Darkman: Vingança Sem Rosto

Avaliação: 4 de 5.

Darkman, 1990

Cinema para Sam Raimi é movimento. E com O Sombra, o diretor pretendia injetar a uma adaptação de história em quadrinhos a mesma energia cinética que fez a glória de sua trilogia Evil Dead. A Universal e a Marvel não chegaram a um consenso sobre os direitos de produção e o filme não saiu. Raimi deu de ombros para os engravatados. Se não podia adaptar, porque não inventar uma HQ? Escreveu um bem bolado – uma mistura de A Múmia com O Fantasma da Ópera – a quatro mãos (o roteiro contou com a inestimável participação do amigo Joel Coen) e voltou à Universal com um storyboard de 250 páginas com plano a plano esquematizado nos pormenores.

Em Darkman: Vingança sem Rosto, o domínio de cena é pleno desde à abertura. Duas quadrilhas se encontram no porto e a câmera de Raimi, deslizando entre panorâmicas, tilts e zoom ins mostra rapidamente as características de cada grupo e suas motivações, antes de fechar a reunião num tiroteio espetacular. Dura menos de um minuto, mas é o suficiente para Raimi criar duas danças: uma delas, aliás, macabra e engraçada, porque envolve o perneta, que cedeu à perna mecânica, na verdade uma metralhadora, para o chefe começar a chacina. Ele fica pulando para se equilibrar numa perna só, enquanto envolta, a coreografia de homens tombando se desencadeia como numa trilha de dominós.

Quando baixa a poeira, a primeira providência do chefe é estender o braço para sustentar o homem de uma perna só. Basta meia dúzia de planos e sem a necessidade de diálogos, para Raimi definir a personalidade do vilão: o sujeito intocável, que só deixa em pé quem ele quer. 

Perto dali, desenvolve-se em paralelo a história do cientista Peyton Westlake (Liam Neeson). O doutor desenvolve em seu laboratório uma pesquisa de vanguarda, um tipo de “pele artificial” que pode revolucionar a indústria de cirurgias plásticas. Por acaso, ele também namora uma advogada chamada Julie (Frances McDormand) que trabalha em algo que não é muito bem explicado…mas enfim, desmascara uma tramóia de especulação imobiliária. O chefe da moça pretende construir um grande conglomerado de edifícios e  Julie tem alguns documentos que comprovam que ele pagou propina para chegar a seus objetivos. Ela esquece os tais documentos no laboratório do Dr. Peyton e, quando os capangas chegam lá para pegá-los, destroem o laboratório do cientista e o queimam vivo.

Raimi segue com carinho e admiração a via crucis do cientista que renasce das chamas. Desfigurado e submetido a um procedimento médico experimental que “desliga” os nervos de seu corpo, o que faz com que ele não sinta dor , o Dr. Peyton busca por vingança e se torna: Darkman.

Essa trama, contudo, não serve apenas de pretexto para Raimi exibir seus dotes de citação e reprocessamento. Por trás da aventura, os sentidos se estendem.

Quem afinal é Darkman?

A resposta mais simples seria dizer que é o cientista que descobre a possibilidade de criar máscaras para esconder o rosto destruído e transitar disfarçado no meio da multidão. Mas num nível mais amplo, o que o filme indica, é que, talvez, todo homem seja assim mesmo, tragicamente dividido, com uma metade sombria e outra luminosa, trazendo o bem e o mal em si.
Maniqueísmo calculado? Não, o jogo de máscaras abrange muito mais. Num momento Peyton, se disfarça do braço direito do chefão, noutro se faz passar por um anônimo na rua e a escalada de disfarces continua sem fim. A certa altura, o vilão, um engenheiro, lhe pergunta: “Eu destruo coisas para construir outras melhores e você o que faz?” Os dois discutem o propósito da beleza, se equilibrando no alto de um prédio em construção entre pilastras de aço muito estreitas. O vilão tem a aparência de um galã de folhetim, Darkman, por sua vez, traz a feiúra de um rosto descarnado. Mas ele se favorece de uma vivência que o outro não tem: “A diferença entre nós é que eu posso lidar com o monstro que me tornei, será que você pode?”

É como se Darkman nos dissesse, todo o tempo, que o êxito pode implicar na renuncia a si mesmo. O engenheiro do filme adere ao jogo das aparências e paga o preço por sua falsidade. Darkman também vive das aparências, mas pelo menos ele se incomoda de vestir tantas máscaras. No fim não consegue aceitar o pacto que a antiga namorada lhe propõe: com a máscara certa você pode se reintegrar à sociedade.

O homem sem rosto prefere se perder na abstração da multidão. Prefere, como diz: “Ser todos e não ser ninguém”.

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