Arraste-me para o Inferno

Avaliação: 4.5 de 5.

Drag Me to Hell, 2009

Sam Raimi pode ter se popularizado com a trilogia do Homem-Aranha, mas ninguém é mais extravagante para filmes de horror do que o próprio. Sim, ele rodou a trilogia Uma Noite Alucinante, e criou situações impagáveis como a da mãozinho boba que, após decepada, brinca de esconde-esconde com o dono (o impagável Bruce Campbell) como numa aventura de Tom & Jerry. Pois neste Arraste-me para o Inferno, um capeta olha para a casa da heroína Christine (Alysson Lohman) como se fosse um brinquedinho, chacoalha o recinto e ameaça puxá-la para fora na unha.

E o terrível é que não vemos pelo ponto de vista do Coisa Ruim, mas da mocinha acuada. E nunca sabemos de que lado o demônio vai entrar.

Antes disso, porém, há aquela introdução calma, típica de filmes de horror. E a normalidade só é abalada quando uma velha cigana caolha (Lorna Raver, que parece estar se divertindo a beça no papel) entra num banco para renegociar o prazo de vencimento de uma dívida. Ninguém quer chegar perto da senhora com verruga na ponta do nariz, asma, rouquidão e outros pruridos; quanto mais segurar a onda da hipoteca da cigana. Aí Christine entra em cena e advinha o que faz?

Justamente o contrário do que esperamos. Recusa a estender o prazo da dívida e a cigana quase tem um troço.

O filme parece a vingança de Raimi contra os banqueiros que tomaram Hollywood de assalto nos últimos anos e deixaram os estúdios à mercê de suas vontades. “Quer fazer um filme? Vamos ver as garantias!” Felizmente, por mais que odeie essas figuras sensíveis a números e insensíveis a arte, Raimi sabe que é maior que tudo isso. Assim não perde tempo em fazer uma declaração de princípios. Aproveita a piada do banco e roga uma maldição contra os financistas.

Sua, não, quem lança a maldição é a cigana. Humilhada, ela roga a praga na bancária e pronto. Até as sombras começam a perseguir a coitadinha.

É claro que inicialmente a mocinha não acredita nem em mau olhado, e reage às manifestações como se tivesse vendo um espetáculo de variedades. Mas depois o bicho pega e é uma beleza. Fantasmas travessos e repelentes aparecem de qualquer lugar para anunciar que o Lâmia, o rei dos demônios, vem buscá-la em três dias. E não adianta padre ou a benção de Deus para cortar a zica. Recusa de crédito a uma velha é imperdoável.

Arrasta-me tem uma ironia excêntrica e contagiante. Primeiro, pela forma como vemos Raimi sair do terreno do merchandising, um segmento feito para vender as quinquilharias dos licenciados e que esvazia todo aquele prazer que obtemos assistindo ao filme. Momentaneamente ele dá de ombros para as megaproduções e se propõe a resgatar a satisfação perdida.

A satisfação que ele tinha quando rodou o primeiro Evil Dead, um filme feito com parcos recursos e que não tinha medo de deixar a precariedade transparecer em cada cena. A pobreza dos efeitos especiais era parte da piada. Arraste-me para o Inferno, não chega ao mesmo nível, mas passa bem perto. Emprega o que Raimi chama de todo o pacote de truques, incluindo bonecos e ventiladores, mas ele não resiste a inserir imagens geradas em computador em algumas cenas. Afinal, de algumas conquistas não dá mesmo para abrir mão.

Mas uma vez em seu terreno, ele regurgita em cima das fórmulas da indústria. Busca personagens e situações difíceis, cheias de arestas e vários ângulos de observação. É também hábil criador de clima. Recorre aos velhos e aposentados suportes da época da trilogia Evil Dead, a “Shakycam”, a “Ram’o’Cam”, a “Sam’o’Cam”, para deslocar a câmera em tremenda velocidade, nos ângulos mais improváveis, atravessando portas e vidros. O estilo visual, a ambientação, a música, tudo conflui para uma certa instabilidade.

Entretanto, nada disso teria graça sem o gozo pela paródia de Raimi. Os demônios riem e falam como bonecos de desenho animado e as vítimas, trapalhonas, a todo momento sofrem solavancos, batem com a cabeça em portas e janelas. Talvez esteja aí a autenticidade de Raimi com o terror. O que ele espia e expia em sua representação da violência, da maldade incessante, é a estupidez.

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