Atire a Primeira Pedra

Destry Rides Again (1939)

Avaliação: 4.5 de 5.

Quando em 1939, a Lola Marlene Dietrich – arquétipo da mulher perversa, destruidora de lares e de reputações alheias – rodou seu primeiro western, sua condenação ao purgatório parecia inevitável. Na lógica do happy end, o destino de Frenchy, a divina cantora que Marlene desempenha em “Atire a Primeira Pedra”, é terminar nos braços do xerife Destry (James Stewart). Mas a lista de antecedentes –  ela participa do crime organizado na região, além de ser amante do chefe da quadrilha (Brian Donlevy) – obrigam a mulher a cumprir uma série de benfeitorias para conquistar o coração do homem da lei.

Na vida real não era diferente. A relação estreita com seu mentor Joseph Sternberg (parceiros em filmes como “O Expresso de Shangai” e “A Imperatriz Galante”) custou-lhe um processo movido pela esposa do diretor responsabilizando Marlene pela completa falta de interesse sexual do marido em casa. O assunto ganhou as manchetes o que foi ótimo para os negócios e péssimo para a vida afetiva da atriz. Marlene trouxe o marido e a filha da Europa tentando amenizar sua reputação, ganhou o processo, mas o estereótipo de mulher andrógina, devoradora de homens e mulheres, rendeu o divórcio, e a infelicidade de ser tratada como uma fraulein perversa, destruidora de corações ingênuos, pelo resto de sua vida.

Sorte Marlene ter se deparado com o diretor George Marshall em “Atire…”. Ele tira com maestria o peso deste estereótipo dos ombros da atriz. Realizador subestimado de musicais e comédias, Marshall era um artesão do cinema mudo que aprendeu o ofício rodando mais de 60 filmes para Mark Sennet. Pertencia aquele grupo de cineastas que lidava bem com todas as etapas da pré a pós. “Eu trabalhava com o que aparecia, fiz direção de arte, fui cinegrafista, filmei e cortava alguns de meus filmes na tesoura mesmo quando não havia a moviola de edição. Os novos não tinham essa experiência”, contou numa entrevista.

Essa dinâmica de tocar um filme sem cerimônias, fosse com uma logística de superprodução, como o de “Atire a Primeira Pedra”, ou um faroeste B como “O Renegado do Forte Peticoat”, não afligia Marshall. Era trabalho e ele executava muito bem, sempre inventando tiradas cômicas para dar molho ao todo.

E o resultado é uma delícia de ver. A destemida Frenchy trai a quadrilha, faz as pazes com as beatas da cidade de Bottle Neck e é responsável pela insurreição feminina, uma situação muito peculiar para um western. Frenchy incentiva as esposas a parar um tiroteio a vassouradas, para evitar a viuvez maciça que uma barricada armada por cidadãos contra a numerosa quadrilha de Donlevy prenuncia. E ainda canta, dança e se joga na frente do xerife para salvá-lo de uma bala.

Mas o melhor, Marlene continuou a ser uma das atrizes mais bem pagas do cinema e a nova imagem de mulher regeneradora fez a Legião de Decência criada pelos bispos do país para combater filmes inconvenientes e imorais, aliviar as cobranças sobre a atriz.