As voadoras cinéticas de Yuen Woo Ping

Se as artes marciais têm algo a ver com a tradição dos musicais, em Kill Bill, Uma Thurman brinca de Cyd Charisse, e o coreógrafo Yuen Woo Ping banca Vincente Minnelli, na forma como movimenta seus lutadores. Tarantino é mesmo enciclopédico, Charisse e Minnelli foram os expoentes máximos dos musicais dos anos 50, e Kill Bill é o mais próximo que o cinema da atualidade  chega deste mundo refinado do passado. Claro que não é só por isso que as artes marciais vistas em Kill Bill impressionam: o grau de sofisticação e a utilização de fios chega num estágio (em algumas cenas os atores ficam com o corpo preso em até cinqüenta e oito pontos), que o efeito do vôo dos dragões dispensa muitas vezes a computação gráfica.
Deve-se frisar que esse primor de concepção das lutas tem todo um histórico anterior. E Yuen Woo Ping é uma referência emblemática quando pensamos em filmes do gênero. No Ocidente, Yuen coreografou as cenas de luta do suntuoso Os 47 Ronin, do fantástico Matrix, mas seu trabalho mais genuíno vem do Oriente e começa lá atrás com o seminal O Mestre Invencível (de 1978), passando pelo épico Era uma Vez na China (1991), o equilibrado O Tigre e o Dragão (2000), o cômico Kung-Fusão (2004) e o lírico O Grande Mestre (2013).

Yuen nasceu na China em 1945. Seu pai, Yuen Siu Tin, era professor da Ópera de Pequim e formou toda uma geração de novos artistas, de Jackie Chan a Sammo Hung, de Jet Li a Yuen Biao, e Yuen respirou toda essa transformação. No final dos anos 1960, trabalhou como ator em dois clássicos produzidos pelos irmãos Shaw: O Espadachim de um Braço Só (1966) de Chang Cheh, e O Boxeador Chinês (1970), de Yu Wang. Quando completou 25 anos, Yuen já ambicionava fazer filmes que traduzissem o cardápio extremamente rico e abrangente das artes marciais no cinema.

Existe, aliás, uma tendência da nossa parte, de considerar as modalidades de luta de forma genérica – mas só para se ter uma idéia, as artes marciais chinesas, subdividem-se em centenas de estilos; diz-se que só em Hong Kong, existem mais de 360 estilos de Kung Fu. E, em alguns casos, a diferença é gritante, como o Kung Fu originário do norte da China ancestral e o praticado no sul do país. Os lutadores das regiões montanhosas, do norte, possuem pernas bastante fortes, habituados aos exercícios no solo acidentado, e, por isso, desenvolveram técnicas voltadas para o domínio dos membros inferiores. Já os habitantes do sul, que vivem sobre as barcas, se especializaram no uso dos membros superiores, por causa da flutuação que exige o apoio das pernas. Os habitantes do sul também desenvolveram os membros superiores, devido ao trabalho nas plantações de arroz. Deve-se também levar em consideração as influências religiosas que dividem os estilos do sul e do norte, com os pensamentos confucionistas e taoísta, mas aqui entramos num terreno cultural complexo demais, que não cabe desenvolver, mesmo por que o espectador comum está interessado no espetáculo.

E o fato é que Yuen se especializou em novas técnicas de mostrar a luta, sobretudo no estilo WuXia, aquele em que os lutadores levitam. Seus números se caracterizavam pelo grande impacto visual e pelo requinte de detalhes. A coreografia para Yuen não prevê só o movimento dos atores, ele coreógrafa os movimentos de câmera, seja filmando um confronto simples entre dois lutadores, ou uma luta que envolve centenas deles. O auge ilustrativo desse estilo pode ser visto em Kung-Fusão, em que, com uma câmera, centenas de lutadores evoluem pelo cenário, formando elaborados desenhos geométricos e caleidoscópios humanos.