Crimewave: Dois Heróis Bem Trapalhões

Avaliação: 4 de 5.

Crimewave, 1985

Um dos filmes mais excêntricos da história do cinema norte-americano, Crimewave: Dois Heróis Bem Trapalhões, escrito por Sam Raimi em parceria com os irmãos Joel e Ethan Coen, toma Hollywood de assalto e promove o desarranjo tão sonhado pelos anarquistas. Raimi tripudia sobre os melodramas, sobre os filmes de terror, os musicais, o film noir, e contra qualquer tipo de verossimilhança. Só faltam derrubar o cenário e mostrar no que os alicerces de Hollywood são fundados: em papelão e fita crepe.

Em alta velocidade, um bando de freiras atravessa a cidade num Oldsmobile Delta (o carro fetiche do diretor). É madrugada e, no rádio, o noticiário relata que pela manhã, o temível Victor Ajax será executado na cadeira elétrica. As freiras parecem não ter relação com o caso, mas fazem o nome do pai e avançam com o carro pela noite. A ação se transfere para o presídio e vemos que o tal Victor Ajax, não passa de um abiloilado nerd (Reed Birney) se embolando para convencer o carrasco e o padre da extrema unção, da injustiça de caminhar pelo corredor da morte. Enquanto o homem dá seus últimos passos, entram lampejos de memórias, para explicar o que aconteceu.

Victor era só um vigia que teve a infeliz ideia de esbarrar em dois dedetizadores de ratos muito estranhos (interpretados pelo esguio e de olhos saltados Brion James e pelo gordo Paul Smith). A dupla anda pelas imediações numa perua com um slogan que dá pista do que realmente fazem: “liquidamos ratos de todos os tamanhos”. Acontece que o rato que eles foram contratados para matar, um certo Renaldo “The Heel” (Bruce Campbell, numa ponta hilariante) nunca está no lugar programado, então eles resolvem matar o contratante que, afinal, também não passa de um rato ardiloso. Mas então, enquanto executam a vítima, uma vizinha abelhuda testemunha o crime pela janela, e eles precisam matar a infeliz. E quando armam a cena para acabar com a enxerida, aparece o zelador do prédio, que ouviu barulhos, e esse também precisa ser morto. Mas, ao fazer isso, o matador dispara o alarme de incêndio, e então a comédia de erros se prolonga, porque novas testemunhas aparecem e a cadeia de mortes não se fecha.

Paul Smith, como o assassino grandalhão, tem muito de desenho animado. Aliás, todos os personagens são quase decalques de reconhecidos personagens de cartoons: o vigia tímido é, sem tirar nem pôr, o Hortelino Troca-Letras, o almofadinha Renaldo parece o gambá francês Pepe Le Pew. É o sujeito impecável, que mesmo num duelo de tortas, sai de cena sempre limpo. E Brion James e Paul Smith vão incorporando todos os tipos de vilões trapalhões: de Frajola ao brutamontes Brutus.

Nem o Lobo Mau escapa da homenagem: numa cena Paul Smith pede para uma vítima abrir a porta, e obviamente ela não obedece. Ele pede de novo: “Abra essa porta!”. Espera uns segundos, mas não há resposta, o que o deixa fulo. É então que ele atravessa a porta como se fosse papelão, Só não conta que atrás daquela porta há uma dezena de outras, numa visão em perspectiva que parece não ter fim. Mas tudo bem, ele continua avançando, arrebentando uma seguida da outra, numa perseguição que de repente ganha o ritmo e a graça de um musical, devidamente coreografado.

No fundo, o filme inteiro é uma sucessão de portas que se abrem e surpresas que se alinham e se desenrolam uma atrás da outra.  

Originalmente intitulado The Murders XYZ , esta foi a primeira vez de Raimi trabalhando com um estúdio real, e acabou por ser um desastre. O diretor descreveu como o pior momento de sua carreira, e Bruce Campbell relata em If Chins Could Kill: Confessions of a ‘B’ Movie Actor, as lembranças de uma sessão de inverno miserável em Detroit, com todos os tipos de interferência do estúdio. Inclusive o de vetá-lo para o papel de protagonista. Raimi e os Coen tinham escrito o personagem pensando nele.

E cada vez que o cineasta sofria uma represália, ele devolvia a ofensa de forma cinematográfica, deixava o roteiro e improvisava uma cena bem surrealista. Deste braço de ferro, saiu um filme contra a organização, contra o conformismo, contra a seriedade.

Crimewave está cheio de todos os tipos de momentos de pastelão, trombadas de desenho, efeitos sonoros ruidosos e histéricos, que não se esgotam.

A lista de experimentos é longa e cheia de ironias. Se em uma cena Raimi começa com o pé esquerdo, pouco importa, ele segue em frente porque o importante é a imaginação.

Há uma abundância de tiros e um conjunto de cenas tolas, que parecem feitas mesmo para não se encaixar em lugar nenhum, porque no fundo nada na vida se encaixa de forma lógica mesmo.

No final, o bando de freiras aparece de novo, como que dizendo, de uma forma mordaz, que só um milagre poderia salvar o filme de tanto puxa e estica com os estúdios. As freiras salvam o personagem da cadeira elétrica, e, ainda que Raimi diga que não, de certo modo, ele se salva também, porque Crimewave, com toda sua estranheza, é magnífico.