Consciências Mortas

The Ox-Bow Incident, 1943

Avaliação: 5 de 5.

Muita gente pensa que essa onda do cinema independente norte-americano é um fenômeno atual, mas em 1943 Henry Fonda usou seu poder de astro para levantar a produção de um western sobre um caso verídico de linchamento que nenhum estúdio tinha interesse em fazê-lo. O produtor Daryl Zanuck estava preparando sua partida para o front (sim, ele queria respirar essa experiência na Europa!) e disse que um filme sobre um assunto tão duro, só faria sentido nas telas com William A. Wellman como diretor. E deu carta branca para Fonda tocar o projeto com Wellman e Lamar Trotti, um roteirista muito promissor (protegido de Dudley Nichols e John Ford), na adaptação do romance de Walter van Tilburg Clark.

Era um encontro raro de três funcionários audaciosos, que trabalhariam sem inspeção.

“Consciências Mortas” servia como veículo ao desejo do trio de observar aspectos degeneradores da democracia em plena época da Guerra. Em linhas gerais, o filme demonstrava a gênese de um linchamento e as várias facetas do tema da hipocrisia e moralidade que cercam sua execução. A suposta morte de um fazendeiro deixa uma pacata cidade de Nevada em polvorosa. Testemunhas afirmam ter visto três forasteiros rondando a região. E três desconhecidos são caçados, aprisionados e levados à sombra de uma árvore para serem julgados e executados. Gil Carter (Henry Fonda) é a voz relutante do tumulto. Mas sua eloquência não é capaz de revirar a situação (também é um forasteiro e as suspeitas recaem nele, antes das três vítimas serem detidas). A ideia da histeria da massa é organizada por Wellman como se fosse um coro grego, com sua energia retórica e vulgaridade, sua confiança ufanista cercando lentamente os três homens.

Wellman mantém o foco nesse cerco, os enquadramentos vão ficando mais apertados, enquanto em volta a multidão aumenta, até parecer que a cidade inteira está presente.

Continua um filme impossível de ignorar ou esquecer. Mas na época, ele dialogava com o patriotismo das massas. A campanha pró-militar reascendia o nacionalismo nos jovens e sua superioridade perante minorias étnicas. Havia uma noção nos EUA da Segunda Guerra de que o país podia ser unificado. Mas essa afirmação continuava subjugada a definição do século 19, de que a América era um país de brancos. A Política de Boa Vizinhança do governo Roosevelt com relação a América Latina tentava disfarçar a discriminação interna[1].

Os tumultos estavam estampados nas páginas policiais dos jornais e o alvoroço, a não ser por “Consciências Mortas”, manteve-se afastado de Hollywood. Na condenação sumária das três vítimas do filme um personagem chave é mexicano (Anthony Quinn). Ele sofre provocações ao ser interrogado e, ao orgulhosamente arrasar a ignorância dos caipiras falando um inglês polido, agrava sua posição. Seu sorriso trágico descortina a cegueira da multidão afoita em improvisar um julgamento e apressar a execução. Antes da sentença, porém, ele desabafa: “Não adianta explicar nada, vocês já definiram a sentença”. O patético se delineia mais tarde, ao perceberem que os três eram inocentes.

O filme não seria tão contundente não fosse a objetividade seca com que Wellman o comanda. Martin Scorsese afirma que ninguém flertou com o limite do desagradável como o cineasta. Steven Spielberg confirma que nos momentos mais violentos de “A Lista de Schindler” ele pensava em como Wellman, o poeta das sugestões brutais, resolveria aquela cena. E antes de rodar “O Resgate do Soldado Ryan”, admite que estudou os filmes de guerra do venerável ídolo, porque em sua opinião ninguém captou emoções mais legítimas. Wellman havia estado no front e sua forma de interpretar o sofrimento e a dor era única.

William August Wellman dirigiu mais de 76 filmes. Nunca foi uma unanimidade na indústria e entre a crítica. Várias vezes foi acusado de bruto, gélido e misógino. Estilisticamente era um diretor que tirava efeito do rigor, sendo estático nos enquadramentos, econômico na ação – com brigas e tiroteios vistos sempre por um viés. Politicamente ficou muito marcado como o autor de “Cortina de Ferro”, uma das principais peças de propaganda anticomunista feita no princípio da perseguição macartista. Muitos estudiosos o recriminam por essa escolha. Mas Wellman não era um fervoroso caçador de vermelhos. Não se filiava a grupos.

Era um ermitão apolítico, ou talvez fosse mais adequado chamá-lo de regionalista, pois encarava as máquinas como um cowboy admirando um mustang,  exaltava a origem rural do americano médio, seu trabalho, sua autenticidade e sua orgulhosa independência de espírito. Essa visão se contrasta com a classificação fácil de alguns guias que o reduzem a um hábil artesão de filmes de aviação. Ele odiava o estereótipo. Tinha uma predileção por histórias destituídas de otimismo e desprezava o romantismo como fator de motivação para o desenvolvimento da trama. Mas essa aparente secura ocultava uma emoção profunda, dada por personagens violentos, frios em sua revolta contra a mecânica da civilização, prontos para detonar o tabuleiro armado com rigor. Suas grandes telas, com texturas grossas estão carregadas de grandes blocos de desencanto e raiva. “Consciências Mortas” é uma soma de suas preocupações como artista. É sua obra-prima.

E a cena final exemplifica seu estilo. É magistral porque, no enquadramento, a aba do chapéu de Harry Morgan mascara o rosto de Henry Fonda, enquanto esse lê a carta de um dos homens que a multidão acabou de enforcar. As palavras são duras, o fantasma do inocente parece presente: “Não pode haver civilização sem consciência”, diz inconformado. “As pessoas não podem tocar Deus onde ele está, se não houver consciência”, clama.

Wellman devia achar que este algo era tão importante, e o momento era tão grande no filme, que ele deixa a câmera distante e alheia da intimidade dos protagonistas. Ele não permite essa intrusão, mas a máquina está lá girando, leve, serena, documentando tudo em silêncio e sem presa, para que o público continue sentindo a onipresença daquela voz. Um diretor que humildemente se anula perante o tema, merecia todas as congratulações dos produtores. O caso de amor e ódio de Wellman com Hollywood, contudo, era um dos mais célebres. E a falta de entendimento sempre foi marcado pela insensatez.

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[1] A Los Angeles do princípio dos anos 40 era habitada por 250 mil mexicanos e a segregação os manteve circunscritos aos guetos. No verão de 1943 marinheiros espancaram jovens de “el bairo” e a animosidade se alastrou com o revide de gangues chicanas. Estava claro que o entusiasmo em saquear não acontecia no front distante. Como medida preventiva, a polícia de Los Angeles prendeu seiscentos chicanos (nenhum recruta branco foi detido).