Clube da Luta (1999)

Avaliação: 4.5 de 5.

Não parece provável que um filme que apresenta repetidas cenas de homens levando surras homéricas possa funcionar em tantos níveis, mas funciona: emocionalmente, fisicamente, visceralmente e intelectualmente. Para a geração dos anos 1990, Clube da Luta é admirado quase como uma experiência ritual. Um nocaute anticonformista contra a América capitalista, que infelizmente se desatrelou de seu significado dramatúrgico e passou a ser percebido como princípio de vida. Um fenômeno cultural que no Brasil encontrou sua vazão violenta no episódio do estudante de medicina que entrou no cinema durante uma sessão do filme e atirou em várias pessoas, segundo ele, motivado pelos ideais que via na tela.

Era para tanto?

Basta uma rápida navegada na rede para constatar que, mais do que debater os valores do filme, existem centenas de sites dispostos a encontrar sentido e referência nos “mandamentos” de princípios do que chamam de Evangelho de Tyler Durden, o personagem anticapitalista que no cinema foi representado por Brad Pitt.

Há algo de ordinário, de indecente por trás desta parábola sobre a ansiedade do individuo pós-moderno, enroscado em suas gadgets tecnológicas como se fosse uma marionete. E essa indecência, ao mesmo tempo que indigna,  nos induz a uma tomada de posição.

O estilo, na verdade, já vem do livro homônimo de Chuck Palahniuk, um autor cultuado pelo jeito como usa o humor corrosivo para golpear a sociedade de consumo, o american way of life, e pela forma como sacode o leitor, pedindo para ele despertar.

O personagem central e anônimo, ao qual somos apresentados como O Narrador (Edward Norton) é um autômato de dia e um zumbi de noite. Dá duro num trabalho bem pago, mas chato e moralmente questionável (ele gasta seus dias ajudando empresas de seguro a não pagarem seus clientes). Depois segue para seu apartamento, repleto do máximo de mercadorias ao estilo yuppie que ele pode comprar, e curte a futilidade. Esse, aliás, deve ser o primeiro filme no qual um sujeito fica excitado com um catálogo de fabricante de móveis. Depois fica acordado, num estado catatônico provocado pelo tédio, traumatizado demais até para trocar o canal em sua hipermoderna TV.

Esse“herói” está tão desesperado por contato em seu mundo de alheamento que começa a frequentar diversos grupos de autoajuda, onde as ligações se fazem automaticamente. É num grupo de apoio a sobreviventes de câncer nos testículos que o narrador conhece Marla Singer (Helena Bonham Carter). Marla, ao mesmo tempo que o incomoda com sua melancolia, o seduz, e ainda que seja dificil compreender uma mulher que vomita quando tenta fazer amor com ele, ela vira sua namorada.

Ele também tem a mania de puxar conversa com estranhos em aviões. E é num avião que ele conhece Tyler Durden (Brad Pitt), um vendedor de sabonete que, aparentemente, não usa o produto que vende e tem algumas ideias interessantes sobre o que está certo e errado com a sociedade.

Marla e Tyler. Um o levará à beira do abismo, o outro o impedirá de pular.

Se existe algo em Tyler que conforta o Narrador é o fato de que está sempre preocupado em arrancá-lo do estado de letargia. É assim que Tyler propõe o tal Clube da Luta, no qual homens com empregos inexpressivos e subalternos assumem o controle de suas vidas organizando lutas sem luvas nas quais se batem como bestas. O objetivo do Clube da Luta não é exatamente vencer, mas sentir, porque a dor supera o adormecimento que esses cidadãos vivenciam todo dia. É a suprema catarse. Bater ou se encher de murros como escape para liberar toda raiva, toda revolta contida. Mas, e sempre existe um “mas”, um dos problemas é que Tyler, em particular, não sabe quando parar. Quando o grupo secreto ganha uma adesão maciça, o alucinado Tyler decide formar uma organização regida por suas ideias reacionárias: o Projeto Mayhem. Para Tyler, trata-se de um exército, e o inimigo deles não serão os governos, mas sim as corporações, que tudo controlam.

Analisado em termos cinematográficos, o diretor David Fincher continua a mostrar sua habilidade para criar outros mundos que existem dentro do nosso. Não só, ele demonstra que está se divertindo, ao reproduzir os bordões, a linguagem feroz e irônica, as constantes inversões no tempo da narrativa de Palahniuk. E seus atores estabelecem a cumplicidade com o público. Norton, o Narrador (que já usou tantos apelidos que acabou esquecendo o próprio nome), tem uma interpretação matizada por reversos – uma combinação de ligado e fatigado, preguiçoso e irado-  – bem intrigantes.

