é a Ariadne, vivida por Ellen Page (Juno). É a estudante de arquitetura talentosa, capaz de refazer o traçado da cidade de Paris quando sonha. Ariadne levanta pontes onde não existem, cria ruas que não levam a lugar algum, e quando percebe onde o sonho acaba, usa espelhos para criar ilusão de perspectiva infinita. Claro, um talento desses não será desperdiçado. A jovem torna-se especialista em construir labirintos para que a turma de DiCaprio possa navegar serenamente nos sonhos de qualquer um sem serem notados.
Esse conceito parece expandir os sentidos e o filme avança bem na primeira hora. A intriga é armada com cortes rápidos, incisivos, nunca deixando o espectador se perder na complicação. E o elenco mergulha na loucura. Do veterano Michael Caine ao sumido Tom Berenger, dos novatos e ótimos Joseph Gordon-Levitt a Tom Hardy, todo o grupo servindo como peões de luxo transitando entre os vários tabuleiros de jogos alguns reais, outros virtuais, armados pela mente de Nolan. Na segunda parte, contudo, o filme se alonga e a ação passa a soar repetitiva.
Como cineasta, Nolan é cativado pelos riscos do excesso de informação, e, como um jogador, ele adora compartilhar tais caprichos com o espectador, mesmo que isso tome um tempo desnecessário. Então porque reclamar de seus caprichos?

Seria mais fácil cutucar certa propensão do diretor para o excessivo pudor. Ele pode até ter lido A Interpretação dos Sonhos de Freud, mas evita de transitar pela seara sexual. Frente à onipotência de descer tão fundo na intimidade das vítimas, é intrigante que nenhum membro da equipe de ladrões, abuse de qualquer traço de sordidez, luxúria, e sacanagem tão característico da natureza humana. Nolan talvez seja cuidadoso demais, tímido demais ou talvez ocupado demais para abordar o assunto.

Mas vamos defender o menino: o veio que ele abra em A Origem é tão pleno de alternativas que qualquer caminho que escolhesse poderia facilmente ser recriminado. Depois, Nolan sabe onde está pisando, afinal Hollywood é puritana e vulgar. Os homens que a criaram queriam produzir entretenimento e não se equiparar a Flow Bert, forma como o presidente da Warner, Steve Ross se referiu um dia a um certo Flaubert (que por acaso escreveu Madame Bovary).

O fato é que é preciso tourear os estúdios e, olhando especificamente para esse A Origem, dá para imaginar a dificuldade de apresentar um filme discursivo, cheio de reticências, travessões e acidentes gráficos, para aprovação de uma cúpula iletrada. Ah, o filme tem um monte de cenas de ação, efeitos espetaculares, e no fundo o tema é mais convencional do que parece… nem tanto. Apesar de Nolan vender uma narrativa lógica e regrada, A Origem está sempre a um passo da loucura, do risco da verdadeira confusão e da inefável ambiguidade. Como nos quadros de M. C. Escher, que, Nolan admite homenagear.

Neste quesito, a cena de Leonardo DiCaprio fazendo o teste do peão no final para ter certeza de que não está mais sonhando, é exemplar. O importante nesta cena – que já foi discutida a exaustão – não é o objeto girando. O elemento principal é o homem. Ele olha o peão e vemos como seu rosto gradativamente se revela um livro luminoso de toda uma vida. E o que se vê nessa face é uma espécie de impasse harmonizado, conciliado, porque toda a vida é frustrada e realizada, simultaneamente. E isso não tem nada da emoção pré-empacotada dos filmes convencionais, a emoção nesta cena pende no ar, complexa, irresolvida. Neste sentido, saber se o peão vai parar de girar ou não, pouco importa. Como disse o poeta Hugo Vom Hofmannsthal, “a vida no século XX só será palatável com um sonho[1]”. E é basicamente desta forma que Nolan constrói esse filme divertido.

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[1] Trecho tirado da Carta de Lord Chandos, escrita por Hoffmansthal em 1902.