Bob Fosse era a cobra do Jardim do Éden

Da esquerda pra direita: Cenas de Dá-Me um Beijo, Cabaret e abaixo, O Show Deve Continuar

Isso mesmo, se houvesse uma forma de personificar em bicho o que Bob Fosse representou para os musicais, uma serpente se ajustaria perfeitamente ao homem. Não por acaso, ele incorporou o papel de animal sinuoso na adaptação de “O Pequeno Príncipe” (1974). E a Charity de Shirley MacLaine foi a sua Eva. As coreografias de Fosse eram sincopadas, dançarinos estalavam os dedos e não pareciam seguir a música; a música que os seguia e eles a pontuavam. E, claro, em Fosse sempre havia um impulso malandro e malicioso. Quando ele resolveu levar a adaptação do musical da Broadway, “Sweet Charity” para as telas parecia que estava dando a maça do paraíso para Shirley MacLaine.

Charity parecia uma prostituta real, não aquela da imaginação que o cinema antes difundia. E Fosse passeava com a câmera pelas ruas da noturna Nova York e usava os inferninhos genuínos como cenários, o que imprimia um ar de melancolia ao gênero.

Ruptura era palavra de ordem no dicionário desde que Fosse apareceu a primeira vez nas telas como dançarino. Ele entrou dando literalmente uma derrapada num número musical de “Dá-Me um Beijo” e todo mundo percebeu  que alguma coisa nova estava acontecendo ali. Esse você pode encontrar disponível em DVD. Saiu pela Warner e o número de Fosse não dura dois minutos na tela. Mas é revolucionário.

 “Cabaret” propiciou nova virada subversiva. A história se passava nos anos 30 e Fosse exibia seus artistas do palco como bonecos exibindo uma alegria amarga, que embutia modos e costumes da ascensão nazista ao poder. Os holofotes pareciam vigiar a Sally Bowles de Liza Minnelli, mas ela não estava nem aí. Sua paixão pelo canto e pela dança era o que importava e ela irradiava tanto esse prazer que atraia os olhos de cobiça de homens, mulheres, gays e afins. Fardados ou sem disfarces.

Ah, e o filme tinha Joel Grey como um bizarro mestre de cerimônias. Ele fitava a platéia e dava uma gargalhada ambígua. Era o artista perigoso porque  a SS não sabia se ele ria para o regime, ou se ria do regime.

Aqui alguém até pode me corrigir, dizendo que estou colocando os verbos no passado, quando a ação dos filmes continua sendo executada no presente, afinal o registro cinematográfico tem um quê de eterno, mas no meu caso é passado, porque me baseio em lembranças, e não tenho os filmes na mão para fazer o tira-teima. Aliás, estou bem tentado a comprar a versão importada de “Cabaret”.

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De “Lenny” e “Star 80” minhas lembranças são tão remotas que prefiro nem me arriscar a comentar. Consta que “Lenny” saiu em DVD, mas eu nunca vi em lugar nenhum. Já “Star 80”, o derradeiro trabalho do homem, tenho certeza que não saiu por aqui.

De “O Show Deve Continuar” posso falar no presente, porque tenho para ver e rever no meu acervo. É o filme mais pessoal do Fosse e traz Roy Scheider como seu alter-ego. Scheider é Joe Gideon, o coreógrafo e diretor, cuja incorruptibilidade o alienou de Hollywood. Então ele tenta fazer valer na Broadway o talento para o qual o pessoal de cinema lhe deu as costas.

Interessante que a visão de Fosse para o artista não tem nada de romântica. Gideon é visionário, tem mil idéias, mas tem dificuldade de organizá-las e é chegado num rabo de saia. Por uma mulher, larga tudo. Assim pega um mundo de coisas para fazer e se entope de estimulantes para entregar tudo no prazo.

“O Show Deve Continuar” é uma obra meio felliniana. Como em “Oito e Meio”, o protagonista divaga sobre sua vida de criador numa maca de hospital. E bate o maior papão com a Morte (vivida por uma sedutora Jessica Lange). O cineasta adorava tanto Fellini, que é possível encontrar outras conexões fáceis, como em “Charity, Meu Amor”, que é claramente inspirado em “Noites de Cabíria”.

Apesar de termos um herói à beira da morte em “O Show Deve Continuar”,  as imagens e os presságios que se retém são  bem-humorados, eróticos e musicais. Sim, quando os personagens não conseguem dizer o que sentem, eles dançam, e há alma naqueles braços, naqueles pés, e nos estalos de dedos.

Enfim, a aura de magia e as ironias no âmago do filme, contribuem para sua estatura. E. pelo menos esse Bob Fosse, eu tenho na mão para admirar. Mas acho que todos nós, cinéfilos, devíamos mentalizar com força sobre a presença dos filmes desse grande mestre na cabeça desses programadores de canais de streaming. Como são miolos moles, quem sabe nossa força funciona por indução.