Bravura Indômita

Avaliação: 5 de 5.

True Grit, 2010

Esse remake é muito superior ao faroeste homônimo que deu o Oscar para John Wayne em 1969. Os irmãos Joel e Ethan Coen são mais fiéis ao humor sarcástico do autor do livro, Charles Portis. Adoro John Wayne e o herói de cartolina que ele representa no imaginário norte-americano, mas deve-se admitir que o antigo “Bravura Indômita” não era mais que a história de um velho pistoleiro zarolho e beberrão correndo em auxílio de uma órfã, para prender o sujeito que matou o pai dela.

Não estou querendo dizer com isso que um diretor como Henry Hathaway ou uma roteirista como Margherite Roberts não tinham noção do que faziam. Mas que, se tentavam passar algo, sabiam que só podiam ir até certo ponto.
graças a Deus, os tempos mudaram e, os Coen mergulham no texto de Portis com a mesma verve inspirada e economia narrativa que admiramos antes em “Fargo” e em “Onde os Fracos Não Tem Vez”.

Agora, no lugar de Wayne, temos ninguém menos que Jeff Bridges vivendo Rooster Cogburn. Ao contrário do anterior, o de Bridges não tem simpatia humana alguma. É um pistoleiro corroído pela miséria, solidão e doença. Frustrado, mal humorado, resmunga, se coça e vomita sem a mínima elegância. E a falta de cerimônia com que Jeff mergulha neste bagaço ambulante é contagiante.
Na primeira cena em que trava um diálogo com a pequena Mattie Ross, nem o vemos. Só ouvimos sua voz cavernosa e imaginamos o velho pistoleiro sentado numa latrina. A menina bate na porta do banheiro e é bem direta: ela precisa de alguém corajoso para capturar o assassino do pai e pensou nele. Rooster ralha lá dentro e a mocinha insiste em esperá-lo. O velho pragueja mais uma vez, e ela só arreda o pé quando ele ameaça usar o revólver.

O filme é todo assim. Cada vez que um personagem entra em cena, cria-se a expectativa de um tiro. De onde o disparo vai partir e porquê são questões mais complicadas de responder. Mas de fato esse me parece um dos motivos pelos quais Bravura Indômita é um grande filme – porque tanto a menina como os cowboys não estão ali para cativar o espectador com suas aventuras. Ao contrário, eles perturbam e complicam nossas reações.

O filme é burlesco, violento e cruel, mas não há nada em cena que nos distancie das  emoções imprevisíveis típicas. A comédia está no abuso de autoridade de quem possui uma arma. Seja um xerife ou um pistoleiro, a razão fica com quem atira melhor. A graça  está nas desarmonias da gaita do caipira sem dentes, na imagem surreal de um cowboy vestido de urso e no despropósito de matar alguém por causa de um riso errado.

Três homens são enforcados em praça pública e Mattie contempla a sentença com um sorriso de prazer. Depois diz num tom maquiavélico: “Se queremos que uma coisa seja feita como deve ser, temos sempre de nos encarregar pessoalmente do assunto”.

O sentimento de vingança da mocinha ganha ares de piada e ao mesmo tempo é terrível. É curioso ver como Mattie segue em frente com seu plano. Convencer o homem a auxiliá-la, além de garantir transporte e outros imperativos logísticos, entusiasma a mocinha e a faz se sentir importante. Afinal, exige dela uma considerável série de negociações e semi-chantagens, ao longo da qual ela se revelará mais adulta do que muitos dos adultos que enfrenta.

 Os Coen mostram o respeito devido a todos os ressentimentos incoerentes e aspirações grandiosas, sem tentar rasurar a sua capacidade para o ridículo. Pensar em si próprio formalmente é a característica dominante de todas as personagens dos filmes destes irmãos, uma formalidade descabida que faz com que muitos diálogos soem como ruminações explosivas e engraçadas. Taí uma coisa extremamente difícil de conseguir: ser revelador sobre pessoas sem auto-consciência e ser engraçado sobre pessoas sem sentido de humor. 

Terrivelmente engraçado também é a tentativa de reencontro de Mattie com o seu parceiro de aventura 40 anos depois.  O octogenário “Rooster” faz parte de um espetáculo itinerante chamado “Oeste Selvagem”, onde mostra “a sua perícia e ousadia com o revólver de seis tiros e a espingarda de repetição”. Tudo indica que vamos ver um glorioso reencontro, com direito a imagem de pôr-de-sol ao fundo. Seria assim mesmo num projeto de qualquer outro diretor americano, não de um filme dos irmãos Coen. Esses preferem um anti-clímax. Optam pela imagem de um Oeste  desbotada. Aliás, bem mais ocre que no resto do filme. Nas cenas finais tudo parece velho, feio e apodrecido.

Então temos uma surpresa que não convém contar, mas que está bem dentro do espírito do livro de Portis e do cinema dos irmãos. Esqueça a nostalgia de Ford, Hawks e outros grandes do gênero. Os Coen dão de ombros para qualquer nostalgia.