Ali

ALI-CTIT-CT1943R

Avaliação: 5 de 5.

Ali, 2001

O foco aqui está na grandeza contraditória de um personagem maior que a vida: Cassius Clay Jr., mais conhecido como Muhammad Ali.

Sabe-se que Ali era um homem duro e franco, incapaz de viver de meias palavras. Tinha um punho de ferro, mas derrotava adversários temíveis no estudo, provocando o outro com palavras, ao mesmo tempo que procurava abrir flancos cirúrgicos. Martelava o adversário com essa combinação psicológica e física até liquidá-lo. Mesmo quando em desvantagem, sua garra era impressionante. Ele foi o único boxeador que até hoje suportou 12 assaltos com o maxilar quebrado (no embate com Ken Norton, em 1973). O saldo de seu empenho se reflete nos números: em 100 lutas, Ali perdeu apenas cinco.

Antes de rodar o filme, Mann pediu que Will Smith assistisse as lutas, observasse os gestos, estudasse a técnica de Ali, se preparando fisicamente para literalmente dar e levar trancos como o pugilista levou na vida. Smith ganhou massa corporal e peso (16 quilos) e, junto com Mann, recriou as cinco lutas que aparecem no filme, seguindo um minucioso screenboard. Fotos, relatos de jornais, comentários de rádio, filmagens, Mann juntou todas as visões do relato e decantou as cinco lutas inteirinhas como se fossem histórias em quadrinhos, para recriar as cenas num espírito de multivisão.

Mas esse é apenas um detalhe. O que Ali enfrentava no ringue era algo muito maior do que a força e a fúria de outro boxeador. Ele lutava contra a segregação racial, contra a estupidez da guerra do Vietnã – sua recusa em se alistar lhe valeu uma pena de cinco de prisão e quase destruiu sua carreira. Sua batalha para mudar inclusive o próprio nome para Cassius X, depois Muhammad Ali e, mais tarde apenas Ali, era um repúdio, contra qualquer um que tentasse se aproveitar dele como herói fantoche.

Ali não era vítima, mas, justamente por sua franqueza, se expunha como bode expiatório. Era vigiado pela CIA por suas ligações com Malcolm X, foi alvo da política suja dos cartolas do esporte, foi manipulado pelo líder islâmico Elijah Muhammad, como plataforma de marketing para promover a Grande Nação Islã, e usado como exemplo a não seguir quando disse que jamais iria para o Vietnã: “Nenhum vietcongue me chamou de crioulo, porque eu lutaria contra eles?”.

O eixo do filme gira em torno de dez anos da vida do pugilista. De 1964, quando ganhou o primeiro título de peso-pesado do boxe, até o confronto com George Foreman em 1974 no Zaire.

Há cenas impagáveis, como no momento em que Ali, empenhado em seu treino para a próxima luta, sai para correr à noite, e a polícia se aproxima para perguntar do que ele está fugindo. Ou a cena de Ali criança olhando o pai pintar uma tela com a imagem de Jesus Cristo (enquanto no contracampo o menino pergunta com os olhos: porque um Jesus branco?). Há também diálogos memoráveis como o de seu tutor Drew “Bundini” Brown, dizendo: “Ofereço a você meu vodu, minha mágica, irmão, para você subir lá e mostrar quem somos!” Ou quando Ali diz que não consegue esquecer as palavras que um dos Beatles (aquele mais inteligente, o de óculos) lhe disse: “Campeão, quanto mais real sua condição de campeão ficar, mais as coisas vão ficar irreais para você!”

É contra essa ilusão que o Ali de Mann se bate. A condição de não ser mais um joguete de qualquer sistema. Por isso é tocante a sequência em que chega ao Zaire, pouco antes da luta contra Foreman, e vê seu rosto pintado nos muros das favelas. Ali ele se conscientiza do papel simbólico que possui: representante e voz ativa das camadas marginalizadas, não somente dos EUA, como também da África e do restante do mundo.

Sob esse novo sentido Michael Mann arma a luta final. Vimos quatro lutas antes, cada qual filmada num ambiente arquitetonicamente diferente.  Nenhuma, contudo, acaba sendo mais inquietante que esta última, primeiro porque é como se ela apagasse todas as outras já que a cruzada do boxeador agora é idealista. Segundo porque em nenhuma das outras o temor da derrota assombra o homem, agora mais velho e mais lento. E terceiro pelo tratamento cinematográfico. Mann registra cada golpe executado, cada suspiro, cada descanso entre assaltos,  em pormenor.  Os dois boxeadores circulam, se estudam. Como se cada qual tivesse um segredo pra eliminar o outro. Pouco importa se sabemos de antemão o resultado desta final, vê-se a luta com frio na barriga e ansiedade tremendas, porque não se trata mais de uma medição de forças, se trata da história de um homem que como diz Malcolm X, transforma seus pensamentos em ação.

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