Ao Despertar da Paixão

Jubal, 1956

Avaliação: 3.5 de 5.

O humanista Daves, autor dos fundamentais “Flechas de Fogo” e “Galante e Sanguinário”, reconhece nas entrelinhas de um livro de bolso, “Jubal Troop”, o “Othello” de Shakespeare. E para compor seu “Ao Despertar da Paixão” (1956) a peça do dramaturgo será fundamental. “Othello” ressalta a ironia de um mundo capaz de inverter as posições de classe por causa das guerras (antes de general de um exército europeu, Othello é um mouro assimilado pela sociedade veneziana pelos seus triunfos militares) e a disputa de cargos nas cúpulas da aristocracia. As manobras de Iago levam o apaixonado mouro matar a esposa. Há, entretanto, outras motivações de cunho íntimo, que impelem o general ao crime. Um complexo de inferioridade combinado com um ciúmes obsessivo, que se transforma em paranóia e loucura. Iago alimenta esta fornalha apresentando novas provas de infidelidade de Desdêmona. O castelo desaba, quando Othello depois de matar a esposa por um ciúme cego, constata que ela era inocente.

Como o líder mouro de Shakespeare, o Othello branco de “Ao Despertar da Paixão” (Ernest Borgnine), é imponente no comando de suas terras, ao passo que na intimidade do lar, não passa de um fantoche. É persuadido pelo capataz Rod Steiger (na peça, Iago) que quer tomar sua propriedade e ter o seu poder; enganado pelo braço direito Glenn Ford (Casio) que tenta esconder-lhe o passado marginal, e traído pela esposa Valerie French (Desdêmona) que sonha com algo mais romântico que a truculência dos homens e o cheiro de estrume do gado. Daves toma algumas liberdades na sua encenação, dando atenção especial a personagem de Desdêmona. No lugar de uma princesa jovem e delicada, uma das personagens mais passivas já criadas por Shakespeare[1], Daves apresenta uma balzaquiana febril e ambiciosa. A personagem de Valerie French é a mulher entediada, que se entrega ao capataz Steiger e se insinua para Ford, por alimentar as esperanças de um mundo de prazeres que acredita existir longe daquelas pastagens. O talento de Daves está em brincar com a unidade dramática da peça e explorar suas variáveis. O detalhe mais instigante desta experimentação é que sua Desdêmona excitada está condenada ao mesmo fim que a donzela criada por Shakespeare. As mentalidades são diferentes, os contextos são a Veneza da Idade Média e o Oeste do século 19, mas as privações são idênticas e os desenlaces parecidos.  Claro, Daves nem esbarra no jorro contínuo de invenção e transcendência do genial bardo, mas revela um poder de compreensão da obra do dramaturgo britânico creditado apenas a mestres como Laurence Olivier, Joseph Mankiewcz e Akira Kurosawa. Como em “Othello”, “Ao Despertar da Paixão” é um intrigante exemplo de como os códigos de honra limitam o homem impondo-lhe um cerimonial que todos são obrigados a obedecer. Daves reagira contra esse regime opressor antes de entrar para o ramo. Tomou contato com a mitologia navajo e ficou maravilhado com sua essência humanista. Daves compartilha esse humanismo no cinema. Seus personagens são submetidos a provações dolorosas, e a mesma natureza que conspira contra eles, auxilia no amadurecimento.


[1] Shakespeare revelou sua maestria ao escrever sobre a expressividade feminina em dramas masculinos como “MacBeth”, “Othello” e “Hamlet” mas ele também sucumbiu as pressões do meio. Até meados do século 19, Lady MacBeth, Desdêmona e Ofélia eram interpretados por homens no teatro inglês. O dramaturgo Christopher Hampton levou essa reflexão sob o rigor do teatro elizabetano as telas ao escrever o roteiro de “Shakespeare Apaixonado”.