Como Tyler, Pitt não deixa por menos – anda de um lado para o outro, feito um tigre enjaulado, e mesmo que às vezes desafine no discurso e banque o exibicionista, é preciso admitir: ele derruba o americano medíocre que vive em cima do muro.

O filme, entretanto, evolui para um discurso ideológico um tanto tortuoso, e esse divide opiniões. Apesar de acreditar que a arte reflete a violência da sociedade e não vice-versa, o filme fomenta as manifestações mais selvagens do espírito de facção. O Projeto Mayhem funciona como salvo-conduto para agredir, tombar carros, jogar bombas, fazer arrastões.
Nada diferente, portanto, do que faziam – e ainda fazem – milícias paramilitares fascistas pelo mundo afora. E, é preciso ser míope para não ver ao que o reacionarismo da facção do filme nos leva. Essa animalidade a flor da pele, contudo, às vezes é colocada de forma patética pelo diretor, o que desarma qualquer tipo de apologia. Basta ver a qualidade dos homens que pertencem a organização, em sua totalidade, são brancos – e não muito espertos – e um dos poucos sujeitos no filme que não se deixa enganar é o detetive negro, que está tentando descobrir porque o prédio do narrador explodiu.

A percepção seletiva é algo poderoso, e as pessoas tendem a tirar o que querem dos filmes. Clube da Luta é cautelosamente planejado para esse tipo de visão; é um filme tão abarrotado de ideias que usa os dois cantos de sua boca para expressá-las. Trata-se também de um filme de machões que se transforma numa história de amor entre homens e sobre homens (é engraçado ver Pitt e Norton brigando sobre o modo de dirigir de Pitt em uma cena). Um filme que usa uma mulher para ajudar o herói voltar a entrar em contato consigo mesmo, mas que a ignora até que precisa chamá-la do banco de reservas. Um filme que ri de nós por vestirmos roupas de grife, e depois joga outros tipos de merchandising na nossa cara. Um filme anticonsumista realizado por um sujeito que fez seu nome com um vídeo musical de Madonna, um filme anticorporações feito por um estúdio cujo dono é Rupert Murdoch.

OK, não há como o filme escapar ileso a tudo isso, mas Fincher é mais inteligente do que inicialmente parece ao lidar com as contradições. Existe aqui uma recusa em refugiar-se nas explicações sumárias ou na postura moral fácil. Fincher propõe uma outra forma de apreensão do livro de Palahniuk, uma abordagem artística e sensorial, uma forma que mistura conceito e liberdade, rigor e crueldade que respinga nos patrocinadores. Conta-se que havia uma cena no roteiro que estava previsto explodir uma loja da Starbuck, uma das patrocinadoras do filme. Os dirigentes não permitiram que a logo entrasse, mas mesmo assim Fincher explodiu o café e ficamos com a sensação que foi uma Starbuck, porque a marca aparece tantas vezes no filme, que mesmo que não apareça aqui, sentimos a percepção de que foi uma lojinha da marca que foi pelos ares.

Sons, objetos, imagens, esses efeitos, entretanto, não servem a nada sem o ser-humano. E Fincher nunca descuida dos atores, nem dos personagens. Tanto Tyler como o Narrador são construídos com uma complexidade obsessiva. Ainda que por vezes sejam desagradáveis e extremamente violentos, essas explosões são o resultado das experiências em perceber os limites da exaltação jovem e rebelde. Reparem como os personagens alternam a mais profunda compai­xão com a mais implacável agressividade. O carinho e a rispidez.

Tyler não é um monstro, bem como o Narrador não é um santo. São humanos e ambíguos, como nós. E é isso que inquieta e incomoda. Estamos longe, aqui, da fantasia maniqueísta e apaziguadora. E muito próximo do debate. Sabe-se que Fincher, em alguns momentos, instruía aos atores para exporem as contestações dos personagens olhando para a câmera,ou seja, para o público, rompendo a pretensa encenação, para nos incluir no centro da discussão. Isso não só é uma ideia completamente contrária ao fascismo, movimento que prega uma única maneira de ver e de ser, mas dá uma demonstração do quanto Fincher acredita no poder de pluralidade do cinema.

Ninguém superou essa percepção nos anos 1990. Com Clube da Luta, Fincher conferiu um rosto à sua época.