Caçador de Assassinos

Avaliação: 4.5 de 5.

Manhunter, 1986

Câmera indecorosa a que Michael Mann utiliza em Caçadores de Assassino. Na calada da noite, invade o lar sereno de uma família típica americana, bisbilhota os cômodos, revira armários e chega ao lugar mais íntimo, a cama do casal. A mulher acorda e… Corte para a imagem de dois homens sentados sobre o tronco seco de uma árvore. Eles conversam, mas que papo é esse onde um mal olha nos olhos do outro? Cada um tem o rosto virado para um lado, como que dizendo que o olhar que ambos possuem das coisas diverge. Então a história se desenha: Will Graham (William Petersen) vive aposentado na Flórida, de onde está sendo convocado por seu velho chefe no FBI, Jack Crawford (Dennis Farina), para ajudar os federais a rastrear um assassino que acaba de massacrar duas famílias inteiras de maneira idêntica e que certamente vai atacar outra vez na próxima lua cheia.

Graham é o cara certo para liderar a investigação. Tem uma capacidade incomum de adaptar-se à mentalidade de assassinos, de pensar como eles e prever cada passo que darão.

Mas comete uma loucura, exige um encontro  com  um psicopata ilustre, Hannibal Lecktor (Brian Cox), que o FBI tem trancado sobre sete chaves. Hannibal é um sujeito temido por todos, mas ele ajudou Graham no passado e pode ter algum “insight” sobre os métodos do assassino conhecido como Fada dos Dentes.

Sim, esse é o filme que marca a entrada de Hannibal Lecter, o psicopata criado pelo escritor Thomas Harris no cinema. E também o que inaugura uma nova vertente de thrillers que terá extrema popularidade no cinema e na TV: o filme de investigação forense.

Esse subgênero trouxe algo diferente pro cinema. Convidava o espectador a ultrapassar a fita de isolamento do crime e participar da coleta de cada pequena evidência, de um fio de cabelo a uma amostra de sangue, da análise dos objetos espalhados ao exame do corpo da vítima. Com seu estilo narrativo,  Mann ajudou  a criar a inocongrafia do gênero.. De cara, o  que o diretor oferece, em Caçadores de Assassino, é uma câmara clássica, suave e sutil, que adora colocar-se atrás das costas das personagens – “manobra” típica do diretor –, conferindo ao espectador uma “visão de espaço” esteticamente assombrosa.

Mann, que além da direção, assina a adaptação do livro de Harris, arma cada cena, cada movimento dos atores, cada diálogo como se fosse um perito do CSI. Até um ínfimo detalhe, a grafia Lecktor, em vez de Lecter, é pensada. O diretor queria impor um caráter cerebral fascista ao consultor, daí pensou em batizá-lo como Lecktor, que vem do alemão.

Assim somos jogados num contexto inusitado, e com um protagonista, Will Graham, igualmente estranho.  É um sujeito tão fascinado pela loucura que, ao se colocar no papel para entender os crimes mais inexplicáveis, acabou entrando numa crise de identidade profunda e sendo internado num hospício. Foi o que levou-o a deixar a carreira. Isso até aparecer um novo assassino, movido por uma psicologia distorcida e indecifrável segundo o modo de intuir do FBI.

A volta de Graham ao terreno das investigações é comemorada pelos federais, mas para ele mesmo é muito delicada, porque representa a retomada a um labirinto que ele já se perdeu uma vez. Usar a determinação do protagonista para nos desequilibrar será apenas um dos pequenos prazeres saboreados por Michael Mann.

Outro é parar a investigação no meio, para de repente nos mostrar o assassino e mais que isso, desenvolver sua história íntima. Francis Dolarhyde (Tom Noonan), que Lecktor chama de “menino tímido”, é um solitário estranho cujo rosto é desfigurado por uma cicatriz  que rasga do nariz ao lábio.

Boa parte do entrecho explica o pano de fundo psicológico de Dolarhyde, que sofreu abusos terríveis quando criança e para quem o assassinato em série  é um dos elementos principais de seu esforço de autotransformação.

Admirador de Lecktor e do poeta místico William Blake, Dolarhyde não sabe o que fazer com o afeto que lhe é manifestado por Reba McClane (Joan Allen), sua colega cega num laboratório de filmagem . A  vulnerabilidade da cega só não é maior do que sua abertura emocional e capacidade de compreender as inseguranças do assassino.

Enquanto o matador maluco se estressa, tentando pensar o que fazer com Reba, e Graham vai pouco a pouco se cercando de sua presa, Lecktor, sentado em sua cela fortificada, astutamente joga um contra o outro, fornecendo informações picadinhas ao agente do FBI ao mesmo tempo em que passa para o assassino dados que põem a família de Graham no primeiro lugar de sua lista de próximas vítimas.

Além do clima de demência que permeia a ação o tempo todo, o que mais impressiona em Caçador de Assassinos é a engenhosa  presença de Mann que se sente em todos os movimentos de câmera. A câmera é invasora e não tem respeito a nenhum código de ética. Num único movimento é capaz de revelar os extremos do prazer e da repulsa.

Como na cena da invasão da casa no começo, ou no momento em que Reba pede licença a um veterinário para passar a mão num tigre dopado, enquanto, Dolarhyde a observa admirado. Reba que vive na escuridão de uma cegueira, não tem medo de feras. O ato de enfiar a mão dentro da boca do tigre, quase extasia Dolarhyde pela conotação erótica. Depois na cama a cega diz para o assassino o quanto ela se sente atraída pelo doce e pelo rude ao mesmo tempo.

Mas tudo caminha pela antevisão de um fantástico conflito, entre Graham e Dolarhyde, fiel a mais eletrizante tradição dos velhos westerns. Os dois correm um contra o outro gritando e Graham atravessa uma janela para socar o assassino. O que não conta é com a habilidade do outro em usar um caco de vidro como faca.

Graham terminará o filme com o rosto cortado. Voltará para a família no final, mas vai levar essa cicatriz. Final feliz? Todos sorriem, mas o sorriso do herói parece distante. O corpo voltou para casa, mas a mente, ah, a mente continua projetada em outra coisa E o que seria? Como diz Lecktor a certa altura: “Sabe por que você me pegou? Porque você parece comigo. Você pensa como um assassino, só falta um empurrão para ser igual a mim, não é?

O corte desfigurando o rosto de Graham talvez sirva para enfatizar, como a identidade do herói está dividida em duas metades.

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